29.1.07

Um mês de Oropa em roupa suja

(Primeira das três crônicas de viagem lidas no programa da Kátia)

Cheguei na lavanderia do Flávio com um mês de Oropa em roupa suja. Acreditando que o Flávio se referia ao Bom & Velho Continente e não às roupas quando mencionou "um banho de civilização", fui obrigado a concordar com o clichê. Com uma cacetada de anos à frente de nós, americanos por assim dizer, no quesito história os europeus são o que podemos realmente chamar de um povo civilizado pra caralho. O fato é que eles vivem em cidades há muito tempo e sabem como se comportar nelas. Em se tratando de Berlim, cidade que foi reerguida dos escombros da Segunda Guerra, o buraco é bem mais fundo, tão fundo quanto o fosso que serve de base prum arranha-céu. Aliás, fosso é o que não falta em Berlim. Desde a segunda metade dos anos 40 a cidade é um verdadeiro canteiro de obras. Com a possibilidade de recomeçar do zero, após o final da Guerra, os berlinenses não vacilaram em criar um espaço urbano belo, organizado e altamente funcional. Em Berlim prédios antigos e exuberantes da época do Kaiser Guilherme convivem harmonicamente com construções arrojadas, contemporêneas e não menos exuberantes. O sistema de transporte coletivo, com sua linha interligada de trem, metrô e ônibus, é tão eficaz que chega a parecer algum tipo de fantasia pra nós brasileiros. Uma cidade segura, livre da paranóia da violência epidêmica, arborizada (ainda que no inverno as árvores fiquem peladinhas, peladinhas), com um trânsito ordenado de carros, pedestres e bicicletas que flui fácil pelas vias largas e bem pavimentadas.

Culturalmente, Berlim também é um caso à parte, o chamado Muro da Vergonha que dividiu estupidamente a cidade durante quase 30 anos, o maior exemplo de qualquer particularidade cultural. A austeridade e o pragmatismo dos alemães, as sequelas morais da loucura nazista e os traumas da Guerra Fria criaram nos berlinenses um forte senso de liberdade, tolerância e respeito ao próximo. Some a isso a presença maciça de pelos menos cinco gerações de imigrantes turcos (as primeiras delas compostas por famílias de operários contratados para trabalhar na reconstrução), além de pessoas de todas as partes do mundo convivendo pacificamente no pleno espírito cosmopolita e teremos uma cidade que é total multi-culti, como gostam de dizer seus próprios habitantes. É bom lembrar que a grande maioria dos berliners sequer é nascida em Berlim, quase todos imigrantes de alguma parte do globo ou da própria Alemanha. Berlim, que mesmo sendo capital é uma espécie de filha bastarda da portentosa Germânia, orgulhosa da outra filha Munique, centro financeiro do terceiro país mais rico do planeta, Berlim acolhe esses globetrotters com gentileza. E com muita ordem, que é pra tudo funcionar direitinho. Berlim de bicicletas soltas pelas ruas de Kreuzberg, culinária fast food multi-culti de kebabs, pizza e salsicha com curry, clubes de música e sexo eletrônicos, punks anti-nazistas nada de butique, prefeito gay e love parade de um milhão de pessoas onde uma amiga, a Verrronika, foi mordida por uma cobra. Berlim dos executivos de Postdamer Platz bebendo Metropolitan no balcão do Billy Wilder's, de nigerianos congelados vendendo maconha em Goelitzer Park. Berlim, onde o Bowie gravou tês discos perfeitos produzidos pelo Brian Eno. Berlim, a cidade mais cool do planeta.

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1 Comments:

Blogger Camila said...

cool eh tu!
=)

9:52 AM  

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