19.5.09

Depois de meses servindo como mural de flyers, este blog volta à atividade. Se ainda resta algum leitor por aí, que me desculpe.
A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE
Capítulo 24 - Os porteiros da percepção

Os porteiros se acham as pessoas mais importantes num bar, mas isso eu não acho, eu tenho certeza. Na vanguarda do pelotão, linha que separa o dentro/fora de uma festa sensacional, o porteiro é um espelho do estabelecimento pra qual trabalha. Ele é o rei disfarçado de peão no tabuleiro quadriculado do nightlife. Ele é o cara. Porque as aparências desenganam: porteiro escroto é igual a bar escroto (ok, já tivemos alguns porteiros escrotos, ter bar é humano).

O primeiro foi o Padeiro, isso lá por 93 (o Ricardo diz que houve outro, mas a memória me sabota completamente, um motoqueiro de um metro e meio, amigo do Marcos, foi contratado pra trabalhar na inauguração mas acabou fugindo no meio da noite, apavorado com a fauna). O Padeiro apareceu num show do Red Hot Chili Peppers Cover (de quinta), bermudão, bonezinho, como quem chega (e chega) da Matias. Matias Velho, land of the brave. Ele e mais duzentos garotos do subúrbio, delirando com o Red Hot Cover de quinta. Na quinta, de surpresa. Nunca poderíamos imaginar que um showzeco daqueles fosse dar tanto movimento. O Marcos viu esse mulato (um guri, 17 anos) e perguntou:

Quer um emprego?

Até então só havia o bilheteiro, um qualquer contratado pelas bandas pra cobrar entrada na porta, sem vínculos empregatícios. Mas naquela quinta-surpresa, duzentos neguinhos delirando com o Red Hot Cover de quinta (tem gosto pra tudo), o bilheteiro não foi suficiente. Precisávamos de alguém pra ajudar a conter a manada em descontrole, fortinho de preferência. E prontamente o Padeiro já saiu dando porrada num carinha que acendia um baseado. Porteiro, segurança, barman, guarda-costas, aviãozinho, pau-pra-toda-obra, Padeiro, ao nosso dispor.

Além de garantir uns trocos, o guri passou a ter acesso a um mundo completamente novo. Entrou em contato com uma realidade diferente do cenário de Velho Oeste da Matias com o qual estava habituado. Conheceu uma gente meio louca que tocava em bandas, escrevia histórias em quadrinhos, tirava fotografias, pintava quadros, gente do tipo artista, inquieta, egocêntrica e inconformada. Mais importante: o Padeiro passou a ouvir música, muita música. A música salva, me disse uma vez. E explicou: não tivesse nos conhecido, provavelmente já estaria no crime, seduzido pela vida de gangsta do tráfico, enrabado numa sela de presídio ou morto, quem sabe, num tiroteio ao nascer do sol, o chão batido da vila dando o tom de Velho Oeste na terra sem lei dos sem perspectivas. Sempre perguntava que música estava tocando e pedia pra ver as capas dos discos. Era ligadíssimo na minha coleção de funk e eu gostava de explicar quem eram Stevie Wonder, James Brown, Marvin Gaye, George Clinton, Curtis Mayfield, Isaac Hayes, Sly Stone. Enxergava nele o talento do mestre de cerimônias, além de uma enorme musicalidade (será esse o tal do pé na África?). O cara era um músico natural, cheio de ritmo e com um alcance vocal poderoso. Mais tarde foi um dos integrantes da Urro, um combo de samba-funk-rock-batucada, umas das tantas promessas não cumpridas entre toda uma geração de bandas bacanas daquela década perdida. Também foi percussionista no grupo de rap Da Guedes.

Comia todas as galzinhas que caíam no seu papinho de gigolô. Principalmente quando a gente fechava o bar e ele ficava lá, esperando o primeiro trem pra Canoas. Mas a vida de fama, sexo e drogas de porteiro ronquenrol causou uma transformação em sua personalidade. Subiu pra cabeça, como se diz por aí. Passou a viver rodeado de um séquito de puxa-sacos que lhe babavam os ovos visando entrada liberada, ceva fiada ou outros mimos. Os seguranças do segurança. Protegido, vivia armando confusão, confiante que ao menor indício de revide sua gangue lhe daria cobertura. Um poder paralelo, tirano e arbitrário, agindo nas entranhas do sistema. Brigas passaram a ser comuns e quando a gente ia averiguar o que estava acontecendo, lá estava a gangue do Padeiro linchando algum pobre coitado.

O que ele fez?

Nem lembro, mas mereceu.

Com o tempo começamos a sacar que ele era o agente provocador de TODAS as brigas que, de repente, tinham se tornado freqüentes. A razão dos nossos problemas.

Até que, a gota d’água:

Eu esperava a entrega das bebidas, quando ouvi um burburinho vindo da rua. Saí pra ver do que se tratava e me deparei com uma pequena parada do Orgulho Gay acampada na frente do bar, às seis da tarde de uma segunda-feira. Cinco ou seis pessoas, todas GLS (gays, lésbicas e suspeitas), gritavam frases de ordem, ameaçando chamar a polícia, entrar com processo, mandar prender, matar, castrar. Vizinhos apareciam nas janelas e o trânsito era interrompido pelos curiosos que paravam pra ver o bafão. Abri o portão e pedi que entrassem.

O que houve, minha gente?

A líder do grupo, uma bichinha magricela com um cachecol enrolado no pescoço, tomou a palavra. Integrantes de uma associação em defesa dos direitos dos homossexuais, eles vinham comunicar que estavam entrando na justiça contra o proprietário do bar. Logo eu, que todo mundo tirava pra viado. E então a bicha-líder contou o ocorrido:

O porteiro de vocês espancou duas colegas do movimento no último sábado.

Como assim? O Padeiro podia ser um encrenqueiro profissional, mas agredir mulheres...

E lá no fundinho do cérebro eu já sabia que ele era perfeitamente capaz de cometer uma estupidez dessas.

Deve ser algum mal-entendido.

Tentei me desculpar, já abrindo umas cervejas. Não sei como consegui dissuadi-los(as) de levar a ação adiante. Ceva e um pouco de charme, talvez.

À noite, quando o Padeiro chegou pra trabalhar, intimei o filha-da-mãe:

E essa merda do sábado passado com as sapatinhas?

Depois de negar veementemente por alguns segundos, acabou confessando:

Não me deixaram beijar junto, porra.

*

Depois veio o Bigode. Trazia no currículo uma temporada no Ocidente como porteiro do grande bunker da resistência festiva da cidade. Era um coroa magrelo que, nem precisaria dizer, usava bigode. Digo porque era realmente um bigode digno de nota: vasto, tipo Olívio Dutra, com longos fios grisalhos cobrindo a boca. Por trás da bigodeira, tinha um único dente, um incisivo solitário na arcada superior que aparecia sempre que o Bigode ria.

Da passagem do Bigode pelo bar, lembro do desfecho, quando quis nos achacar uma grana a título de rescisão de contrato, que nem havia, tudo no fio do, perdão, bigode. E também de um episódio ocorrido numa daquelas noites vazias de quartas-feiras cinzentas. Bigode, Dj Shufle e eu, e uns parcos gatos pingados que apareciam feito assombração, vagando na noite fria e desalmada daquelas quartas geladas de agosto. O tédio comendo solto quando pinta o Johnny com seu cabelinho Ramone, calça apertada, tênis All Star, jaquetinha, camiseta justa, serviço completo, barba, cabelinho e o Bigode, na portaria, liberou a entrada do cara.

Querendo agradar, o Johnny me ofereceu drogas. Era uma sacola de supermercado com um punhado de maconha, um embrulho que bem apertado ficava do tamanho de uma bola de tênis. Nunca se sabe, pode servir pra alguma coisa. Pensei enquanto colocava o pacote no bolso do casaco.

A noite transcorreu longa e tediosa até que chegou a hora de fechar. O Johnny era o único dos poucos (dois) clientes que ainda restava, aguerrido. Ofereci uma saideira pra ele enquanto dividia o butim com o Bigode, só uns trocadinhos. Saímos os três na noite fria quando, subindo a Barros, fomos surpreendidos por uma viatura da Brigada que descia a rua na contramão, sirene gritando e farol alto na cara. Parou na nossa frente e dela desceram dois policiais, armados. Acostumado com o procedimento, abri as pernas e encostei as mãos na cabeça, de frente pro muro. Eu estava cool, nada a temer, a não ser, é claro, a bola de tênis de maconha no bolso do meu...

OH MY GAWD!

O suor começou a brotar gelado nos poros do rosto enquanto eu via com o canto do olho o policial se aproximando. Tudo num ponto de vista de lente grande angular tipo clipe dos Beastie Boys. O outro apontava a arma em nossa direção e, ao fundo, a viatura piscava estacionada na contramão, portas abertas, sirene ligada. Dominado pelo pavor, fechei os olhos. Um longo meio minuto passou e, bruscamente, senti as mãos apalpando meu corpo. Logo depois, abri os olhos e o tira já revistava o Bigode. Ileso, eu tinha escapado ileso. Estava tão feliz que agradeci:

Muito obrigado, seu guarda.

Circulando!

Ordenou antes de voltar pra viatura. O outro ainda apontava a arma em nossa direção. Corremos de volta pro bar e eles desceram a rua na contramão, luzes piscando e a sirene ligada. Pela primeira vez depois do atraque, olhei pro Bigode e pro Johnny. Notei o mesmo suor frio que molhava as caras-de-pau em expressão de gratidão, exatamente iguais à minha. Foi aí que o Johnny tirou da cueca uma bucha de cocaína do tamanho de uma bola de golfe e o Bigode levantou o blusão e mostrou um revólver enfiado no cinto:

É roubada, não tem registro.

Reparei que a arma parecia embutida na barriga de faquir do Bigode, plugada dentro do abdome magro, como se fossem uma coisa só: Bigode e arma. Três figuras suspeitas, vagando na calada da noite, drogas e uma arma ilegal, e o tira não descobriu nada. Têm coisas pras quais não há explicação. Pras demais existe Visa Electron.


*


Teve também o Carlão.

O Carlão era uma massa compacta de músculos envolta em pele preta, forjada por horas e horas de muita puxação de ferro. Um pequeno touro negro, espremido no uniforme da Brigada Militar. Uma vez apareceu durante uma passagem de som pra saber se trabalharia à noite. Uma escapadinha da ronda e lá estava ele, trajado de PM, arma e cassetete na cintura, aparição tenebrosa no fumacê provocado pelos músicos que queimavam um baseado gigante e quase enfartaram com a visão daquele PM monstruoso adentrando o recinto. O Carlão nunca sabia dizer qual era a atração da noite e também era incapaz de cobrar uma entrada porque não conseguia estabelecer diálogo com outros seres humanos (com a gente ele conseguia, mas aí vai do retardamento mútuo). Em compensação, em se tratando de apartar brigas e expulsar bêbados, o Carlão era doutor. A estrutura corporal de pequena fera não impediu que fosse roubado. Numa noite, um sujeito grudou uma arma na cabeça do Carlão e pediu o dinheiro da bilheteria. Como o Carlão não lidava com cifras, o assaltante levou a única coisa que tinha pra levar dele: a arma, que, aliás, era da Brigada. Não me perguntem como o Carlão explicou isso no quartel.


*


A maior característica do Marcão (que também era negro, forte e PM) era a aversão por pessoas da mídia, pop stars de bairro, artistas malditos e demais egocêntricos. Bastava um, digamos, formador de opinião (qualquer que seja) soltar na porta a clássica sabe com quem tá falando que o Marcão virava fera.

Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe.

E cobrava, mesmo que o nome estivesse na lista. Uma vez o Marcão se envolveu num conflito com a Bia Werther. Cineasta-agitadora-barraqueira de antologia, a Bia tinha uma banda com nosso ex-sócio, o Marcos: Academias Chiquérrimas, que, nas internas, a gente chamava de Acadebias Chiquérrimas. Gravitando em torno da Bia estava seu marido Angrés, um sujeito completamente aloprado, que, entre outras tantas atividades típicas de maluco, era músico, cineasta, míope e voraz comedor de Elma Chips. O casal era proprietário do Megazine, um bar que a gente freqüentava quando não estava no nosso próprio. As duas características marcantes do Megazine eram: 1) a decoração bacana com direito a sofá vermelho em forma de feijão, mesas e cadeiras retorcidas de ferro soldado e pinturas abstratas nas paredes, e 2) o mau cheiro que exalava de um determinado ralo na salinha do meio, o cheirinho clássico do Megazine. Vi grandes pocket shows naquele bar, artistas emblemáticos desse tal de rock gaúcho, entre os quais Júpiter Maçã, Edu K e Os Marmanjados, dupla formada pelos integrantes da Graforréia Xilarmônica, Frank Jorge e Alexandre Birck, na época, Ograndi. Pois o Marcão também era porteiro do Megazine. Quando a gente não abria o bar, ele fazia uns bicos por lá. Até a noite em que, por motivo que nunca perguntei, se desentendeu com a Bia.

Na primeira oportunidade, revidou. A Bia chegou no Garagem e o Marcão exerceu seu poderzinho:

Paga.

Emputecida, ela disse alguma coisa que o deixou louco. Sem pensar, o Marcão torceu o braço dela.

E aí foi tipo Davi contra Golias porque a mulher fez um estardalhaço tamanho, ameaçando mandar prender, matar, castrar, gritedo, histeria, tanta confusão, que fomos obrigados a dispensar o Marcão. Quem mandou.

Próximo!


*


Fechando a trilogia. O Paulão era negro mas não era PM. Grande, como o ão já sugere. Dono de um sorriso reconfortante, daqueles que te fazem acreditar na raça humana. Morava numa pensão decadente na Independência, num sobrado de azulejos portugueses encardidos, climão de sordidez brabo. Adorava jogar conversa fora, tinha um jeito pausado de falar, verdadeiramente cool, além de opinião a respeito de qualquer assunto. Diferente da grande maioria dos chatos, era um bom ouvinte. Agradável interlocutor pras noites tediosas de quarta, aquelas frias e desalmadas quartas de agosto.

Mas por abrir a boca quando não devia o Paulão se meteu em confusão. Tinha esse sujeito o Luca, jeitão de mafioso italiano, cabelo encrespado, jaqueta de couro e uma moto enorme (que eu nunca saberia dizer a marca ou as cilindradas ou qualquer outra característica além de: enorme) que ele deixava estacionada na frente do bar. Muitos diziam que o Luca era traficante, mas eu não ponho minha mão no fogo por ninguém. Numa noite movimentada de final de semana o Luca apareceu acompanhado de uma gatinha nova. Estacionou na frente do portão e, querendo impressionar a guria, pediu pro Paulão cuidar da motoca.

Vê se te enxerga traficantezinho, o Paulão respondeu, cheio de si.

Se o Luca era mesmo traficante, ele não gostava de ser tratado no diminutivo. Não era grande ou musculoso e muito menos aparentava a força que provou ter. O certo é que a resposta do Paulão deixou o sujeito possuído por forças sobrenaturais. Partiu pra cima do segurança, que era no mínimo três vezes maior que ele, com uma ferocidade inacreditável. Logo alguém foi bater na porta do escritório dizendo que o segurança estava tomando um pau na portaria e cheguei a tempo de ver o Paulão acuado num canto como um gatinho indefeso enquanto o Luca girava em torno de si distribuindo pontapés. A turma do deixa-disso entrou em ação, foi preciso um bando pra segurar o Luca enfurecido. Subiu na moto com a namorada e nunca mais aparecer no bar. O Paulão seguiu trabalhando com a gente por mais um tempo, mas desde o momento em que vi o olhar de bichinho indefeso grotescamente desenhado naquele homem enorme, soube que ele não duraria muito, estava desmoralizado, nunca mais se imporia diante da turba bêbada. Ainda o encontrei algumas vezes, em frente à pensão da Independência, sempre com aquele sorriso generoso e o bom papo. Recentemente um amigo contou que pegou um táxi e tomou um susto ao notar que o motorista era o Paulão. Teve um flashback instantâneo e quase deu o endereço do bar.

*

Finalmente o Ninja veio trabalhar com a gente. Logo depois o pai dele, o Seu Jorge, se juntou ao time. Ninja, um garotão calado e bonito de feições orientais, acabou desistindo do emprego depois da apavorante Noite das Garrafadas, conforme detalhado no capítulo homônimo. E assim o Seu Jorge se tornou o derradeiro porteiro do Garagem. Na sabedoria de seus 50 anos de vida vivida, jamais precisou bater em alguém ou se envolver em agressões pra que a mínima ordem requerida fosse cumprida no recinto. Era afetuoso e educado, e impunha respeito com docilidade. O velho Jorge, com 30 anos de diferença da maioria de nós, também era um sujeito tolerante e muito menos ingênuo que a aparência de olhar simplório e a fala de língua presa poderiam fazer crer. Jamais manifestou reprovação ou preconceito diante dos nossos comportamento e hábitos, mesmo os mais heterodoxos – ou ortodoxos, questão de ponto de vista.

Na semana de eventos que marcou nossa despedida, alguns dias depois da venda, houve uma festa em homenagem ao clássico porteiro, bem no dia de seu aniversário, com show d’Os Torto e os Alcalóides, discotecagem punk e a presença do aniversariante na maior elegância, em terno e gravata, recebendo os convivas no portão.

Marcadores:

2 Comments:

Blogger Frank Franklin said...

maravilha !!! e o famoso episódio em que eu permaneci horas a fio bebado, com a bragueta aberta e o pau (murcho) aparecendo querendo sair p fora...não sei se tu chegou a pegar essa...eu tava naquela noite dos "cachorros" de um post anterior...tem que escrever mais e mais tio Léo.

11:27 PM  
Anonymous Anônimo said...

opa! belezura!
eu só tiraria a piadinha do visa electron na revisão final do livro (quando sai? hã?).

abs!
raul

6:52 PM  

Postar um comentário

<< Home