7.12.07

Crônica de viagem sem número ou Antes tarde do que etc.

A tal da crônica já andava com atraso de mais de um mês a contar da primeira parada, que já rendia assunto: a querida Kátia que abandonou o roquenrol pra criar o filhinho João, proto-gênio de dois anos incompletos; Bjork em comunhão com os céus diante de um público mais frio que o vento da Islândia; a assepsia curitibana. Dentre outros.

Ai, mas de onde tirar saco pra desperdiçar vida em frente ao computador, articulando uns milhares de caracteres que dêem nalgo minimamente relevante? Ou engraçado, na pior das hipóteses. O humor é a filosofia dos banais.

– I beg your pardon: bananais?

Nem na volta quando a vida já andava completamente desperdiçada em meio à rotina asfixiante de um cotidiano tipo jogo dos sete erros, uma ou outra pequena alteração naquela repetição mal feita de dias que passam zunindo (o Natal já tá aí e blablablá). Ainda assim, nada. Sequer um rascunho sobre os vinte dias incríveis entre Curitiba, Rio, São Paulo e BH, divulgando O Vampiro, fazendo novos amigos e revendo antigos, visitando pai, tios e primos, explorando botecos em busca do chope perfeito, e, enfim, o toque de mestre em todo o masterplan: curtindo os melhores shows da temporada: 1) a já citada princesa islandesa e, pra ficar lá por aquelas bandas do ártico, 2) os Monkeys; 3) os superstar DJs Chemical Brothers; e, from New York City, 4) The Rapture e 5) o the-great-of-them-all: LCD Soundsystem – que entrou na minha antologia pessoal como “melhor show de todos os tempos”.

Nada. Todos insights em vão.

Eis que lendo um livro emprestado do Dudu Wannmacher (o Professor Gonzo como é conhecido em certos círculos): Entrevistas (Ed. Rocco), um apanhado das que Clarisse Lispector realizou com sumidades das artes/cultura/política/esportes, gente do calibre de Hélio Pellegrino, Nelson Rodrigues, Millôr, Neruda, Vinícius, Jobim, Chico, Elis, Fittipaldi e Jece Valadão.

Como bem apontou o Professor Dudu, há naquelas páginas tanta gentileza e cortesia. Atitudes jurássicas de um tempo perdido, de um país extinto, soterrado em avalanches de Caras & Bundas, infográficos de crimes hediondos, políticos escrotos exemplares.

É Clarice Lispector quem conduz a viagem, imprimindo a marca de seu ego de Grande Escritora numa conversa de gente grande. E foi nas palavras de um deles (o grande nome da Arquitetura Modernista, como diz no livro) que apareceu a tal da inspiração, um impulso de escrever sobre o fantástico Conjunto JK e as longas conversas com o Pedro Morais (o Namorado da Morgana como é conhecido em certos círculos), um morador que sabe tudo sobre esse par de prédios que levou duas décadas pra ser construído (de 1951 até os anos 1970) e faliu cinco construtoras na empreitada. Um colosso socialista em frente à Praça Raul Soares, no coração de Belo Horizonte, erguido a mando de Juscelino Kubistchek quando era governador de Minas. 36 andares com 1.176 apartamentos que vão de quitinetes minúsculas a duplex de duzentos metros quadrados. Um cosmo de cimento, vidro e muitos caprichos. O projeto original contemplava áreas de lazer, piscina, lojas, lavanderia e até uma galeria de arte que acabou virando delegacia de polícia nos anos aqueles de chumbo. O Pedro, que é arquiteto e já foi chamado de “jotakense ferrenho”, sonha em transformar o sonho do Niemeyer em realidade. Habitar o CJK da maneira como ele foi concebido pelo gigante centenário da Arquitetura.

E aí vão as palavras que inspiraram escrever qualquer coisa em que eu pudesse metê-las no meio. Singela homenagem a esse homem que, não fosse comunista, eu diria que era um santo:

“Saber situar-se neste mundo de alegrias e tristezas em que vivemos, certos de que não estamos sozinhos, que milhões de criaturas nos cercam e que a vida é injusta e sem perspectivas. Sentir a fragilidade das coisas e a pouca importância de tudo que realizamos; ter prazer em ser útil e solidário com os que sofrem, usufruindo da vida os momentos de prazer e ilusão que ela nos propicia; dar ao amor o sentido universal que merece. Nascemos para amar. Para isso, sem consulta, fomos depositados neste planeta.”

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1 Comments:

Blogger Gi KrDoSo said...

Li teu textona cidade B e gostei...A fantástica fábrica de chocolates.Vou ler tudo.Muito bom.

2:42 PM  

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