11.6.09

A FANTÁSTICA FÁBRICA
Capítulo 26 - Last days

O resumo dos últimos capítulos:

Eu era um bancário infeliz com uma bela coleção de discos e o cabelo comprido emplastado de gel e penteado pra trás. Mas naquele primeiro dia na casa, na primavera de 92, com o pé encravado na madeira podre do assoalho, os fantasmas não me preocupavam. Coloquei uma coletânea dos Sex Pistols, aquela que tem um cocô na contracapa. Saímos do bar e sentamos na frente do casarão, bem na porta da lavanderia. Um baseado importante na minha vida. O primeiro show aconteceu exatamente uma semana depois da inauguração: Graforréia Xilarmônica. Numa das paredes do bar tinha um desenho de um casal dançando e se beijando, de suas bocas escancaradas saíam enormes línguas vermelhas que se enroscavam num trançado vertical. Um beijo muito louco, como na música dos Mutantes. Tudo aconteceu muito rápido. Ficamos olhando o cara lá de cima, corpo estirado, a cara grudada no chão, nenhum sinal de vida. Não apenas anjos vinham nos fazer visita. Exus, cavalos, pombajiras e outros encostos também apareciam por lá seguidamente. Além do stress com os bandidos, tinha o stress com a polícia. Uma cláusula esquecida lá no finzinho do contrato garantia que, em caso de rompimento não-amigável da sociedade, haveria o prazo de 6 (seis) meses pra realização do inventário da empresa. A falta do alvará, esse era na verdade o problema. O estúdio do Garagem era feio, fedorento e com equipamentos meia-boca. O trabalho era um pé-no-saco. No auge do verão eu chegava a levar televisão e vídeocassete pro bar e ficava assistindo a favoritos como o recém lançado Pulp Fiction; o clássico do humor negro Doutor Fantástico ou um pouco de putaria psicodélica como Garganta Profunda, isso quando eu não tinha que trabalhar na portaria, porque no auge do verão a gente dispensava até o porteiro. Cocaína é uma merda. O Edu K perneta era um notório mala da noite roqueira. O apelido adivinha do duplo fato da figura ser um perneta que se auto-proclamava o Edu K. Faltava uma semana pra inauguração do Garagem Hermética Sushi Bar, em itálico, pra reforçar a piada. Tempos de prosperidade aqueles. Breves, mais ainda assim tempos. Os after se prolongavam até uma, duas da tarde. O sol assando a rua enquanto a gente seguia trancado lá dentro numa atmosfera controlada de fumaça de cigarro e cheiro de ceva azeda. O Júpiter era o centro solar daquela galáxia de loucos. Os punkids sentavam na calçada em frente ao bar bebendo vinho de garrafão, não entravam até que o show começasse e caíam fora logo que acabava. Vomitavam antes de sair. Tomei fôlego e rumei pra dentro do bar, não sem antes cumprimentar vinte pessoas, dar pegas em três baseados e recusar pelo menos uma oferta de pó. Era uma noite agitada, mais uma edição da Full Moon Party, a festa de música eletrônica mais badalada do Garagem. O Cinemeando no Garagem acontecia uma vez por mês no pátio da velha casa, simultaneamente à ferveção da festa, com música alta, bebedeira, pegação e o de sempre. Um gordinho bêbado tinha despencado da janela do bar até o chão do pátio: ploft! Um episódio histórico do Brasil Imperial empresta seu nome pro evento-chave na decisão de vender a PORRA DESSE BAR de uma vez por todas. E a gente se habitou a ver aquela figura circulando pelo pátio da casa de pijama e pantufas. Os porteiros se acham as pessoas mais importantes num bar, mas isso eu não acho, eu tenho certeza. Grande festa.

*

A gente adentrava os oito anos de gente da noite profissional – com carteira assinada isso daria um quinto de aposentadoria – e o saco prestes a explodir. Não tinha sobrado um pingo de glamour e ficava cada vez mais difícil se divertir naquela repetição enfadonha de sex, drugs and etc. Pra ser sincero, o sex nunca cansava mas as drugs e o etc já não eram mais as prioridades como outrora, nos idos de 1992, quando a gente tinha inventado aquela maluquice do bar e as pessoas mais velhas & sensatas diziam, agourentas, vai se dar mal. Estariam elas certas no fim das contas? Eu estava me dando mal pra caralho. Me sentia acorrentado naquele barco à deriva, prestes a afundar. Depois de quase uma década de negócio, não tinha guardado um centavo sequer, vivia no vermelho, meu único patrimônio era o nome do bar, que, aliás, era um plágio. Meu círculo de amigos se restringia a bêbados chatos, músicos fracassados, drogados compulsivos, minas histéricas e malas de todo o tipo. As conversas de boteco, ano após ano, iam me deixando cada vez mais burro, incapaz de articular o pensamento em argumentos racionais que não caíssem na dialética gaga dos muito loucos, os papinhos alusivos e abstratos, tipo sei lá, entende? Não suportava mais as ceninhas e brigas e bebedeiras de noite após noite, das bandas chatas que se multiplicavam em proporção geométrica, do eterno perrengue financeiro. Dava uma canseira ter que pensar numa nova maneira de sair do buraco, como pagar as contas que se acumulavam nas gavetas do escritório, nas constantes reformas que a casa velha demandava a todo momento. Definitivamente a carreira de empresário da noite não era o que eu queria para mim. Ao mesmo tempo não podia desprezar o trabalho que tinha feito até então, o know how, a contribuição pra cena, a rede de contatos e blablablá. O underground era o meu habitat, por lá eu circulava rastejando com destreza. Não poderia almejar sair voando de uma hora pra outra, asinhas de fora, flutuando nas nuvens do mainstream. Vender o bar era muito difícil, não só porque a gente suspeitava que quase ninguém quisesse comprar, mas também porque não podíamos vender pra qualquer um, a coisa tinha que ser certeira. Também sabíamos que a venda não podia ser anunciada de qualquer jeito, tinha que haver uma estratégia, uma ação meio secreta porque no momento em que o público soubesse que o bar estava à venda seria o nosso fim. A gente precisava manter a casa por cima pra não melar a venda, não acelerar a morte mal anunciada. Colocamos um anúncio no jornal, era um antianúncio que só poderia dar numa não-venda. Um exemplo em Publicidade e Propaganda de como não se faz. A gente não revelava o nome do estabelecimento nem o endereço. As informações nunca iam direto ao ponto, eram sempre vagas, tipo “casa estabelecida na cena roqueira, arredores da Independência”, quase uma charadinha. Quando alguém ligava, a gente continuava sem dizer o nome e o endereço do bar, buscando informações sobre o comprador, sobre sua idoneidade under, até que a pessoa acabava desistindo da arenga. A gente queria mas não queria.

Enquanto isso, a peteca não podia cair e tínhamos que seguir inventando eventos e festas que agitassem a cena, haja saco. Quando uma turminha de universitários nos procurou querendo fazer a festa do fanzine que produziam, topamos na hora. Esse era o público perfeito, os novos jovens. Os Bailões do Cardoso acabaram se tornando um dos eventos de maior sucesso nos últimos anos do bar. Particularmente, eu não compartilhava muito do humor daquela turma e não gostava dos sons que eles curtiam. Mas via neles uma nova geração tentando agitar a pasmaceira da cidade, criar novos caminhos, Porto Alegre parecia não ser a mesma província de uma década atrás. Era uma província diferente. No fundo, eu ficava orgulhoso que aqueles meninos tivessem escolhido o bar pra fazer suas festas. Da turma do COL, conhecia a Clarah desde os tempos em que ela era uma groupie peituda (devia ter uns treze anos) e já simpatizava com a porralouquice da menina. O Mojo também era garageiro confirmado, daqueles que iam curtir o bar nas noites vazias de inverno e em shows de metal, o Mojo é metaleiro que eu sei. Estava ligado nele há tempos, já tínhamos conversado sobre Oscar Wilde na salinha dos fundos uma vez. A primeira data que oferecemos pra fazerem a festa foi uma segunda-feira. Acertei todos detalhes com o Pilla, um cara com quem simpatizei na hora, e quando cheguei pra abrir o bar, às onze da noite, ele já esperava no portão com uns livros que sorteariam durante a festa. O freezer estava desligado desde a manhã de domingo e naquela noite de segunda a cerveja foi vendida, com otimismo, fria. Ironicamente, graças ao padrão aleatório do nosso rodízio de trabalho, só fui a mais um Bailão do Cardoso (mesmo assim acabei pagando o pato pela desconfiança dos COLunistas de que eram lesados na bilheteria, quando, um pouco depois da venda do bar, fui agredido pelo Hermano, um dos mais robustos e menos talentosos do grupo, cúmulo da ironia!, no próprio Garagem – o fim de uma era, de fato). Logo depois acabei ingressando no curso de Jornalismo (eu queria voltar a estudar ma non troppo) e virei bixo de muitos daqueles guris. Daquele núcleo de amigos criativos e talentosos sairiam alguns nomes destacados da literatura brasileira contemporânea, como Daniel “Mojo” Pelizzari, Clarah Averbuck e o Fernando Sabino da geração 00, Daniel Galera. E, claro, o André “Cardoso” Czarnobai, um ruivo figuraça e boa gente cuja profissão atual, li esses dias, é de “consultor criativo”, não parece o emprego perfeito?

Então o Ricardo começou a trabalhar novamente com tecnologia e publicidade, um trampo que ele tinha abandonado quando abrimos o bar, e aí passamos a ter outras atividades além daquelas relacionados ao mundinho estreito da noite. Só nos encontrávamos nas reuniões de segunda e até paramos de ensaiar com a banda. Novos ares. Na faculdade, passei a conviver com pessoas cinco, seis, sete anos mais novas que eu, um povo ávido por descobertas e discussões, pessoas que acabariam se tornando meus melhores amigos. Essa turminha passou a freqüentar o bar e foi como um último lampejo. Certamente desfrutaram bons momentos no velho casarão.

Eu era uma toupeira tecnológica mas o Ricardo estava superinserido no mundo digital que começava a revolucionar o mundo. Ele desenvolveu um site pro bar e inventou a festa Mp3 Delícia, com a parceria do Diego Medina, nosso amigo hypado do período. A dupla de ruivos, mais a Polla e o Jaspion discotecavam num PC instalado no palco, algo realmente muito novo pra Porto Alegre de 1999, pauta pra capa de Segundo Caderno. Também sempre rolava uns showzinhos da banda Os Massa, mais um projeto do Diego, que parecia ter o toque de Midas, tudo que ele tocava virava cult.

E assim a gente mantinha umas festas legais no calendário pra compensar as noites vazias de dia de semana, os shows falhados e o tédio geral. Duas ou três noites por mês em que tudo ficava divertido de novo e eu podia sair do bar de manhã cedo, bêbado e feliz, com o dinheiro do aluguel salvo. Quando se tem pouco, qualquer coisa já é alguma coisa. A presença dos amigos também era sempre reconfortante, quando apareciam pruma visitinha no nosso isolamento no escritório (chegou um ponto em que não saíamos mais do escritório, a loucura da noite transcorrendo sem que fôssemos até o banheiro, o xixi a gente fazia numas garrafas de cerveja vazias, paranóia pura de encontrar algum chato que nos pedisse uma liberação, bebida fiada, desconto, quem não é visto, não é lembrado), daí o amigo batia, noc, noc, e geralmente contava o que estava acontecendo lá fora, alguns ofereciam algum mimo, outros vinham pedir carinho, assim é a vida. Mas os melhores amigos eram aqueles que apareciam naquelas noites falhadíssimas, em bando, e sentavam nas mesinhas dos fundos e baixavam ceva atrás de ceva, pouco importando se não houvesse ninguém além deles mesmos, curtindo o papo, o fumo e o som. Lembro do Diego Medina nos salvando de vários fracassos, garantido o salário do Seu Jorge em noitadas que duravam até o sol nascer, regadas a cereveja e conversa fiada.

Mas no fundo havia essa desesperança, tipo loser, soy un perdedor/so why don’t you kill me. O Beck tinha sintetizado poeticamente o espírito dos anos 90. A gente se sentia meio uns trastes sem perspectivas, sem desejo de nada, se nos matassem não faria diferença. Nos definíamos pelo que a gente não era, pelo que a gente não queria, mas parecíamos incapazes de propor alternativas ao grande NÃO que a gente vivia dizendo. Pra nós sempre tinha bastado viver naquele mundo paralelo, lentos numa nuvem de baseado ou acelerados numa trilha de cocaína, tanto faz, a inércia sempre nos acompanhava. Vencer a inércia era o desafio. Eu já considerava um mérito ter conseguido voltar a estudar (ainda que fosse Comunicação) depois de anos só me emburrecendo com as conversas de boteco. Talvez fosse um começo. Mas ainda era pouco.

No início de 2000 a Tequila Baby (que havia feito seus primeiros shows no Garagem ainda quando era uma banda new wave tipo Blitz, isso lá por 93), agendou uma temporada no bar. Quatro shows em um mês. Aquilo iria nos ajudar a sair um pouquinho da lama, mas, logo na primeira noite, a paulada na cabeça, não ia ser fácil. Uma equipe de fiscalização da Secretaria do Meio Ambiente fez uma visita naquela noite e interditou nossa aparelhagem de som. Aparentemente tinha sido feita uma medição sonora em função de reclamações de vizinhos e nossa condição era irregular.

Interdita, disse o fiscal.

Mas o que ele não sabia é que o PA de shows não era o mesmo que o do som mecânico. Como só um dos equipamentos foi interditado (o do som mecânico) o show da Tequila Baby aconteceu conforme planejado, com discotecagem do incansável Dj Shufle, instalado na beirada do palco, acompanhado de seu cd player carrossel e cinco boas coletâneas. A noite transcorreu com aquela apreensão no ar, o cagaço de que a qualquer momento os fiscais pudessem voltar e nos desmascarar. Ou pior: multar.

No dia seguinte, sol causticante de verão, eu dentro de um ônibus apinhado, voltando da reunião com os funcionários da SMAM que tinham me informado que o bar seria interditado definitivamente se eu não cumpríssemos as determinações que a Secretaria impunha. Basicamente teríamos que fazer uma nova vedação acústica e o uso do pátio, que já era vetado mas a gente descumpria na maior cara dura, passava a ser terminantemente vetado. Se voltássemos a usá-lo, correríamos o risco de ter nosso alvará confiscado. As perspectivas eram tenebrosas. Como levantar o dinheiro pras reformas se não podíamos usar o pátio externo, o maior atrativo do bar nas calorentas noites de verão? O bar sem o pátio perderia todo seu charme. Além disso, já não tínhamos mais disposição alguma pra queimar neurônios tentando lançar uma nova picaretagem-salvadora-de-última-hora (por exemplo: o Garagem Hermética Trattoria) que nos erguesse novamente do fundo do poço. Sem falar nas contas atrasadas que se acumulavam na gaveta da mesa do escritório, remotas chances de quitação. Aquele parecia ser o fim. The end. Finito. Kaput. Eu me sentia miserável, a bordo do ônibus lotado, voltando da reunião naquela tarde infernal. Entrando da vida adulta como universitário tardio sem um tostão no bolso (e cheio de dívidas), proprietário de um bar decadente prestes a falir. Se ali mesmo dentro do ônibus alguém me oferece uns trocados que quitassem minhas dívidas eu passaria o bar adiante, não importando a idoneidade under do comprador. Eu delirava com qualquer possibilidade fantasiosa de sair da merda, a miragem do desespero.

Foi nessa época que o Ricardo jogou a toalha e eu fiquei cuidando do bar sozinho. O trabalho com publicidade começa a lhe render uma grana e tomar muito tempo, o Garagem era um estorvo pra ele. Como ainda precisava desesperadamente do pouco dinheiro que rendia o boteco, aguentei no osso. Combinamos que ele trabalharia de dia, em algumas funções administrativas, e eu me encarregaria do funcionamento da casa, à noite, alguém tem que fazer o trabalho sujo. Me virava entre a vida de empresário da noite falido e as aulas na faculdade, que eram, a maioria, à tarde. Curtindo meus novos amigos que descobriam o Garagem com um entusiasmo que eu já tinha perdido.

*

Em agosto, dois meses antes de completar oito anos de serviços prestados ao roquenrol, o Bar Garagem Hermética foi vendido. O primeiro interessado idôneo foi o Toninho, que já havia comprado o Elo Perdido do Renatão. O Toninho chegou a levar um arquiteto pra orçar as reformas que teria que fazer na casa. Ficou de dar uma resposta na semana seguinte e nesse meio tempo recebi o telefonema do Fernando, um cara que tinha duas lojas de discos na Galeria Chaves. Nos reunimos prum café e o Fernando discorreu por horas sobre todas suas ótimas intenções em relação ao Garagem, um patrimônio cultural porto-alegrense, segundo ele. O cara parecia completamente idôneo, apesar da falastrice. Tinha como parceiro de negócio o Pio, dono do tradicionalíssimo Zelig (idoneidade pouca é bobagem) e, pelo jeito, dinheiro pra investir. O valor que pedimos pelo ponto e o nome do bar foi irrisório. A gente sabia que o novo proprietário teria ainda que gastar muito em reformas na velha casa.

Vinte pila e é teu.

*

Depois de uma reforma que durou meses, o Garagem reabriu sob nova direção. Como quem quer esquecer um passado negro, o Ricardo não apareceu na reinauguração. Minha curiosidade falou mais alto e não pude evitar um enorme estranhamento ao entrar na velha casa, cujas paredes haviam sido todas postas abaixo. O antigo e podre banheiro virara um limpo corredor e, na salinha dos fundos, dois banheiros novinhos tinham sido construídos. O acesso ao pátio estava vetado. Curioso é que o ambiente interno parecia menor.

Com o passar do tempo se tornou clichê relembrar do Velho Garagem e de como as coisas eram melhores, antes. Saudosismo é uma merda. Mas não dá pra negar que o bar perdeu muito do espírito que o moveu por quase uma década. Eram outros tempos afinal, outras circunstâncias, outras pessoas. O tipo de coisa que só acontece uma vez. E que um dia tem que terminar. E a gente já tinha aprendido com todos os mortos célebres do ronquenrol que não dava pra viver o tempo inteiro dos excessos, impossível seguir sempre na base da inconseqüência, da irresponsabilidade e da embriaguez, a vida não comportava. 24 horas por dia, durante quase dez anos, tínhamos vivido intensamente o sex, drugs and etc. O teenage spirit que exalava dos nossos tênis e coturnos surrados era autêntico.

A questã é que o chulé do sapato do novo dono era outro. E nada mais será como antes.

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19.5.09

Depois de meses servindo como mural de flyers, este blog volta à atividade. Se ainda resta algum leitor por aí, que me desculpe.
A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE
Capítulo 24 - Os porteiros da percepção

Os porteiros se acham as pessoas mais importantes num bar, mas isso eu não acho, eu tenho certeza. Na vanguarda do pelotão, linha que separa o dentro/fora de uma festa sensacional, o porteiro é um espelho do estabelecimento pra qual trabalha. Ele é o rei disfarçado de peão no tabuleiro quadriculado do nightlife. Ele é o cara. Porque as aparências desenganam: porteiro escroto é igual a bar escroto (ok, já tivemos alguns porteiros escrotos, ter bar é humano).

O primeiro foi o Padeiro, isso lá por 93 (o Ricardo diz que houve outro, mas a memória me sabota completamente, um motoqueiro de um metro e meio, amigo do Marcos, foi contratado pra trabalhar na inauguração mas acabou fugindo no meio da noite, apavorado com a fauna). O Padeiro apareceu num show do Red Hot Chili Peppers Cover (de quinta), bermudão, bonezinho, como quem chega (e chega) da Matias. Matias Velho, land of the brave. Ele e mais duzentos garotos do subúrbio, delirando com o Red Hot Cover de quinta. Na quinta, de surpresa. Nunca poderíamos imaginar que um showzeco daqueles fosse dar tanto movimento. O Marcos viu esse mulato (um guri, 17 anos) e perguntou:

Quer um emprego?

Até então só havia o bilheteiro, um qualquer contratado pelas bandas pra cobrar entrada na porta, sem vínculos empregatícios. Mas naquela quinta-surpresa, duzentos neguinhos delirando com o Red Hot Cover de quinta (tem gosto pra tudo), o bilheteiro não foi suficiente. Precisávamos de alguém pra ajudar a conter a manada em descontrole, fortinho de preferência. E prontamente o Padeiro já saiu dando porrada num carinha que acendia um baseado. Porteiro, segurança, barman, guarda-costas, aviãozinho, pau-pra-toda-obra, Padeiro, ao nosso dispor.

Além de garantir uns trocos, o guri passou a ter acesso a um mundo completamente novo. Entrou em contato com uma realidade diferente do cenário de Velho Oeste da Matias com o qual estava habituado. Conheceu uma gente meio louca que tocava em bandas, escrevia histórias em quadrinhos, tirava fotografias, pintava quadros, gente do tipo artista, inquieta, egocêntrica e inconformada. Mais importante: o Padeiro passou a ouvir música, muita música. A música salva, me disse uma vez. E explicou: não tivesse nos conhecido, provavelmente já estaria no crime, seduzido pela vida de gangsta do tráfico, enrabado numa sela de presídio ou morto, quem sabe, num tiroteio ao nascer do sol, o chão batido da vila dando o tom de Velho Oeste na terra sem lei dos sem perspectivas. Sempre perguntava que música estava tocando e pedia pra ver as capas dos discos. Era ligadíssimo na minha coleção de funk e eu gostava de explicar quem eram Stevie Wonder, James Brown, Marvin Gaye, George Clinton, Curtis Mayfield, Isaac Hayes, Sly Stone. Enxergava nele o talento do mestre de cerimônias, além de uma enorme musicalidade (será esse o tal do pé na África?). O cara era um músico natural, cheio de ritmo e com um alcance vocal poderoso. Mais tarde foi um dos integrantes da Urro, um combo de samba-funk-rock-batucada, umas das tantas promessas não cumpridas entre toda uma geração de bandas bacanas daquela década perdida. Também foi percussionista no grupo de rap Da Guedes.

Comia todas as galzinhas que caíam no seu papinho de gigolô. Principalmente quando a gente fechava o bar e ele ficava lá, esperando o primeiro trem pra Canoas. Mas a vida de fama, sexo e drogas de porteiro ronquenrol causou uma transformação em sua personalidade. Subiu pra cabeça, como se diz por aí. Passou a viver rodeado de um séquito de puxa-sacos que lhe babavam os ovos visando entrada liberada, ceva fiada ou outros mimos. Os seguranças do segurança. Protegido, vivia armando confusão, confiante que ao menor indício de revide sua gangue lhe daria cobertura. Um poder paralelo, tirano e arbitrário, agindo nas entranhas do sistema. Brigas passaram a ser comuns e quando a gente ia averiguar o que estava acontecendo, lá estava a gangue do Padeiro linchando algum pobre coitado.

O que ele fez?

Nem lembro, mas mereceu.

Com o tempo começamos a sacar que ele era o agente provocador de TODAS as brigas que, de repente, tinham se tornado freqüentes. A razão dos nossos problemas.

Até que, a gota d’água:

Eu esperava a entrega das bebidas, quando ouvi um burburinho vindo da rua. Saí pra ver do que se tratava e me deparei com uma pequena parada do Orgulho Gay acampada na frente do bar, às seis da tarde de uma segunda-feira. Cinco ou seis pessoas, todas GLS (gays, lésbicas e suspeitas), gritavam frases de ordem, ameaçando chamar a polícia, entrar com processo, mandar prender, matar, castrar. Vizinhos apareciam nas janelas e o trânsito era interrompido pelos curiosos que paravam pra ver o bafão. Abri o portão e pedi que entrassem.

O que houve, minha gente?

A líder do grupo, uma bichinha magricela com um cachecol enrolado no pescoço, tomou a palavra. Integrantes de uma associação em defesa dos direitos dos homossexuais, eles vinham comunicar que estavam entrando na justiça contra o proprietário do bar. Logo eu, que todo mundo tirava pra viado. E então a bicha-líder contou o ocorrido:

O porteiro de vocês espancou duas colegas do movimento no último sábado.

Como assim? O Padeiro podia ser um encrenqueiro profissional, mas agredir mulheres...

E lá no fundinho do cérebro eu já sabia que ele era perfeitamente capaz de cometer uma estupidez dessas.

Deve ser algum mal-entendido.

Tentei me desculpar, já abrindo umas cervejas. Não sei como consegui dissuadi-los(as) de levar a ação adiante. Ceva e um pouco de charme, talvez.

À noite, quando o Padeiro chegou pra trabalhar, intimei o filha-da-mãe:

E essa merda do sábado passado com as sapatinhas?

Depois de negar veementemente por alguns segundos, acabou confessando:

Não me deixaram beijar junto, porra.

*

Depois veio o Bigode. Trazia no currículo uma temporada no Ocidente como porteiro do grande bunker da resistência festiva da cidade. Era um coroa magrelo que, nem precisaria dizer, usava bigode. Digo porque era realmente um bigode digno de nota: vasto, tipo Olívio Dutra, com longos fios grisalhos cobrindo a boca. Por trás da bigodeira, tinha um único dente, um incisivo solitário na arcada superior que aparecia sempre que o Bigode ria.

Da passagem do Bigode pelo bar, lembro do desfecho, quando quis nos achacar uma grana a título de rescisão de contrato, que nem havia, tudo no fio do, perdão, bigode. E também de um episódio ocorrido numa daquelas noites vazias de quartas-feiras cinzentas. Bigode, Dj Shufle e eu, e uns parcos gatos pingados que apareciam feito assombração, vagando na noite fria e desalmada daquelas quartas geladas de agosto. O tédio comendo solto quando pinta o Johnny com seu cabelinho Ramone, calça apertada, tênis All Star, jaquetinha, camiseta justa, serviço completo, barba, cabelinho e o Bigode, na portaria, liberou a entrada do cara.

Querendo agradar, o Johnny me ofereceu drogas. Era uma sacola de supermercado com um punhado de maconha, um embrulho que bem apertado ficava do tamanho de uma bola de tênis. Nunca se sabe, pode servir pra alguma coisa. Pensei enquanto colocava o pacote no bolso do casaco.

A noite transcorreu longa e tediosa até que chegou a hora de fechar. O Johnny era o único dos poucos (dois) clientes que ainda restava, aguerrido. Ofereci uma saideira pra ele enquanto dividia o butim com o Bigode, só uns trocadinhos. Saímos os três na noite fria quando, subindo a Barros, fomos surpreendidos por uma viatura da Brigada que descia a rua na contramão, sirene gritando e farol alto na cara. Parou na nossa frente e dela desceram dois policiais, armados. Acostumado com o procedimento, abri as pernas e encostei as mãos na cabeça, de frente pro muro. Eu estava cool, nada a temer, a não ser, é claro, a bola de tênis de maconha no bolso do meu...

OH MY GAWD!

O suor começou a brotar gelado nos poros do rosto enquanto eu via com o canto do olho o policial se aproximando. Tudo num ponto de vista de lente grande angular tipo clipe dos Beastie Boys. O outro apontava a arma em nossa direção e, ao fundo, a viatura piscava estacionada na contramão, portas abertas, sirene ligada. Dominado pelo pavor, fechei os olhos. Um longo meio minuto passou e, bruscamente, senti as mãos apalpando meu corpo. Logo depois, abri os olhos e o tira já revistava o Bigode. Ileso, eu tinha escapado ileso. Estava tão feliz que agradeci:

Muito obrigado, seu guarda.

Circulando!

Ordenou antes de voltar pra viatura. O outro ainda apontava a arma em nossa direção. Corremos de volta pro bar e eles desceram a rua na contramão, luzes piscando e a sirene ligada. Pela primeira vez depois do atraque, olhei pro Bigode e pro Johnny. Notei o mesmo suor frio que molhava as caras-de-pau em expressão de gratidão, exatamente iguais à minha. Foi aí que o Johnny tirou da cueca uma bucha de cocaína do tamanho de uma bola de golfe e o Bigode levantou o blusão e mostrou um revólver enfiado no cinto:

É roubada, não tem registro.

Reparei que a arma parecia embutida na barriga de faquir do Bigode, plugada dentro do abdome magro, como se fossem uma coisa só: Bigode e arma. Três figuras suspeitas, vagando na calada da noite, drogas e uma arma ilegal, e o tira não descobriu nada. Têm coisas pras quais não há explicação. Pras demais existe Visa Electron.


*


Teve também o Carlão.

O Carlão era uma massa compacta de músculos envolta em pele preta, forjada por horas e horas de muita puxação de ferro. Um pequeno touro negro, espremido no uniforme da Brigada Militar. Uma vez apareceu durante uma passagem de som pra saber se trabalharia à noite. Uma escapadinha da ronda e lá estava ele, trajado de PM, arma e cassetete na cintura, aparição tenebrosa no fumacê provocado pelos músicos que queimavam um baseado gigante e quase enfartaram com a visão daquele PM monstruoso adentrando o recinto. O Carlão nunca sabia dizer qual era a atração da noite e também era incapaz de cobrar uma entrada porque não conseguia estabelecer diálogo com outros seres humanos (com a gente ele conseguia, mas aí vai do retardamento mútuo). Em compensação, em se tratando de apartar brigas e expulsar bêbados, o Carlão era doutor. A estrutura corporal de pequena fera não impediu que fosse roubado. Numa noite, um sujeito grudou uma arma na cabeça do Carlão e pediu o dinheiro da bilheteria. Como o Carlão não lidava com cifras, o assaltante levou a única coisa que tinha pra levar dele: a arma, que, aliás, era da Brigada. Não me perguntem como o Carlão explicou isso no quartel.


*


A maior característica do Marcão (que também era negro, forte e PM) era a aversão por pessoas da mídia, pop stars de bairro, artistas malditos e demais egocêntricos. Bastava um, digamos, formador de opinião (qualquer que seja) soltar na porta a clássica sabe com quem tá falando que o Marcão virava fera.

Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe.

E cobrava, mesmo que o nome estivesse na lista. Uma vez o Marcão se envolveu num conflito com a Bia Werther. Cineasta-agitadora-barraqueira de antologia, a Bia tinha uma banda com nosso ex-sócio, o Marcos: Academias Chiquérrimas, que, nas internas, a gente chamava de Acadebias Chiquérrimas. Gravitando em torno da Bia estava seu marido Angrés, um sujeito completamente aloprado, que, entre outras tantas atividades típicas de maluco, era músico, cineasta, míope e voraz comedor de Elma Chips. O casal era proprietário do Megazine, um bar que a gente freqüentava quando não estava no nosso próprio. As duas características marcantes do Megazine eram: 1) a decoração bacana com direito a sofá vermelho em forma de feijão, mesas e cadeiras retorcidas de ferro soldado e pinturas abstratas nas paredes, e 2) o mau cheiro que exalava de um determinado ralo na salinha do meio, o cheirinho clássico do Megazine. Vi grandes pocket shows naquele bar, artistas emblemáticos desse tal de rock gaúcho, entre os quais Júpiter Maçã, Edu K e Os Marmanjados, dupla formada pelos integrantes da Graforréia Xilarmônica, Frank Jorge e Alexandre Birck, na época, Ograndi. Pois o Marcão também era porteiro do Megazine. Quando a gente não abria o bar, ele fazia uns bicos por lá. Até a noite em que, por motivo que nunca perguntei, se desentendeu com a Bia.

Na primeira oportunidade, revidou. A Bia chegou no Garagem e o Marcão exerceu seu poderzinho:

Paga.

Emputecida, ela disse alguma coisa que o deixou louco. Sem pensar, o Marcão torceu o braço dela.

E aí foi tipo Davi contra Golias porque a mulher fez um estardalhaço tamanho, ameaçando mandar prender, matar, castrar, gritedo, histeria, tanta confusão, que fomos obrigados a dispensar o Marcão. Quem mandou.

Próximo!


*


Fechando a trilogia. O Paulão era negro mas não era PM. Grande, como o ão já sugere. Dono de um sorriso reconfortante, daqueles que te fazem acreditar na raça humana. Morava numa pensão decadente na Independência, num sobrado de azulejos portugueses encardidos, climão de sordidez brabo. Adorava jogar conversa fora, tinha um jeito pausado de falar, verdadeiramente cool, além de opinião a respeito de qualquer assunto. Diferente da grande maioria dos chatos, era um bom ouvinte. Agradável interlocutor pras noites tediosas de quarta, aquelas frias e desalmadas quartas de agosto.

Mas por abrir a boca quando não devia o Paulão se meteu em confusão. Tinha esse sujeito o Luca, jeitão de mafioso italiano, cabelo encrespado, jaqueta de couro e uma moto enorme (que eu nunca saberia dizer a marca ou as cilindradas ou qualquer outra característica além de: enorme) que ele deixava estacionada na frente do bar. Muitos diziam que o Luca era traficante, mas eu não ponho minha mão no fogo por ninguém. Numa noite movimentada de final de semana o Luca apareceu acompanhado de uma gatinha nova. Estacionou na frente do portão e, querendo impressionar a guria, pediu pro Paulão cuidar da motoca.

Vê se te enxerga traficantezinho, o Paulão respondeu, cheio de si.

Se o Luca era mesmo traficante, ele não gostava de ser tratado no diminutivo. Não era grande ou musculoso e muito menos aparentava a força que provou ter. O certo é que a resposta do Paulão deixou o sujeito possuído por forças sobrenaturais. Partiu pra cima do segurança, que era no mínimo três vezes maior que ele, com uma ferocidade inacreditável. Logo alguém foi bater na porta do escritório dizendo que o segurança estava tomando um pau na portaria e cheguei a tempo de ver o Paulão acuado num canto como um gatinho indefeso enquanto o Luca girava em torno de si distribuindo pontapés. A turma do deixa-disso entrou em ação, foi preciso um bando pra segurar o Luca enfurecido. Subiu na moto com a namorada e nunca mais aparecer no bar. O Paulão seguiu trabalhando com a gente por mais um tempo, mas desde o momento em que vi o olhar de bichinho indefeso grotescamente desenhado naquele homem enorme, soube que ele não duraria muito, estava desmoralizado, nunca mais se imporia diante da turba bêbada. Ainda o encontrei algumas vezes, em frente à pensão da Independência, sempre com aquele sorriso generoso e o bom papo. Recentemente um amigo contou que pegou um táxi e tomou um susto ao notar que o motorista era o Paulão. Teve um flashback instantâneo e quase deu o endereço do bar.

*

Finalmente o Ninja veio trabalhar com a gente. Logo depois o pai dele, o Seu Jorge, se juntou ao time. Ninja, um garotão calado e bonito de feições orientais, acabou desistindo do emprego depois da apavorante Noite das Garrafadas, conforme detalhado no capítulo homônimo. E assim o Seu Jorge se tornou o derradeiro porteiro do Garagem. Na sabedoria de seus 50 anos de vida vivida, jamais precisou bater em alguém ou se envolver em agressões pra que a mínima ordem requerida fosse cumprida no recinto. Era afetuoso e educado, e impunha respeito com docilidade. O velho Jorge, com 30 anos de diferença da maioria de nós, também era um sujeito tolerante e muito menos ingênuo que a aparência de olhar simplório e a fala de língua presa poderiam fazer crer. Jamais manifestou reprovação ou preconceito diante dos nossos comportamento e hábitos, mesmo os mais heterodoxos – ou ortodoxos, questão de ponto de vista.

Na semana de eventos que marcou nossa despedida, alguns dias depois da venda, houve uma festa em homenagem ao clássico porteiro, bem no dia de seu aniversário, com show d’Os Torto e os Alcalóides, discotecagem punk e a presença do aniversariante na maior elegância, em terno e gravata, recebendo os convivas no portão.

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2.6.08

A FANTÁSTICA FÁBRICA
Capítulo 23 - Seu Antônio

Essa é a história do homem que morava embaixo do Garagem.

Seu Antônio era um mulato de 50 e tantos anos, viúvo, pai de dois filhos, estudante temporão de História na FAPA e, rufar dos tambores (tambores que o Seu Antônio não ouviria, assim como não ouvia a zoeira rock’n’roll all night long das longas noites do inferninho): surdo.

O dono da lavanderia no primeiro andar tinha sublocado uma das peças. Numa dessas tardes enfadonhas, esperando a entrega das bebidas durante a passagem de som, tédio absoluto, e pior: banda chata, vi esse velho de pijama e pantufas, zanzando no pátio do casarão. Desci pela escadinha lateral e, incisivo, abordei o homem, tom de voz tipo histérico:

Pois não?

O velho se apresentou: novo vizinho.

Agora essa, pensei.

Num tom mais ameno, perguntei se o barulho não incomodava.

Quê?

E a gente se habitou a ver aquela figura circulando pelo pátio da casa de pijama e pantufas. Mesmo sem escutar direito, Seu Antônio adorava uma conversa. O Ricardo não tinha a mínima paciência com o velho, de ficar gritando pra que ele ouvisse, tampouco com os assuntos. Quanto a mim, não era apenas o sentimento de piedade que me fazia parar pros dois dedos de prosa, como ele costumava dizer, eu gostava de conversar com ele. Na maioria das vezes, falávamos de política. Aos brados, invariavelmente. Era engajado em ações sociais em prol de comunidades carentes, lutava contra o preconceito racial e dormia o sono dos surdos, enquanto a gente arquitetava insone e inconscientemente uma revolução apolítica e egoísta. Ele também: 1) roncava, a ponto de fazer eco naquelas noites vazias e por si só deprimentes, imagina com uma trilha sonora dessas; 2) juntava lixo e sucata, como muitos desses velhos doidos por aí. Vivia trazendo algum entulho da rua e o pátio ficava sempre lotado de coisas inúteis. Quando fizemos uma festa junina, o Ricardo foi até o depósito de entulhos do Seu Antônio e trouxe de lá uns pedaços de madeira pra alimentar a fogueira montada no pátio, enfim alguma utilidade. No dia seguinte, o velho apareceu puto da cara reclamando que a gente tinha queimado um pé de mesa de grande estima pra ele.

Não contente em montar o ferro-velho, o Seu Antônio também resolveu abrir um restaurante. O bistrô do Seu Antônio era meia dúzia de mesinhas no pátio dos fundos, disputando espaço, lado a lado, com o depósito de entulho. Contando ninguém acredita. Eu mesmo custei quando ele disse que ia abrir um refeitório no meio de toda aquela tralha. Escreveu almoço numa placa de madeira tirada do próprio ferro-velho e pendurou no portão da frente. Achei que ninguém iria engolir aquilo mas nunca se pode subestimar a raça humana porque o Bric-à-brac Bistrô acabou conquistando uma pequena clientela. Era composta por gente da base da pirâmide social da Barros Cassal e arredores: garis, empacotadores, estivadores do asfalto e outros mortos de fome. Só mesmo à beira da morte pra encarar aquela gororoba sinistra servida pelo Seu Antônio, que sempre me convidava pruma boquinha:

É por conta.

Não, obrigado. E uma repugnante fragrância de fritura subia pro segundo andar, impregnando o ambiente e somando um fedorzinho extra ao característico blend de cigarro e cerveja choca. Eu ficava imaginando que tipo de coisa ele fritava. Algo caçado no depósito de entulho provavelmente.

Numa dessas tardes tediosas de espera da bebida (the story of my life), o Seu Antônio me chamou lá embaixo. Não o via tão irritado desde quando queimamos seu estimado pé de mesa.

Quê houve, Seu Antônio? Gritei da janela.

Daí ele falou de uma goteira que pingava na cozinha do seu refeitório. Descobri que um dos nossos freezers não tinha a tampa da manguerinha que escoa pra fora aquela água suja de gelo derretido e cerveja azeda. Assim que desligávamos a chave de força no domingo de manhã, pós-festerê, aquela sopa fria começava a se formar dentro do freezer e ia pingar lá embaixo no ensopado do Seu Antônio.

Por essas e outras, o empreendimento gastronômico não vingou e o Seu Antônio passou a se dedicar a sua pesquisa acadêmica em História. De vez em quando recebia a visita do filho, um carinha da minha idade (na época, hoje deve ser bem mais velho). Tinha também uma filha, mas só a vi uma vez, quando apareceu pra almoçar ainda no tempo do bistrô. Depois de provar a comida, nunca mais voltou.

Outra bronca que ele tinha com a gente era com o banheiro. O banheiro do Seu Antônio ficava fora da casa, numa área de serviço ao lado do pátio. À noite, o pessoal que trabalhava no bar também usava aquele banheirinho de emergência, sempre limpo e sem filas. Não demorou pra que o banheiro limpeza do Seu Antônio se tornasse de domínio público e TODO MUNDO dava um jeito de burlar o segurança e, pulando o portãozinho lateral, ir até lá satisfazer as necessidades, fossem elas químicas, fisiológicas ou sexuais. O resultado era que, no fim da noite, ou seja, de manhã, quando o Seu Antônio acordava e, como um relógio, ia fazer suas abluções matinais, o banheiro estava um completo desastre: papel higiênico sujo transbordando da lixeira, camisinhas usadas, xixi na tampa do vaso, o de praxe em se tratando de banheiro de boteco.

Um dia ele perguntou onde comprávamos os docinhos.

Docinhos?

Esses negrinhos que vocês vendem adoidado.

Negrinhos?

Sim, esses que o pessoal come e depois atira o papel do embrulho no vaso, eu sempre tenho que desentupir.

Achei que o velho estivesse delirando. Uma noite, cheio de cerveja na bexiga, fui usar o banheiro de emergência do Seu Antônio e quando mirei o pinto no meio do vaso vi o papel de embrulho a que ele se referia. Juro que: 1) definitivamente não era de negrinho e 2) não era a gente quem vendia.

Foi numa noite de inverno, um friozão fodido dessas quintas-feiras que eu só queria estar em casa vendo tevê embaixo do cobertor, que o Seu Antônio apareceu dentro do bar, um chambre puído por cima do pijama. Uns clientes que estavam no meio da sala viram aquela figura esfarrapada e soltaram uma gargalhada. Eram os mesmos que, minutos antes, tinham rido quando o chão soltara um estalo num intervalo de música. Um estalo mais alto que os estalos de sempre.

Tremeu o chão, gente!

Gritou uma bichinha roliça e os amigos caíram na risada. Era a mesma bichinha que, guinchando como uma hiena, apontava pro Seu Antônio de chambre e pantufa. Pensei que ele ia reclamar do banheiro ou de algum pedaço valioso de entulho que a gente havia detonado. De mansinho, me pediu que o seguisse até sua casa.

Era uma peça abarrotada de livros, revistas e jornais que ele dizia se tratar do material de sua pesquisa, tudo empilhado nos cantos, ocupando a maioria do espaço. Um colchão velho estirado no meio da bagunça, o pequeno fogão encostado na parede e era isso.

Embasbacado diante da austeridade da casa do Seu Antônio, esqueci o motivo da visita até que ele chamou a minha atenção, apontando pra cima. Ali estava a viga do segundo piso, exposta em sua fratura, a origem do estalo mais alto que os de sempre. Ajudei o Seu Antônio a fazer uma pilha de livros. Construímos um apoio pra viga quebrada com boa parte do material de pesquisa do velho. Afinal, leitura é a base.

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22.5.08

A FANTÁSTICA FÁBRICA
Parte IV - Finale
Capítulo 22 - A noite das garrafadas

Um episódio histórico do Brasil Imperial empresta seu nome pro evento-chave na decisão de vender a PORRA DESSE BAR de uma vez por todas. Tipo: agora deu. Nervos em frangalhos. O Ricardo vivia tendo uns pesadelos terríveis envolvendo incêndio, desabamentos, pilhas de mortos. No dia seguinte, vinha contar o sonho-tragédia:

Tudo pegava fogo, todo mundo morria e tu ia algemado num camburão.

O único sonho catastrófico que eu tinha era o seguinte: numa noite de bar lotado, o equipamento de som dava pau eu tentava resolver o problema, sem sucesso, enquanto o público, sedento por música, berrava na pista:

Enforquem o DJ!

Um sonho recorrente no sono intranqüilo daquelas manhãs depois de horas de trabalho, como se nunca terminasse a festa. Eu não temia premonições nem assombrações nem qualquer coisa que não fosse tão concreta quanto o extrato da minha conta bancária sempre no negativo. Mas naquela fatídica noite, pela primeira vez, senti medo. Um medo tão espesso que congelou minhas veias e deu o sangue frio necessário pra lidar com uma situação que eu definiria facilmente como caótica.

Aconteceu lá pelo fim da década. Nessa época, a esquina da Barros com a Independência era um ponto de encontro de gente de todo tipo: desde uns mauricinhos que freqüentavam o Líder e suas respectivas patricinhas, até os vagabundos do Bambu’s, passando por todos os tipinhos que iam no Garagem. O tradicional Bar Líder havia inaugurado um anexo que, nas segundas, servia chope em promoção e aquilo ficava lotado de gente, a ponto da galera ocupar as calçadas e dali a pouco já aparecia ambulante vendendo cerveja em caixa de isopor:

Long net gelada!

Em plena segunda, haja boemia. Pra tentar fazer com que pelo menos uma parte daqueles bêbados entrasse no Garagem, inventamos a Segunda 1,99. O título é auto-explicativo. Pra reduzir os preços e não ter prejuízo, a gente reduzia também os gastos com pessoal e trabalhava com um contingente enxuto de: um segurança, Dj Shufle e eu. Valendo o mesmo pro Ricardo. A gente improvisava um P.A. pra economizar no aluguel do equipamento do Vilson e o 1,99 de cada entrada ia direto pros bolsos dos músicos. Ou pros nossos, dependendo do quanto eles bebessem.

Aconteceu de uma dessas segundas cair em véspera de feriado. Se o povo farreava mesmo tendo de trabalhar no dia seguinte, imaginei que seria conveniente chamar um segurança adicional. Com dois brutamontes na retaguarda, Dj Shufle e eu daríamos conta do resto. O Ninja era o nosso segurança nessa época, um rapaz de feições orientais, muito educado, chamado Alex.

Ninja, tu tem algum segurança pra indicar?

Em silêncio, o Ninja respondeu que sim.

Às dez da noite a esquina estava completamente tomada. As pessoas bebiam em grupos no meio da rua, atrapalhando o trânsito. Muitos ambulantes em volta:

Long net gelada!

Abri espaço na multidão até a entrada do bar. Encostado do portão, aquele imponente portão de ferro trabalhado em arabescos que remonta ao início do século passado, estava o Ninja acompanhado de um senhor que tinha idade pra ser o pai dele.

Esse é o meu pai, disse o Ninja.

E na primeira oportunidade a sós com ele, enquanto a gente empilhava umas caixas atrás do balcão, reclamei:

Porra, Ninja, tu indicou teu pai! Que merda, o velho não vai dar conta.

O Ninja não disse nada. O velho apareceu e eu perguntei o nome. Jorge, disse. Falava com a língua presa.

O evento da noite era promovido pelo Dionísio, o carismático vocalista da Produto Nacional: uma confraternização da comunidade reggaeira local que juntou centenas de pessoas com dread-locks, todo mundo subindo no palco pra dar uma canjinha. Muita gente. Dentro e fora do bar, portanto. Graças a um comprido cabo que cruzava o forro do casarão, desde o amplificador na cabine de som até uma saída atrás do balcão, Dj Shufle e eu podíamos manusear o nosso cd-player carrossel pra cinco discos com destreza, mesmo em noites movimentadas como aquela. Enfiei ali dentro cinco coletâneas Garage Hits que a gente tinha mandado fazer, pirateando cds de todos tipos e origens (emprestada, a maioria). Só interrompi o set do Dj Shufle quando o Dionísio avisou que o show ia começar.

A reggaeira comia solta. De repente o Fabinho surgiu esbaforido:

Fechou o maior pau lá na rua.

O Fabinho era nosso vizinho do prédio da frente e sempre aparecia pra dar uma força. O Fabinho adorava dar uma força, tanto que acabou virando gerente. Deixei-o tomando conta do balcão e fui ver o que acontecia. Do patamar da escada, espiei o que parecia ser uma zona de guerra. Tumulto generalizado. Uma pauleira envolvendo cinqüenta pessoas, no mínimo. Outras correndo, gritaria, a mulherada chorando. Uma viatura da polícia surgiu na curva da Barros Cassal e quando o carro entrou na área de conflito foi atacado pela multidão. Das janelas dos apartamentos, os vizinhos atiravam ovos, frutas, legumes e até garrafas. Sabiamente, Ninja e Pai Mei tinham fechado o portão.

Deixa assim por enquanto, disse pra eles.

Voltei pro bar pensando que ao menos ali dentro estávamos seguros. No balcão, uma cliente falava com o Fabinho, parecia contrariada:

Roubaram a minha bolsa.

Lastimei o ocorrido e disse que ia tomar as devidas providências, apesar de não fazer idéia quais fossem. Passou um minuto e veio outra garota:

Roubaram a minha carteira.

E depois vieram outras. E outras. Sempre o mesmo:

Roubaram.

Digamos assim, concomitantemente, tinha essa turma muy sospechosa infiltrada na negritude, uma gangue de bonezinhos que vinha pegar cerveja de cinco em cinco minutos. Muita sede: três, quatro, cinco cevas de cada vez. Era só uma garota chegar comunicando o furto, que logo depois vinha um deles comprar bebida. Uma situação delicada. Alguém teria que resolvê-la, gentilmente, convidando-os a se retirar, no mínimo. Fabinho no balcão e fui chamar os seguranças.

Na rua, o quadro de batalha campal adquirira contornos ainda mais dramáticos. Do lado de dentro, Ninja e Jorge bloqueavam o portão com todo o peso de seus corpos, impedindo que uma turba raivosa invadisse o bar. Dois trogloditas davam voadoras contra o portão e os hunos restantes atiravam garrafas na direção dos seguranças, as centenas de long nets (sic) que agora jaziam, vazias e letais, no meio fio. As garrafas voavam no ar, explodiam nos arabescos de ferro do portão e se esfacelavam em estilhaços, polvilhando com vidro quebrado os braços e as mãos da Família Ninja, que resistia bravamente. Perigo real. E duplo. A fortaleza sendo invadida e uma gangue atuando sob nossas barbas. E se depois de abrir todas as bolsas e surrupiar todas as carteiras a gangue resolvesse investir no nosso caixa? Pela quantidade que bebiam era lá que devia estar boa parte da grana dos furtos. E os bárbaros, o que fariam se invadissem a casa? Estuprariam nossas mulheres, decerto. Ainda bem que a minha namorada estava em casa, pensei. Alheia a tudo, a comunidade reggaeira seguia tocando no palco, chapadona. Olhei as horas: uma da manhã. Ainda havia muita noite pela frente. O lance a era controlar o pânico e esperar o tempo passar. Rezar, talvez. Que Jah nos proteja.

*

Os policiais da viatura apedrejada devem ter pedido reforços, porque não creio que Jah chamaria a polícia. Sirenes anunciaram a chegada espalhafatosa dos tiras que rapidinho dispersaram a multidão bêbada enfurecida. A rua ficou vazia. Vazia de uma maneira desoladora, com garrafas quebradas e manchas de sangue no chão. Do lado de dentro do portão envergado a chute, uma montanha de cacos de vidro dava a idéia do que tinha sido o ataque. Ao lado, o Ninja, mudo como sempre, mirava o nada com um olhar vazio de catatonia. O velho Jorge, que tinha segurado o tranco melhor do que eu poderia imaginar, retirava pequenos cacos de vidro dos braços ensangüentados. Depois dessa noite, ele foi contratado como segurança oficial, porque seu filho Ninja não quis mais trabalhar com a gente. A tal da ironia do destino.

O show terminou. Deixei tocando uma baladinha espanta-freguês e logo acendi as luzes.

Acabou a cerveja, menti.

Chamei o Jorge e fomos procurar a gangue mas ela já tinha caído fora. Ainda bem. Antes de fechar, um cara entregou uma carteira que tinha encontrado no banheiro. Haveria outras, pensei. Com sorte alguém ainda poderia recuperar os documentos. Tranquei o portão que custou um pouco a fechar, empenado por causa dos pontapés. Caminhei por aquela Barros Cassal do pós-guerra até um orelhão. Liguei pra namorada e disse que ia dormir na casa dela. Na cama (deitado em posição fetal, conforme ela me contou depois), chorei como uma criança assustada.

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9.5.08

A FANTÁSTICA FÁBRICA
Capítulo 21 - Mais um corpo que cai

Sim, houve outro. Foi numa dessas noites loucas que contando ninguém acredita, tão inverossímeis quanto a realidade. Era comum o pessoal sentar no parapeito da janela pra tomar um arzinho, obrigatório em se tratando de verão, no bafo asfixiante de casa lotada e sem ar-condicionado. Nunca tinha acontecido de alguém cochilar bêbado e desabar lá de cima, do segundo andar do sobrado de pé direito alto, em queda-livre até o chão do pátio: ploft! Nunca até o Ned sentar no parapeito no maior porre e invariavelmente cometer a façanha. O Noites já tinha pulado dessa altura, mas ele era um bêbado consciente: entrou no banheiro, passou a chave, abriu a janelinha e pulou. Depois voltou pro bar, mancando, joelho detonado, entrou na fila do banheiro e ficou rindo enquanto o povo esmurrava a porta xingando o cheirador que supostamente se trancara lá dentro. Mas o Ned, coitado, não teve motivo pra rir. Era um publicitário gordinho, garageiro assíduo que não fazia parte do nosso círculo de amizades. Um desses tipos que a gente nunca nota a existência, não lembra o nome e sempre estende a mão dizendo muito prazer quando encontra. O Ned era tão invisível que não me surpreenderia se ninguém notasse a queda. Um mês depois eu perguntando pro Ricardo:

Tu já tinha visto aquele cara deitado no pátio?

Quem? Responderia ele.

Mas pra sorte do Ned alguém viu o acidente e espalhou a notícia. Daí o rebuliço de salvamento, o diz-que-diz que distorce a história até deixar as cinco vítimas paraplégicas e finalmente as piadinhas sarcásticas que transformaram a queda no assunto da noite.

Enquanto isso eu curtia minha noite de folga com a namorada no quarto-e-sala dividido com um chiuaua, dois gatos siameses fake e uma ninhada de gatinhos. What a life! Só fui saber do acidente no dia seguinte, quando o Ricardo contou a história: um gordinho bêbado tinha despencado da janela do bar até o chão do pátio: ploft! Lá embaixo, todo quebrado, foi socorrido, por um grupo de prestativos, gente que se entusiasma com qualquer desgraça, só pelo prazer da prontidão. Removeram o Ned inconsciente e o levaram pro hospital. Climão pesado que durou meio minuto até alguém gritar drogas! e tudo voltar ao normal.

*

Anos depois. Festinha boca-livre de produtora. No meio daquele mundaréu de chope sou apresentado a esse gordinho publicitário, o Ned:

Muito prazer.

Te conheço há anos, ele diz. E emenda:

Eu sou o cara que caiu do Garagem.

Ploft!

Então o Ned me contou a sua história:

– Esse era o primeiro trabalho legal que eu pegava em publicidade, uma conta que ia render grana, status, mulheres, a guinada na minha vida que até ali andava meio meia-boca. Fechei o contrato e fui comemorar no Garagem. Tomei todas e tu sabe o resto.

O que eu não sabia era que o Ned tinha quebrado a clavícula e não sei mais quantos ossos e ficou de cama durante seis meses e acabou perdendo a grande chance da vida porque o cliente do Ned rescindiu o contrato logo depois do acidente. Mas o Ned era um cara sortudo. Só perdeu um cliente no fim das contas. Melhor do que perder a vida, que, mesmo sendo meio meia-boca, era a única que ele tinha.

– O médico disse que só não me fodi completamente porque tava muito bêbado e inconsciente na queda. Se eu tivesse caído lúcido, tinha enrijecido o corpo e o estrago podia ser bem maior. Fatal, disse o médico.

Brindemos!

Foi a única coisa que me ocorreu dizer. O que não mata, salva.

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3.5.08

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE

Capítulo 20 - Cinemeando

Se o Gus não se engana, começou em 1998 e foi até 2000. 16 edições com mais de duzentos filmes exibidos.

Uma delas com 585 pessoas, diz ele.

O evento foi criado por um trio de amigos que, na Porto Alegre dos anos 1990, andava às voltas com câmeras e projetores de super-8. O Gus, o Zanella e a Aline cursavam comunicação social e produziam uns curtas-metragens, tudo na base do paitrocínio. Garageiros de carteirinha, inventaram um tipo de cineclube junkie, na melhor tradição udigrudi, em que exibiam seus próprios filmes, produções de amigos e de outros realizadores iniciantes do país, além de pérolas esquecidas do cinema brasileiro. O Cinemeando no Garagem acontecia uma vez por mês no pátio da velha casa, simultaneamente à ferveção da festa, com música alta, bebedeira, pegação e o de sempre. Uma tela era estendida no muro, algumas fileiras de cadeiras em frente, projetor em cima de uma mesa e pronto: estava armado nosso próprio Cinema Paradiso. Ou mais adequadamente: Cinema Inferno. A platéia, composta por cinéfilos bêbados, estudantes universitários, cine-groupies, músicos e artistas frustrados em geral, nem se importava com os baldes d’água e os ovos atirados das janelas dos apartamentos por vizinhos enraivecidos com a gritaria de sessões tão alucinadas quanto obrigatórias como aqueles pornôs do Mojica que sempre passavam na finaleira. Pornografia nacional compartilhando democraticamente o projetor com videoarrrtes, produções caseiras, clássicos do cinema independente. Tudo apresentado muy informalmente, sem frescuras.

Alguns confirmados do Cinemeando:

Meu primo, de Nelson Nadotti, Carlos Gerbase e Hélio Alvarez. Esse filme era longo demais pros padrões festeiros do Cinemeando. Até que foi exibido numa ocasião, por falta de material. Noite chuvosa, uma das poucas sessões in-door do evento. Depois de quarenta minutos de projeção, lá pelas cinco da manhã, o filme foi aplaudido de pé.

Arrepiante, segundo o Gus.

Boi bom, do catarinense Petter Baiestorf, o Gordard do gore nacional. Exibido várias vezes, Boi bom mostra um bizarro duelo de gaudérios ao carnear um boi. O vencedor terá que beber o sangue da cabeça do bicho. Prato cheio pra quem curte tripas.

Os pornôs do Mojica supra-citados. Especialmente aquele em que uma mulher trepa com um pastor alemão e eu não me refiro a um clérigo protestante de origem germânica.

O Otto Guerra era um habitué do Cinemeando e vários de seus trabalhos foram exibidos: animações em super-8 e 16mm, a maioria comerciais antigos, e um documentário sobre a produtora Otto Desenhos. Nessa sessão, toda vez que ele aparecia na tela uma mina gritava:

Oootto, quero chupar teu pau!

Otto Guerra, o Don Juan dos acetatos.

Conforme o Gus, outro fato importante é que o Cinemeando gerou diversos namoros, alguns rompimentos e até casamentos. Resumindo, uma suruba danada.

Mas o caso mais folclórico foi quando o Zanella encheu de porrada uma loira da turma dos superoitistas. Não sei o que ele tinha contra ela, mas devia ser muito. Casa cheia, de repente explode a confusão. Briga! Alguém grita, e lá vou eu engrossar o coro do deixa-disso. Chego na cena do crime e vejo o Zanella chutando uma pessoa deitada no chão, os braços da vítima protegendo o rosto dos pontapés.

Quem será?

Reconheci a loira entre um chute e outro. Paguei uma cerveja antes de mandá-la pro HPS.

O Cinemeando alcançou renome nacional e promoveu várias estréias com filmes do circuito alternativo brasileiro. Depois, virou pauta pra imprensa local. Numa bela noite, uma emissora de TV mandou sua repórter com ligeiro sobrepeso pra cobrir o evento. Durante o boletim, assim que as luzes da câmera se acenderam, atrapalhando a sessão, o povo entoou em coro:

Sai gorda!

E a matéria nunca foi ao ar.

O Cinemeando também acabou rendendo um filme em super-8. Cinemeando no Garagem, o filme é um híbrido de documentário e ficção e foi rodado durante a sexta edição do evento. Por uma dessas casualidades tipicamente garageiras, a que teve o menor público.

80 pagantes, show do Planet Hemp na mesma noite, lembra o Gus.

Feito no improviso, o filme traz no elenco vários amigos da turma do super-8, personagens de uma trama noir de último minuto: mulher traída contrata detetive barato pra desmarcarar marido cafajeste. A maior curiosidade sobre Cinemeando no Garagem, o filme é que ele foi submetido à censura. Em prol da moral e dos bons costumes, of course. Conta o Gus:

– Os negativos foram enviados pra revelação nos Estados Unidos mas o filme voltou sem um trecho, acompanhado de uma carta de advertência que, em resumo, dizia: peito não pode.

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4.4.08

Se é pra alegria geral da nação garageira, diga ao povo que...

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE

Capítulo 19 - Electronica ou Flashpower no paraíso

Uma lua cheia de filme iluminava a noite. No pátio, almofadas e colchões se misturavam aos corpos espalhados nas posições mais relaxantes, tipicamente chill out. Todo mundo se querendo. Do bar vinha o ruído de conversas e risadas misturado à música sincopada que saía através dos janelões e se espalhava no espaço, molécula por molécula, um som ritmado de matizes sintéticas irradiando no ar do verão. Reclinei a cabeça entre espasmos lisérgicos, deitado no chão, ao ar livre, almofadas macias e a estimulante companhia de duas garotinhas que na última semana tinham se tornado assíduas e me rodeavam como se eu fosse o dono.

Drinks energéticos por conta e o debut das garotinhas transcorria que nem o paraíso, se é que tem Flashpower lá. Elas me tratavam como um cachorrinho alimentado a guloseimas e eu ia de uma a outra, lépido e bem amado, quando o Oriano irrompeu não sei de onde completamente transtornado. O maxilar cerrado, a cabeça virando de um lado pro outro, cérebro envenenado de pura paranóia. Pura não, malhada. O transtorno era tão grande que o Oriano partiu pra cima. Não fosse a lua cheia eu diria que era culpa da cocaína.

Quê isso, Oriano, tá loco? Eu aqui um cocker e tu chega total pitbull.

O Oriano piscou várias vezes e balbuciou o dobro de desculpas. Perguntou se a minha mãe estava bem e, quando eu disse ótima, acenou um tchauzinho e voltou pro bar. Eu conhecia o Oriano há pelo menos uns dez anos. Ele tinha sido namorado da filha de um ex-namorado da minha mãe. Tipo um cunhado, resumindo. Um skatista gente boa, meio grunge, ligado no som dos Red Hot Chili Peppers que nunca me faria mal. Mas as ninfetas não sabiam disso e evaporaram rapidinho. Voláteis, as meninas.

Fiquei um tempo no chão do pátio, atirado nas almofadas. A lua branca lá no alto e a música hipnótica irradiando no espaço. Tomei fôlego e rumei pra dentro do bar, não sem antes cumprimentar vinte pessoas, dar pegas em três baseados e recusar pelo menos uma oferta de pó. Era uma noite agitada, mais uma edição da Full Moon Party, a festa de música eletrônica mais badalada do Garagem.

*

A Full Moon foi criada por três amigas – Ale, Cláudia e Lúcia – que mais tarde produziriam outras festas marcantes na cidade, como a noite drum’n’bass Quarta Quebrada, a arrassa-quarteirão oitentista Balonê e a pioneira rave local Fulltronic.

Lembra a Ale:

– Foi em meados de 97, quando a cena eletrônica ainda engatinhava no Brasil. A gente se achava muito entendida do assunto e jurava que tinha uma produtora: a Brixton Productions. Era o comecinho da internet no país e passamos a ter acesso a muita informação por causa disso. O Fim-de-Século era o único clube de música eletrônica na cidade e a gente já tava cansada de ouvir sempre o mesmo repertório, das limitações técnicas dos djs de lá e da falta de novas perspectivas e festas. Com a Full Moon, abrimos espaço pra outros estilos da música eletrônica, não só house, trance e techno, que era o que geralmente rolava nas festas. O pessoal da eletrônica mais experimental, todo ele, passou por lá: a galera da Fusion, de Canoas, que tinha um ótimo repertório, mais underground, importado de Detroit: Luciano Araújo, Luciano Benites, André Marques, Ilton Palma; os meninos de Esteio, da turma dos breakbeats: Dani Breaks, Maurício, Cretino e o Ed (o único dj de gabba que Porto Alegre já teve). O Telmo Lanes também costumava tocar e até o Herrera depois que saiu do Fim-de-Século.

Outro grande barato da Full Moon era a programação visual da festa. As meninas introduziram uma linguagem mais contemporânea pros flyers, que até então eram umas felipetas fuleiras de xérox. Elas também se puxavam na decoração, que mudava a cada festa, tudo feito por elas mesmas, que passavam a tarde inteira subindo e descendo escadas, martelando e pregando, cortando e colando, uma função a qual se dedicavam com devoção quase religiosa. Os primeiros lay-outs foram inspirados nos mangás e animes japoneses e logo depois veio a temática espacial, antecipando o que mais tarde se tornaria um padrão nas raves e festas de música eletrônica. As meninas também alugavam uma tonelada de equipamento de luz e som e as pick-ups eram instaladas no palco, levando os djs a tomar um espaço geralmente ocupado pelas bandas. A festa era um dos principais destaques no calendário garageiro e atraía uma fauna diversa que incluía aficionados da cena eletrônica, roqueiros de mente aberta, curiosos em geral e os que iam lá só pra comer gente. Porque rendia.

Rendeu também algumas boas histórias. A Ale, again:

– Uma vez apareceram uns atletas japoneses que estavam passando uma temporada na cidade. Ficaram surpresos com a decoração inspirada na cultura deles e fizeram amizade com a minha irmã. Lá pelas tantas nos deram uma real que nos deixou desmoralizadas: as coisas escritas em japonês na decoração estavam totalmente erradas, não faziam o menor sentido. Lembro de como nos divertimos quando um cara levou garrafas de dois litros de chá de cogumelo e distribui na festa, tipo suquinho. Outra histórica foi quando os vizinhos ficaram revoltados com o som alto e a zoeira na área dos fundos. Jogaram uma dúzia inteira de ovos na galera e ainda chamaram a polícia que nos fez baixar o som na marra. Lembro também dos cafés da manhã na padaria da esquina, onde o nosso querido Cláudio Monstro consumia a iguaria de um litro de iogurte de morango com três quindins dentro. Teve ainda a amiga que sentou no colo do namorado, num cantinho da pista, jurando que ninguém via que ela tava com a saia levantada, e o cara mandando ver. E tem a do Alex que uma noite foi embora um pouco mais cedo. Ia pela Independência em direção ao Centro pra pegar o ônibus, quando dois moleques tentaram assaltá-lo. Ele não teve dúvida, saiu correndo e voltou direto pro Garagem. Moral da história: mesmo querendo, o povo não conseguia ir embora antes do sol raiar.

A Fusion foi outra festa eletrônica clássica. Bem mais alternativa e maldita, abrigava a turma de Detroit especializada em techno de Canoas. Ou seria o contrário? Canoas, o melhor exemplo daquele conceito muito manjado em arte contemporânea: um não-lugar. Naquela cidade cinza, cortada por pistas e trilhas, em alguns daqueles prédios carcomidos e pichados, moravam o Luciano Araújo e seus comparsas, uns freaks conectados com o melhor da produção de música techno do planeta. Esses caras acharam seu espaço na agenda garageira e assim nasceu a Fusion. A maioria dos clientes, roqueiros ortodoxos, não curtia a proposta e as festas nunca fizeram muito sucesso. Uma amiga as chamava de Fujam.

Também tinha o Calvin e a turma que freqüentava a antiga Technique, uma loja que abastecia a província com lançamentos do longínquo mercado fonográfico internacional. Esse povo armou as primeiras festas eletrônicas no bar, lá por 94. Na mesma época aconteceu o Electronic Days. O festival mostrou um lado experimental da eletrônica, mais pro industrial com a velha bateção de sucata e outros clichês do gênero. Tudo produzido de forma muito amadora, com orçamento enxuto e prejuízo garantido. Lembro da apresentação do Loop B. Antes da passagem de som, ele desceu no pátio e, depois de fuçar nuns entulhos da lavanderia do vizinho, voltou de lá com uma carcaça de máquina de lavar, na qual entrou durante o show e nela executou um solo de furadeira. Barulho do inferno, se é que lá tem máquina de lavar.

Um marco da nossa iniciação eletrônica foi em 96 quando compramos nosso primeiro Chemical Brothers. No ano seguinte, outra aquisição marcante. Uma noite o Ricardo entrou no escritório e disse:

Olha o que eu consegui, troquei por duas cevas com um cara.

O cd tinha uma capa legal, parecia o bordado de uma jaqueta muito descolada. O nome também era bacana: Daft Punk. O Ricardo deu um fade no som e depois colocou a música que pouco tinha a ver com a tosqueira em três acordes do punk. Era um house pesado com jeitão retrô de teclados vintage e vocoder, uma puta pegada funk. Fissuramos na hora. Clássico desde o princípio.

*

Depois de concluir a maratona (com obstáculos) de gente querendo assunto e oferecendo drogas, entrei na salinha dos fundos. Um bando de malucos amontoados sacolejava na pista Plano B da Full Moon, uma pistinha alternativa que misturava big beat com funk, jazz com drum’n’bass, disco com raga. Um clima gostoso de festinha de apartamento com o som do Dani Breaks fazendo balançar os corpinhos na sala apertada.

Who’s that lady...

Cantavam os Isley Brothers e os corpinhos balançavam tanto que o chão tremia e o Dani era obrigado a colocar umas espumas embaixo dos cd-players pra amortecer o equipamento.

Atravessei o mar de corpinhos balançantes. No meio da pista encontrei a Ale, de óculos escuros e um longo copo (cheio) na mão. Uísque com energético, eu poderia apostar. Dei um beijo de oi, ela retribui e seguiu dançando. No corredor, me espremi por entre a fila do banheiro e a parede, uns passando a mão na minha bunda, eu passando a mão na dos outros, loucura, até sair no outro lado. No bar, a situação era a mesma: gente. O Gelson, nosso barman, um bailarino profissional que hoje mora em Gênova, se virava em mil pra atender todo mundo. Sempre com a maior categoria: pliet, garrafas abertas, pirueta, dinheiro no caixa, pliet, troco.

Segunda-feira, contas pagas.

Pensei, sorrindo em segredo, enquanto fugia antes que o Gelson viesse pedir uma força no balcão. Ao transpor a porta que separava o bar da pista principal entrei num universo paralelo. Um breu enfumaçado (sabor framboesa) tomava conta de tudo e eu distinguia apenas vagos corpos, muitos corpos, e uns ideogramas fosforescentes entre os flashes da luz estroboscópica. A música era intensa, os graves faziam tremer o piso e vibravam direto no peito. Os agudos zuniam por cima, na altura do pé direito da casa antiga, e depois atravessavam o cérebro furando os ouvidos. Os médios ficavam, é claro, no meio, confundindo tudo. A música certa com a droga certa. Tóin!

*

Em transe dançante após tempo indeterminado, senti um cutucão no ombro. Demorei a entender o que acontecia, completamente absorto no ritmo dos BPMs. O Gelson escapara do balcão depois de um spacato.

Banheiro, ele disse.

Resignado, fui pro balcão. Ser dono tem suas desvantagens. Trabalhar, por exemplo. Fiquei ali, abrindo tampinhas e coletando dinheiro enquanto o Gelson fazia xixi. Eis que: surpresa. As garotinhas que tinham evaporado depois da chegada pitbull do Oriano, mil anos-luz-estroboscópica atrás, apareceram de repente. Tirei uma latinha de Flashpower do freezer e balancei no ar. O Gelson voltou (em grande estilo, dando um salto tipo O quebra-nozes sobre o balcão), peguei os drinks e rumei pra pista. As garotinhas me acompanharam. Eu era o dono do paraíso.

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22.10.07

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE
Capítulo 18 - Rock pauleira
Parte II

Foi bastante natural a aproximação da gurizadinha punk rock ao nosso ambiente insalubre, sujo e completamente refratário à caretice. Uns bebedores de vinho vagabundo que curtiam a fala esperta do Jello Biafra, idolatravam os Ramones e tinham o maior respeito pelo, como diria o Professor Getúlio, pai deles: Iggy Pop, mister pauleira in person. Essa turminha se sentiu em casa no Garagem, Terra do Nunca onde o Peter Pan usa piercing, Peter Punk. Os Torto e Os Thompsons, com seu punk rock escrachado e tosco, e Os Alcalóides, que sintetizavam Debbie Harry e Rita Lee (fase Mutantes) na figura da vocalista Júlia, faziam shows com lotação máxima de um público que pertencia a uma outra geração. Eu já tinha passado dos 20 e me sentia um senhor experiente diante daqueles fedelhos de 15 anos que agora frequentavam o bar. A Space Rave do casal Edu & Mari, sob inúmeras variações de elenco coadjuvante, seguia arregimentando jovens voluntários pra combater nas forças do exército do noise, vertente mais experimental e cerebral do punk. A No Rest detonava o hardcore sob o comando da baixinha enfezada Aline. Os Irmão Rocha com ponto de exclamação! minituarizavam a cartilha ramone com canções de um minuto cantadas pelo impassível Mauro, arrebatador de corações profissional. Os veteranos Replicantes, com o Gegbase nos vocais, faziam shows esporádicos que juntavam todas as gerações de punk rockers, pogueadores que iam das categorias júnior a sênior e quase botavam a casa abaixo a chute. Aja canela. Falando em canela, o Knela, primevo frequentador que trabalha na noite hoje em dia (hoje em noite?), ficou de mandar um e-mail contando as histórias das dezenas de shows de bandas punk e hardcore paulistas, meô, que se apresentaram no bar: IML, Wry, Garage Fuzz e o epítome do cult paulistano dos anos 1990: os Pin ups. E também a passagem dos gringos da All You Can Eat (de São Francisco), uma banda de gays vegetarianos que causou espanto entre os gauchinhos comedores de picanha.

Os punkids sentavam na calçada em frente ao bar bebendo vinho de garrafão, não entravam até que o show começasse e caíam fora logo que acabava. Vomitavam antes de sair. Uma nova safra de garotinhas aprendia nos corredores escuros e no banheiro imundo tudo aquilo que não ensinam em casa, nem na escola, só na da vida (e olhe lá, porque tem cada vidinha aí que nem isso). A gente se sentindo os novos coroas, administrando bravamente a insânia da gurizadinha se matando no pogo, dando mosh de cima dos PAs, quase botando abaixo o casarão. Segundo um engenheiro amigo do Ricardo, o piso não ruía porque balançava, lei elementar da física. Mesmo assim a gente se cagava em visões catastróficas do chão se partindo e um monte de criança espatifada lá embaixo, montanha humana gritando entre tábuas quebradas, roupas ensanguentadas, lascas de madeira nas carnes, fraturas expostas, um ou dois óbitos, e nós, em fuga, a polícia no encalço.

De tanta pisada de coturno, uma das tábuas quebrou num show dos Replicantes. A mesma tábua que um PM tinha arrebentado com um pé de cabra em busca de drogas no nosso 2° Atraque Histórico. Trocamos a madeira e aproveitamos pra preencher com massa de cimento alguns buracos na base das paredes de estuque, que se esfacelavam com o roçar das botinas. Na divisão das tarefas de manutenção, o Ricardo ficava com a parte elétrica e eu atacava de pedreiro. Me daria bem na profissão, fazia direitinho os rebocos, além de já fumar maconha. Costumava usar uma chapa de compensado pra fazer a massa de cimento e resolvi deixá-la na pista, em cima do piso remendado. Boa precaução pro show do Garage Fuzz, que aconteceria no final de semana seguinte. A banda sempre atraía uma legião de fãs dispostos a poguear até o fim dos tempos. Ou ao menos até o fim do show, o que já era pogo a dar com pau.

Verão infernal, um bafo quente e sem oxigênio que não circula, estagna. A Garrafa Térmica (como diria o Tonho Crocco) em pressão máxima. Aos primeiros acordes, o público começa a pular ensandecido na pista. Sobre a chapa suja, um pozinho de cimento vai subindo numa nuvem cinza conforme o povo pisa e pisa. O ar se tornou irrespirável e muitos desmaiaram, inclusive alguns músicos. Depois do show, pele, roupas, paredes, tudo ficou coberto por uma fina película cinza, mistura de pó de cimento, suor e umidade. Eca.

O batismo de fogo foi o show do Agnostic Front. O Knela (que até hoje não mandou o e-mail) nos disse que os caras eram os Beatles do hardcore. Levamos fé. A banda novaiorquina, pilar do HC, fez duas apresentações no bar, no inverno de 99. O saldo dos shows foram algumas escoriações leves em pogueadores empedernidos, muitas garrafas quebradas, uma cueca cagada e mais um caso folclórico.

Depois do show a banda foi pro escritório, que era também camarim, casinha do dj e cheiródromo. Resolvi cair fora, não ia ficar lá com aquele monte de homem suado. Os caras, que já não eram mais teenagers, se esbaforiam de calor, sem fôlego. Fui beber uma no balcão. O público foi embora rapidinho, todo mundo pra rua em busca de ar e vinho vagabundo. A banda também caiu fora logo. Passei a chave no escritório sem nem acender a luz. O fedor de punk usado era insuportável.

O Ricardo apareceu na tarde seguinte pra comprar cerveja e reparou na cueca suja num canto do escritório, pendurada no braço de uma guitarra.

Que nojo, pensou, e xingou mentalmente a faxineira.

Depois ficou sabendo que o vocalista tinha se borrado durante um acorde pesado. Reza a lenda que ele teria alcançado a lendária Brown Note, uma nota muito grave que, através do princípio da ressonância, afeta os intestinos provocando diarréia imediata. Todavia, a especulação carece de fundamentos teóricos: a Brown Note é um tipo de infrassom de frequência entre 5 e 9 Hz, abaixo do alcance auditivo humano, e só (se é que) pode ser reproduzida por alto-falantes especiais. Além disso, se ele tivesse, de fato, atingido a temida nota todos na platéia, além dos músicos e qualquer um exposto à frequência, teriam se cagado. Um fenômeno. O que deve ter ocorrido foi muita picanha e salada de maionese, prato típico, sacumé.

A cueca ficou ali. O mais perfeito legado artístico de uma geração.

Então apareceu na porta do escritório um guri, um adolescente de camiseta preta GG com uma foto do Agnostic Front que ia do peito até os joelhos. O jovem fã (JF) perguntou:

Não tem o set list do show ou uma palheta ou uma baqueta, qualquer coisa pra levar de recordação?

E o Ricardo não teve dúvida: apontou pra cueca suja apoiada no braço da guitarra. Foi o tempo de piscar pra que o JF já tivesse desaparecido com o precioso item da memorabilia roqueira: um legítimo merdário hardcore.

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17.9.07

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE

Capítulo 18 - Rock pauleira

Parte I

Antes de se consagrar como santuário de preservação de bandas independentes o Garagem ficou conhecido pela música ducaralho que rolava em sua pista de dança. Eu tinha um prato Gradiente (roubado depois) e a gente tocava muito vinil, a maioria do Marcos. Ele tinha uns discos bacanas: o duplo ao vivo dos Talking Heads, The queen is dead dos Smiths, aquele Jorge Ben com as músicas todas em medley, o primeiro dos Beastie Boys, o primeiro Defalla, a trilha do American Grafitti, um disco do Gueto com a música "Borboleta psicodélica", o 3 lugares diferentes do Fellini. O Ricardo botou na roda uma coletânea do The Cure, se bem me lembro. Eu entrei com os cds, muito Pixies, Mutantes, James Brown e Aretha Franklin, Kinks, Stooges, Bowie e Velvet Underground (no final da noite, sempre que pediam Velvet, eu lascava os dezessete minutos de zoeira de "Sister Ray", piadinha interna). Também apareciam uns discos estranhos, velhos vinis doados pelos clientes: uma coletânea do Abba ("Fernando" era a nossa faixa preferida), a trilha do filme Saturday night fever e a da novela Dancing Days (a internacional, com Dee Dee Jackson e Charo) e um disco de MPB obscura dos anos 70, cujo intérprete nem o Google se lembra, do qual extraímos o hit "Pra fazer busseca". O Drégus também nos emprestava muitos cds e acabou bebendo-os todos depois que o bar foi arrombado. Antes de ser transformada em cerveja (e em xixi, por consequência), a discoteca do Drégus incluída uma coletânea de b-sides do The Fall, um ao vivo dos Young Gods (tocando Kurt Weil), o primeiro Us3, o Pills'n'thrills and bellyaches dos Happy Mondays, o Ritual de lo habitual do Jane's Addiction e vários do Nick Cave.

Rock pauleira era o que a gente menos tocava. A não ser considerando, como meu avô, rock pauleira qualquer música barulhenta e distorcida. O Iggy Pop disse uma vez que a música, pra ele, deveria sair do alto-falante e agarrar o sujeito pela garganta e bater a cabeça dele contra a parede e basicamente matá-lo. Pauleira pouca é bobagem. E o Iggy era o nosso papa. O que deixava o Seu Raul terrivelmente desapontado: seu querido netinho, aquele mesmo que um dia seria um grande homem da ciência (quando crescesse, queria ser cirurgião plástico) era catequista num santuário do rock pauleira.

Ainda nos primeiros meses recebemos a visita do Bebeto Alves, músico consagrado localmente, cuja carreira tinha começado quase vinte anos antes com uma banda de inspiração folk-progressiva de nome Utopia (enquanto em outros lugares mais interessantes do planeta, o levante punk botava abaixo qualquer intenção de bucolismo ou virtuosismo). Pois o Bebeto se apoiou no balcão e, diante do despojamento das paredes mal pintadas, fios elétricos expostos, escuridão completa à quisa de equipamentos de iluminação, proclamou:

Mas isso é tão punk, tão fora de moda.

Isso é falta de grana.

Foi a primeira e única coisa que me ocorreu dizer. Não ia discutir com o homem sobre moda ou a relevância deste ou daquele gênero musical. Até porque eu achava que o punk tinha resistido muito mais à prova do tempo do que o rock progressivo no qual ele tinha se inspirado lá nos anos 70. Mas deixa assim, o cliente tem sempre a razão.

Mesmo não nos sentindo parte do tal do movimento (principalmente por sermos individualistas demais pra ficar por aí andando em bando, prática obrigatória entre integrantes de qualquer movimento, seja musical, político ou religioso) seguíamos a risca o do it yourself, aforismo que está pro punk assim como o penso, logo existo está pro cartesianismo. DIY. Faça você mesmo era justamente o que a gente havia feito até então: o nosso próprio bar na falta de outro melhor. No que por insistência (resistência?) a coisa toda foi adquirindo um caráter de movimento. Nos tornamos ícone de um movimento de contornos vagos que pregava, mais em ações do que em palavras que não fossem música, a independência, o caos, a tolerância e a alegria, porque afinal de contas a gente veio aqui pra beber ou pra conversar? Politicamente a gente se situava à esquerda de quem entra, na segunda porta depois do corredor, subindo a escada de caracol ao fundo. Se havia governo a gente era contra, tinha pavor do aparelho repressor e na maioria das vezes torcia pro bandido. A gente queria ser herói. A gente era punk e não sabia.

*

Com suas cabeleiras exuberantes, roupas pretas, botas e rebites, os headbangers são a personificação do rock pauleira. Vulgarmente chamados de metaleiros, passam as noites de lua cheia em rituais macabros, evocando satã, comendo morcegos, entoando cânticos fúnebres de morte e destruição em gritos agudos e urros guturais. Esses dinossauros redivivos se recusam a morrer. Pra escapar da extinção multiplicam-se em variadas espécies, de olho no salto evolutivo: heavy, black, death, trash, speed, prog, power, white, symphonic, goth, alt, NU e o que mais cair nas garras do monstro.

Um desses monstros, dos maiores por sinal, pisou suas patas destruidoras no bar. O bicho saiu aqui da província na forma de três cabeludos que conquistaram platéias no mundo todo com um metal extremo, veloz e agressivo, de dar medo. Numa dessas brechas de turnê mundial, de volta a terrinha, o Krisium tocou no Garagem. O show atraiu centenas de headbangers. Como corvos se agrupando pra pilhagem, chegaram aos poucos. Imóveis, sem consumir nada (nadinha, nem água) foram se agrupando e aumentando em número, assustadores. O show começou numa explosão de brutalidade através dos amplificadores importados e os corvos seguiram no mesmo lugar, apenas as cabecinhas balançando. O efeito daquela massa sonora era de dar náuseas. A vibração atravessava meus órgãos e tecidos, causando alterações celulares irreparáveis. Tudo tremia em torno, como se de repente a casa fosse se desintegrar. Me tranquei no escritório até que o estupro sonoro parasse e quando a música acabou um zunido ainda vibrava na altura dos ouvidos. Coloquei um Daft Punk pra espantar os metaleiros. Levantaram vôo devagar, como aves estúpidas, e saíram, amáveis.

E os skinheads, também amam? Uma vez fizeram uma festa de despedida prum amiguinho, olha que meigo. O Aranha era um sensei, ninsei, nem sei, que ia pra Tóquio. Um careca bem humorado, forte que nem um pequeno gorila, que me fazia agradecer a deus por tê-lo como camarada. O Aranha ia se mudar pro Japão, queria confraternizar com os amigos e como eu conhecia o cara desde os tempos do Lola, marquei a festa. Imaginava que iam aparecer alguns skinheads e, numas de camaleão, resolvi me disfarçar: cabeça raspada, coturnos, jeans, suspensórios, camiseta branca. Saí de casa achando a piada divertida mas quando cheguei no bar não teve mais graça. Um esquadrão de skinheads de verdade esperava na frente do portão, assustadores. O esquadrão de amigos do Aranha achou o ingresso caro e, usando técnicas de guerrilha, entrou no bar escalando pela sacada. Depois, os carecas foram poguear em frente a uma TV que passava vídeos de bandas com fortões de camiseta apertada e suásticas nos braços. Tive vontade de rir mas o medo me impedia. Um ponto de interrogação marcou a minha testa quando o olhei o Aranha chegando: sendo o meu camarada amigo de uns nazistas fodidos, seria ele próprio um nazista fodido? O Aranha olhou pra mim com seu sorriso largo, garantia pra escapar ileso de uma invasão de skinheads. Sorri de volta, controlando o pânico.

(continua)

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31.8.07

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE

Capítulo 17 - My own private Summer of Love ou As sobrinhas do Juca

Parte II

O Juca era um amigo do Ricardo que tinha uma fabriqueta de comida pra cachorro. Ele comprava tudo que o ser humano não consome num animal: pulmão de vaca, unha de galinha, cu de porco, triturava e embalava toda a caca e vendia pra criadores de cães das mais diversas raças. O detalhe sórdido da profissão do Juca é que um dos seus maiores clientes era o dono de um rodízio de pizzas na Cristóvão, onde toda semana ele descarregava de sua kombi fedorenta quilos da gororoba. Segundo o Juca, o dono da pizzaria tinha também um enorme canil. Via das dúvidas, ele desaconselhava as pizzas do rodízio, especialmente a sabor bolognesa.

Além da fabriqueta de comida pra cachorro o Juca tinha duas sobrinhas. Dicotómicas, faziam uma combinação explosiva. A mais nova era uma loirinha de olhos verdes e peitos grandes do tipo tímida. A outra, moreninha bunduda, fazia o tipo safada. Estavam sempre pelo bar, impregnando o ambiente de uma enorme tensão sexual. Uma noite apareceram com uma cartela de ácidos. Uma folha de cartolina colorida dividida em quadradinhos pontilhados que, juntos, formavam o desenho de um personagem de história em quadrinhos. O amigo dum primo de não sei quem tinha trazido de não sei onde e sabe-se lá por que tudo aquilo caíra nas mãozinhas das sobrinhas do Juca. Fiquei com uma parte com a desculpa de vender pros amigos, mas como não nasci pra ser traficante, acabei tomando tudo. Tudo não, minto. Vendi um, superfaturado pra cobrir os custos.

De repente, aquela droga até então-tão díficil de descolar estava na boca do povo. Todo mundo tomando ácido, if 6 was 9, ou vice-versa. Além das sobrinhas do Juca tinha o Reno. O Reno era um nerd fã de Funkadelic e fissurado em LSD. Ele trabalhava numa produtora de áudio, morava no Rio e duas vezes por ano aparecia na cidade. Sempre com os melhores ácidos da temporada, uns petardos que faziam com que as figurinhas com personagens de história em quadrinhos das sobrinhas do Juca parecessem desenho da Mônica. O cara lidava com coisa de gente grande: o Dragão Chinês, o Sol Asteca, o Ganeshi.

O lance é puxar a viagem, dizia o Reno.

E lá ia a gente pro Play Center em histeria conjunta, testando a paciência dos funcionários do parque de diversões (eu podia viver disso), girando de ponta-cabeça em geringonças piscantes, rindo convulsivamente, sacando tudo em telepatia. Minha grande parceira nessa longa viagem pelos limites da consciência, portas da percepção adentro, foi a mulher mais linda e louca que já pisou naquele bar. Síntese de divas italianas, Sophia Cicciolina: minissaia sem calcinha gritando na montanha russa, trêbada às nove da manhã segurando balões de gás coloridos parando o trânsito da Barros Cassal, correndo nua em orgias ao meio dia, estroboscópica ligada, corpos isolados da luz externa, a batida do ácido no ápice, trilha sonora: Sly and the Family Stone, trepando em colchões sujos atirados na pista de dança cheia de copos plásticos com restos de cerveja choca de ontem agora há pouco.

*

A pista de dança fervia ao som dos djs Black Moses e Rick Red Neck, pseudônimos inventados pra gente usar nos relises. Nas tardes de sábado eu e o Ricardo pintávamos na Sound & Vision, uma locadora de cds que mantinha a cena informada das novidades do distante mundo fonográfico. A Sound & Vision era gerenciada pelo Dudu, um cara gente finíssima que cantava (mal, por sinal) na Crushers, banda em que o Ricardo tocava baixo. A gente ficava na Sound & Vision ouvindo uns cds da Matador. O Diego "Doiseumindoiseuma" Medina estava sempre por lá com uma turminha que viria a ser a banda Os Massa. O Drégus vendeu seu passe de dj pro Circus mas a gente importou o Malásia pra auxiliar nos embalos de sábado à noite com a categoria de quem tem a cor. A Urro, tocando um samba atravessado from outter space, exorcizava o ambiente em sessões de descarrego sonoro. Júpiter Maçã, Graforréia Xilarmônica, Space Rave, Ultramen e Walverdes eram as pratas da casa. O Ricardo juntou forças com o Plato Divorak e eles produziram o Monterrey Popstock Festival, o evento reuniu uma pequena mostra do cenário alternativo nacional. O Tavares seguia fazendo seus tributos: o Dia dos Namorados Psicodélico, em que acompanhava, na guitarra, casais cantando em duetos; os Spiders, a banda glam que tocava Bowie, Iggy Pop e Lou Reed; ou a homenagem aos 30 anos do Sgt. Peppers. O show teve participação de Argonautas, La Infâmia, Júpiter Maçã e Moses, a banda em que eu cantava (mal, of course, sina de dono de campinho). A Grazi fez bonito cantando "Lucy in the sky with diamonds" com os Argonautas, combo de surf music instrumental liderada pelo Moreira, um cara que iria abandonar o roquenrol pela religião, deus me livre! O Ricardo e o Tavares mandaram muito bem na La Infâmia, tocando umas músicas casca grossa de executar como "She's leaving home". Eu, por minha vez, tomei uma figurinha das sobrinhas do Juca e destruí "A day in the life", Lennon se revirando no túmulo etc. O Júpiter não tocou "It's getting better" conforme o combinado, mas transformou "Mr. Kite" em dez minutos de pura psicodelia sônica, digna dos melhores power trios. Em 98 foi a vez do Álbum Branco.

Os afters se prolongavam até uma, duas da tarde. O sol assando a rua enquanto a gente seguia trancado lá dentro numa atmosfera controlada de fumaça de cigarro e cheiro de ceva azeda. O Júpiter era o centro solar daquela galáxia de loucos. Todo mundo gravitando em torno dele. Bebendo cachaça no Bar João por 18 horas consecutivas, amanhecendo na grama da Redenção com as roupas cobertas de folhas, falando inglês cockney fake, trepando em banheiros sujos, rodando em busca de cocaína no Simca Chambord laranja sem freio do Xurumelas. Era sempre tarde (ou cedo, dependendo do ponto de vista) quando trôpego ele entrava no bar, paramentado de Sargento Pimenta, mãos dadas com a louríssima Magra de mini-vestido vermelho e sem sapatos, os joelhos escalavrados de cair no chão e seguir arrastada pelo outro. Disparava pelo corredor puxando a boneca de pano de vestido vermelho e ia atormentando um por um até conseguir quantas doses de qualquer coisa pudesse extrair de qualquer um disposto a cair no papo infalível. Ou seja: todo mundo. Quase não ingeria sólidos. Quando o sushi-bar ainda existia (resistia?) a gente dava uns sushis pra ele comer no final da noite. Engolia dois sushizinhos e já perguntava se não tinha sakê. Nossas conversas giravam basicamente sobre dois temas: ele ou eu. Sendo que ele era geralmente o assunto mais comentado, seu egoncentrismo sobrepujava o meu. Ah, e música, é claro. Música, sempre:

Os anos 1960, eu dizia.

No que ele cortava:

Anos 2000, o lance é anos 2000.

Quando A Sétima Efervescência saiu, fazíamos audições consecutivas do disco, superchapados, descobrindo todos seus nuances. O adolescente cujo dilema existencial era a menstruação da namorada tinha crescido e se tornara um artista capaz de criar cenas de uma beleza cinematográfica (como a da ex dividindo o guarda-chuva pelas ruas de uma Porto Alegre de cenário da Nouvelle Vague). Ao violão, ele nos mostrava as músicas novas, umas bossinhas pra inglês ver tipo Um convidado trapalhão. E os shows que sempre começavam muito tarde, depois de horas apreensivas em que a gente nunca sabia se ele iria aparecer, o bar lotado. Até que alguém chegava da Osvaldo e dizia:

Tá lá no João.

E a Paola, a produtora, tinha que resgatar o astro, convencê-lo a fazer o show e sobretudo entupi-lo de café preto. Um tipo de pânico o atormentava antes das apresentações (paranóia é uma de suas caraterísticas mais marcantes) e o tormento só acabava quando enfim ele subia no palco e colocava a platéia no bolso. Fácil. Muitas vezes era impossível lidar com ele. Principalmente em questões envolvendo $$. Quando as cifras apareciam, se tornava mesquinho e ambicioso. A lealdade também não estava entre suas qualidades. Conhecendo-o melhor, entendi que o caráter de um artista nada tem a ver com a grandeza de sua obra.

O show de lançamento do A Sétima Efervescência aconteceu no Circus, o clube de nosso ex-sócio Marcos. Noite de gala no submundo. Tomamos as devidas providências (leia-se, drogas) e fomos pro show. Era sábado e combinamos de abrir o bar somente depois da apresentação do Júpiter, ninguém era bobo de perder essa. Vi o show bem na frente do palco, exatamente como naquela primeira vez em Esteio. Um artista ainda mais completo e surpreendente. No final, o baterista, o Glauco, chutou o instrumento, derrubando pedestais e microfones em meio à zoeira dos feedbacks, enquanto, envolto numa aura gasosa, Júpiter saía pros bastidores deixando a guitarra tombada em frente ao amplificador.

Assim que a música mecânica começou, dei ciao pros amigos, contrariado. Work to do. Tentaram me consolar dizendo que nos encontraríamos mais tarde. A batida do ácido tinha sido potencializada pela intensidade da apresentação. Puxar a viagem, como diria o Reno. Nada melhor pra puxar a viagem do que um show de rock daquele calibre. Fui caminhando pela Osvaldo, curtindo a beleza secreta da cidade que a droga ajuda a revelar. Me sentia um pouco triste, preferia ter ficado com os amigos. Qualquer trabalho é um trabalho, afinal.

Cheguei no bar e, não digo o universo, mas a filhadaputa da faxineira tinha conspirado contra. Maior sacanagem, não apareceu. Toda a sujeira da noite anterior empestava o ambiente: centenas de copos plásticos pelos cantos, bitucas de cigarro nos vãos do piso, garrafas com restos de cerveja, cacos de vidro. Não havia saída, tinha que encarar a limpeza. No que instantaneamente entrei em bad trip. Me sentia abandonado e traído. Todo mundo se divertindo enquanto eu ali, sozinho, varrendo um bar imundo. O porteiro chegou exatamente quando eu colocava o lixo pra fora, o que me fez crer que ele estava mancomunado com a faxineira. Todos contra mim. Demorou algumas horas até que amigos e clientes aparecessem. Tempo de limpar tudo e ainda tomar quatro doses de vodca curtindo a minha bad. O primeiro a aparecer foi o Juca, acompanhado das sobrinhas. As meninas perceberam a fragilidade do meu estado piscológico e vieram ao socorro com o que tinham de melhor (incluindo os peitões da loirinha de olhos verdes que afinal não era assim tão tímida). Depois todo mundo: o Júpiter, a Magra, a banda, um bando de groupies, as Little Sisters, o Xurumelas e seu Simca sem freio, todos os músicos da cidade plus duzentos bêbados sobressalentes. Cinco da manhã e a festa apenas começando. Às sete, dispensei o porteiro e tranquei o portão com corrente e cadeado. O ácido, no ápice. Se pediam pra ir embora, dizia que tinha perdido a chave. Pague para entrar, pule para sair.

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24.8.07

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE

Capítulo 17 - My own private Summer of Love ou As sobrinhas do Juca

Parte I

Lá por 89/90 eu trabalhava num banco, morava com a mãe e gastava quase todo o salário em discos (o quase por conta do resto de salário que eu gastava em drogas). Dia do pagamento, final do expediente, batia o cartão ponto, saía zunindo pela Rua da Praia até a Galeria Chaves e me atirava dentro da extinta Pop Som. Numa dessas incursões saí com o primeiro do Stone Roses, recém lançado no Brasil, e outro álbum de estréia: The Piper at The Gates of Dawn. Eu conhecia o Pink Floyd através de uma prima hippie do meu pai que eu achava o máximo e teve bastante influência no meu gosto musical adolescente. Ela e o namorado eram ligados em rock progressivo: Yes, Renascense, Focus, Jethro Tull e, é claro, Pink Floyd. Eles também eram adoradores do Blow by Blow, do Jeff Beck, do infalível The Dark Side of The Moon, e do Physical Grafitti, do Led Zeppelin - aliás, a prima do meu pai era muito parecida com o Robert Plant, o namorado dela também, só que careca. Eram fãs de Roger Waters e David Gilmor mas nunca haviam mencionado Syd Barret. Quando escutei pela primeira vez o The Piper fiquei com a grave impressão que a prima hippie do meu pai e seu namorado tinham me enganado em algum momento, me ocultado alguma informação muito importante. O Stone Roses foi o próximo no toca-discos. A música que saía dos alto-falantes soou aos meus ouvidos completamente de acordo com a do disco anterior, lançado trinta anos antes. Como se os 90 fossem os 60. If 9 was 6, ou vice-versa. Fiquei fissurado por aquela década mitológica do século XX. O advento do cd possiblitou acesso a muitas daquelas gravações legendárias que eu conhecia apenas através de resenhas na revista Bizz. O universo conspirava a favor e uma mostra psicodélica entrava em cartaz no Ponto de Cinema, uns filmes dirigidos pelo Roger Corman com gangues de motoqueiros, boates em Sunset Strip e o Peter Fonda no elenco. Simultaneamente vinha toda uma literatura dando embasamento pra loucura: os beats (especialmente Burroughs, Burroughs, sempre Burroughs); O teste do ácido do suco elétrico, do Tom Wolf , livro-reportagem que narra as peripécias de Ken Kesey e seus Merry Pranksters a bordo de um ônibus carregado de drogas na América de 1965; e o Novo Testamento do ácido: Flashbacks, biografia do guru do LSD Timothy Leary. O proselitismo lisérgico do Doutor Leary e a prosa alienígena de Bill Lee me pegaram pelo cu. Fuderam minha vida pra sempre, como diria o Johnny Depp. Caí matando nas drogas. Na busca dos tais estados alterados da consciência, valia tudo, até borra de café. Eu acreditava que tomando todas aquelas drogas poderia voltar no tempo e viver os incríveis anos 1960 como o Timothy Leary, o Ken Kesey ou o Peter Fonda. Perambulava apertado nuns terninhos de brechó da João Pessoa dois números menor, achava os Byrds a melhor banda do mundo e deixava de almoçar pra completar a grana de um disco que eu queria muito. Uma coletânea Peebles, por exemplo. Pensando bem, por um disco desses eu nem jantava.

*

Sempre que eu falava nos anos 1960. O Júpiter me interrompia dizendo:

Anos 2000, o lance é anos 2000.

O sujeito é uma lenda deste rock que além de gaúcho é brasileiro. Na província de Porto Alegre, nos idos 1980's fundou duas das bandas mais adoradas por estas plagas: TNT e Cascavelletes. Clássicos de um gênero, esses grupos contrapondunham a sonoridade de Beatles & Stones a letras juvenis apelativas de qualidade duvidosa. Só nos 1990's, depois da passagem por um estrelato meteórico que incluiu música-tema de novela, apresentação no programa da Angélica, pelada no sítio do Chico Buarque (me disse uma vez que o Old Blue Eyes tupiniquim não joga um ovo, sina de dono do campinho) e o auto-exílio num quarto-e-sala qualquer no centro da cidade, com sorte com vista pro rio (que é lago), foi que o roqueiro Flávio Basso se reinventou numa persona psicodélica que enfim pode revelar toda sua potencialidade como compositor.

Senhoras e senhores: Mister Júpiter Maçã!

A chegada dessa estranha e sedutora figura nos assoprou novos ares. Vapores estupefacientes? Bafo de biter? Não saberia dizer. Novos ares, mais chapados com certeza. Vendaval de sensações. Beber, falar, tomar LSD, Syd Barret e os Beatles e, principalmente, o refrão com as pessoas loucas e superchapadas. Quando ouvi aquela música, saquei tudo. Aquele lugar do caralho que ele cantava era um lugar muito parecido com o Garagem (se bem que a Joy sempre dizia que lugar do caralho é a cueca). Aquelas músicas falavam de coisas que estavam acontecendo naquele momento, com referências que me eram caríssimas, de forma poética e bem humorada. Deliciosas canções pop que sintetizavam esteticamente muito do que a gente acreditava, cantadas por aquele arauto do Aqui e Agora, o espírito do tempo estava em suas mãos. Deve ter sido arrastado até nós pelas melodias que escapavam das frestas da velha casa, pelo chamado da loucura, uivando em frequência inaudível aos ouvidos sensatos, pelo faro do cio das meninas de cabelo curto e grudado na testa.

A primeira vez em que vi o Júpiter em ação ele ainda era Flávio Basso. Tinha 14 aninhos, nem fumava maconha direito. Fui com uns amigos da escola num evento com o auto-explicativo título de Fenajovem, em Esteio. Lojinhas de tênis, gurizada andando de skate, vinho barato em garrafas plásticas escondidas na mochila, ninfetinhas bronzeadas. Um pé no saco: eu não tinha dinheiro pra comprar tênis, não sabia andar de skate, o vinho tinha terminado e as minas sequer notavam a minha existência. Mas a idéia era ficar até o show das bandas e pegar o dernier metrô (como diria o Truffaut) pra voltar pra civilização. Não lembro das outras duas bandas que devem ter tocado antes do show dos Cascavelletes. Lembro daquele cara com uma mancha marrom no pescoço, coberto de pó facial, dançando como o Mick Jaegger. Também lembro do rodie que toda hora entrava em cena e desenrolava o fio do microfone do pescoço do vocalista. Lembro de um cowboy de mullets tocando guitarra e do magrão de óculos de mosca no baixo. A música era aquele roquinho grudento que meus amigos da escola ouviam em fitas cassetes gravadas de programas de rádio. Caminhei até a frente do palco e, de perto, fiquei curtindo aquele o show de rock que tinha me salvado o dia.

A segunda vez foi na Boca do Disco, a clássica loja do Professor Getúlio, o ponto mais quente pra se adquirir discos venenosos na cidade. Eu vivia lá. Meus turnos prediletos eram os finais de tarde e sábados sem ressaca. Torrava meu salário de bancário em cds, fazendo mil escambos com o Professor que me via entrar na loja com a sacolinha de cds usados e disparava:

Cuidado com a Polícia Federal.

Era o método que ele usava nas trocas: desvalorizar o produto alheio já de cara. Daí o Getúlio me deixava esperando por horas com a minha sacolinha de drogas. Ele atendia todos os clientes, falando sem parar com aquele monte de expressões que ele inventava ("pai deles" pra qualquer banda influente e pioneira; "venenos" pros discos essenciais como Forever Changes, A Love Supreme, Hunky Dory ou qualquer outro que desse "cãibra no cerébro"; "Peidones" era como o Getúlio chamava os Stones, os Mutantes eram "Peidantes" e assim por diante; o Axl Rose ele chamava de "Pato"; uma sacola como a minha, cheia de discos pra trocar, podia dar cana por "porte de drogas"). Em jejum, ficava olhando fixamente praquela coletânea Peebles esperando o Getúlio me atender. Nas horas perdidas na loja, com todos aqueles discos à espera de uma audição, tirando uma casquinha de um e outro, pescando dicas de colecionadores, caindo na conversa escolada do Professor, eu ia aprendendo. A alcunha é por mérito, o sujeito sabe o que faz.

No que estava lá eu na Boca do Disco aprendendo com o Professor. A loja nessa época era um corredor escuro cheio de caixas de discos pelo chão, capas de vinis raros pelas paredes e pilhas de cds em cima de uma escrivaninha ao fundo. Foi quando, na contraluz de raios solares que vinham da rua, o vi entrar. Uma mudança havia se operado nele: desempertigado, um jeitão de cantor folk andarilho, só faltava o violão nas paletas e a harmônica no pescoço. Bingo! Entrou e foi direto na caixa com a plaquinha da letra B, de Bob, e hoje penso que o que eu vi naquela tarde de sábado, iluminado na treva da loja do Getúlio, foi um homem em processo de transformação. Um homem se transformando num planeta. A construção de uma persona artística erigida à base de muito Dylan, o Bob, o mito.

A tarde já caía e a loja era iluminada apenas por uma lampadinha fraca pendendo de um fio no forro. Não havia mais contraluz quando vi o planeta em transformação saindo com o Planet Waves embaixo do braço. Tive um impulso de sugerir pra trocar pelo Blood on The Tracks mas fiquei frio. Inútil tentar interferir no curso dos astros.

(continua)

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