4.4.08

Se é pra alegria geral da nação garageira, diga ao povo que...

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE

Capítulo 19 - Electronica ou Flashpower no paraíso

Uma lua cheia de filme iluminava a noite. No pátio, almofadas e colchões se misturavam aos corpos espalhados nas posições mais relaxantes, tipicamente chill out. Todo mundo se querendo. Do bar vinha o ruído de conversas e risadas misturado à música sincopada que saía através dos janelões e se espalhava no espaço, molécula por molécula, um som ritmado de matizes sintéticas irradiando no ar do verão. Reclinei a cabeça entre espasmos lisérgicos, deitado no chão, ao ar livre, almofadas macias e a estimulante companhia de duas garotinhas que na última semana tinham se tornado assíduas e me rodeavam como se eu fosse o dono.

Drinks energéticos por conta e o debut das garotinhas transcorria que nem o paraíso, se é que tem Flashpower lá. Elas me tratavam como um cachorrinho alimentado a guloseimas e eu ia de uma a outra, lépido e bem amado, quando o Oriano irrompeu não sei de onde completamente transtornado. O maxilar cerrado, a cabeça virando de um lado pro outro, cérebro envenenado de pura paranóia. Pura não, malhada. O transtorno era tão grande que o Oriano partiu pra cima. Não fosse a lua cheia eu diria que era culpa da cocaína.

Quê isso, Oriano, tá loco? Eu aqui um cocker e tu chega total pitbull.

O Oriano piscou várias vezes e balbuciou o dobro de desculpas. Perguntou se a minha mãe estava bem e, quando eu disse ótima, acenou um tchauzinho e voltou pro bar. Eu conhecia o Oriano há pelo menos uns dez anos. Ele tinha sido namorado da filha de um ex-namorado da minha mãe. Tipo um cunhado, resumindo. Um skatista gente boa, meio grunge, ligado no som dos Red Hot Chili Peppers que nunca me faria mal. Mas as ninfetas não sabiam disso e evaporaram rapidinho. Voláteis, as meninas.

Fiquei um tempo no chão do pátio, atirado nas almofadas. A lua branca lá no alto e a música hipnótica irradiando no espaço. Tomei fôlego e rumei pra dentro do bar, não sem antes cumprimentar vinte pessoas, dar pegas em três baseados e recusar pelo menos uma oferta de pó. Era uma noite agitada, mais uma edição da Full Moon Party, a festa de música eletrônica mais badalada do Garagem.

*

A Full Moon foi criada por três amigas – Ale, Cláudia e Lúcia – que mais tarde produziriam outras festas marcantes na cidade, como a noite drum’n’bass Quarta Quebrada, a arrassa-quarteirão oitentista Balonê e a pioneira rave local Fulltronic.

Lembra a Ale:

– Foi em meados de 97, quando a cena eletrônica ainda engatinhava no Brasil. A gente se achava muito entendida do assunto e jurava que tinha uma produtora: a Brixton Productions. Era o comecinho da internet no país e passamos a ter acesso a muita informação por causa disso. O Fim-de-Século era o único clube de música eletrônica na cidade e a gente já tava cansada de ouvir sempre o mesmo repertório, das limitações técnicas dos djs de lá e da falta de novas perspectivas e festas. Com a Full Moon, abrimos espaço pra outros estilos da música eletrônica, não só house, trance e techno, que era o que geralmente rolava nas festas. O pessoal da eletrônica mais experimental, todo ele, passou por lá: a galera da Fusion, de Canoas, que tinha um ótimo repertório, mais underground, importado de Detroit: Luciano Araújo, Luciano Benites, André Marques, Ilton Palma; os meninos de Esteio, da turma dos breakbeats: Dani Breaks, Maurício, Cretino e o Ed (o único dj de gabba que Porto Alegre já teve). O Telmo Lanes também costumava tocar e até o Herrera depois que saiu do Fim-de-Século.

Outro grande barato da Full Moon era a programação visual da festa. As meninas introduziram uma linguagem mais contemporânea pros flyers, que até então eram umas felipetas fuleiras de xérox. Elas também se puxavam na decoração, que mudava a cada festa, tudo feito por elas mesmas, que passavam a tarde inteira subindo e descendo escadas, martelando e pregando, cortando e colando, uma função a qual se dedicavam com devoção quase religiosa. Os primeiros lay-outs foram inspirados nos mangás e animes japoneses e logo depois veio a temática espacial, antecipando o que mais tarde se tornaria um padrão nas raves e festas de música eletrônica. As meninas também alugavam uma tonelada de equipamento de luz e som e as pick-ups eram instaladas no palco, levando os djs a tomar um espaço geralmente ocupado pelas bandas. A festa era um dos principais destaques no calendário garageiro e atraía uma fauna diversa que incluía aficionados da cena eletrônica, roqueiros de mente aberta, curiosos em geral e os que iam lá só pra comer gente. Porque rendia.

Rendeu também algumas boas histórias. A Ale, again:

– Uma vez apareceram uns atletas japoneses que estavam passando uma temporada na cidade. Ficaram surpresos com a decoração inspirada na cultura deles e fizeram amizade com a minha irmã. Lá pelas tantas nos deram uma real que nos deixou desmoralizadas: as coisas escritas em japonês na decoração estavam totalmente erradas, não faziam o menor sentido. Lembro de como nos divertimos quando um cara levou garrafas de dois litros de chá de cogumelo e distribui na festa, tipo suquinho. Outra histórica foi quando os vizinhos ficaram revoltados com o som alto e a zoeira na área dos fundos. Jogaram uma dúzia inteira de ovos na galera e ainda chamaram a polícia que nos fez baixar o som na marra. Lembro também dos cafés da manhã na padaria da esquina, onde o nosso querido Cláudio Monstro consumia a iguaria de um litro de iogurte de morango com três quindins dentro. Teve ainda a amiga que sentou no colo do namorado, num cantinho da pista, jurando que ninguém via que ela tava com a saia levantada, e o cara mandando ver. E tem a do Alex que uma noite foi embora um pouco mais cedo. Ia pela Independência em direção ao Centro pra pegar o ônibus, quando dois moleques tentaram assaltá-lo. Ele não teve dúvida, saiu correndo e voltou direto pro Garagem. Moral da história: mesmo querendo, o povo não conseguia ir embora antes do sol raiar.

A Fusion foi outra festa eletrônica clássica. Bem mais alternativa e maldita, abrigava a turma de Detroit especializada em techno de Canoas. Ou seria o contrário? Canoas, o melhor exemplo daquele conceito muito manjado em arte contemporânea: um não-lugar. Naquela cidade cinza, cortada por pistas e trilhas, em alguns daqueles prédios carcomidos e pichados, moravam o Luciano Araújo e seus comparsas, uns freaks conectados com o melhor da produção de música techno do planeta. Esses caras acharam seu espaço na agenda garageira e assim nasceu a Fusion. A maioria dos clientes, roqueiros ortodoxos, não curtia a proposta e as festas nunca fizeram muito sucesso. Uma amiga as chamava de Fujam.

Também tinha o Calvin e a turma que freqüentava a antiga Technique, uma loja que abastecia a província com lançamentos do longínquo mercado fonográfico internacional. Esse povo armou as primeiras festas eletrônicas no bar, lá por 94. Na mesma época aconteceu o Electronic Days. O festival mostrou um lado experimental da eletrônica, mais pro industrial com a velha bateção de sucata e outros clichês do gênero. Tudo produzido de forma muito amadora, com orçamento enxuto e prejuízo garantido. Lembro da apresentação do Loop B. Antes da passagem de som, ele desceu no pátio e, depois de fuçar nuns entulhos da lavanderia do vizinho, voltou de lá com uma carcaça de máquina de lavar, na qual entrou durante o show e nela executou um solo de furadeira. Barulho do inferno, se é que lá tem máquina de lavar.

Um marco da nossa iniciação eletrônica foi em 96 quando compramos nosso primeiro Chemical Brothers. No ano seguinte, outra aquisição marcante. Uma noite o Ricardo entrou no escritório e disse:

Olha o que eu consegui, troquei por duas cevas com um cara.

O cd tinha uma capa legal, parecia o bordado de uma jaqueta muito descolada. O nome também era bacana: Daft Punk. O Ricardo deu um fade no som e depois colocou a música que pouco tinha a ver com a tosqueira em três acordes do punk. Era um house pesado com jeitão retrô de teclados vintage e vocoder, uma puta pegada funk. Fissuramos na hora. Clássico desde o princípio.

*

Depois de concluir a maratona (com obstáculos) de gente querendo assunto e oferecendo drogas, entrei na salinha dos fundos. Um bando de malucos amontoados sacolejava na pista Plano B da Full Moon, uma pistinha alternativa que misturava big beat com funk, jazz com drum’n’bass, disco com raga. Um clima gostoso de festinha de apartamento com o som do Dani Breaks fazendo balançar os corpinhos na sala apertada.

Who’s that lady...

Cantavam os Isley Brothers e os corpinhos balançavam tanto que o chão tremia e o Dani era obrigado a colocar umas espumas embaixo dos cd-players pra amortecer o equipamento.

Atravessei o mar de corpinhos balançantes. No meio da pista encontrei a Ale, de óculos escuros e um longo copo (cheio) na mão. Uísque com energético, eu poderia apostar. Dei um beijo de oi, ela retribui e seguiu dançando. No corredor, me espremi por entre a fila do banheiro e a parede, uns passando a mão na minha bunda, eu passando a mão na dos outros, loucura, até sair no outro lado. No bar, a situação era a mesma: gente. O Gelson, nosso barman, um bailarino profissional que hoje mora em Gênova, se virava em mil pra atender todo mundo. Sempre com a maior categoria: pliet, garrafas abertas, pirueta, dinheiro no caixa, pliet, troco.

Segunda-feira, contas pagas.

Pensei, sorrindo em segredo, enquanto fugia antes que o Gelson viesse pedir uma força no balcão. Ao transpor a porta que separava o bar da pista principal entrei num universo paralelo. Um breu enfumaçado (sabor framboesa) tomava conta de tudo e eu distinguia apenas vagos corpos, muitos corpos, e uns ideogramas fosforescentes entre os flashes da luz estroboscópica. A música era intensa, os graves faziam tremer o piso e vibravam direto no peito. Os agudos zuniam por cima, na altura do pé direito da casa antiga, e depois atravessavam o cérebro furando os ouvidos. Os médios ficavam, é claro, no meio, confundindo tudo. A música certa com a droga certa. Tóin!

*

Em transe dançante após tempo indeterminado, senti um cutucão no ombro. Demorei a entender o que acontecia, completamente absorto no ritmo dos BPMs. O Gelson escapara do balcão depois de um spacato.

Banheiro, ele disse.

Resignado, fui pro balcão. Ser dono tem suas desvantagens. Trabalhar, por exemplo. Fiquei ali, abrindo tampinhas e coletando dinheiro enquanto o Gelson fazia xixi. Eis que: surpresa. As garotinhas que tinham evaporado depois da chegada pitbull do Oriano, mil anos-luz-estroboscópica atrás, apareceram de repente. Tirei uma latinha de Flashpower do freezer e balancei no ar. O Gelson voltou (em grande estilo, dando um salto tipo O quebra-nozes sobre o balcão), peguei os drinks e rumei pra pista. As garotinhas me acompanharam. Eu era o dono do paraíso.

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3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

HEY FELIPE!!
DEMOROU MAIS SAIU....
COMO SEMPRE BÁRBARO....
BOAS GAITADAS...
Titi

6:43 PM  
Blogger mutantismos said...

êêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêê!

6:48 PM  
Anonymous Anônimo said...

ai ai... me deu até um ataque de nostalgia...
adorow!!

muah,
ale

12:49 PM  

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