2.6.08

A FANTÁSTICA FÁBRICA
Capítulo 23 - Seu Antônio

Essa é a história do homem que morava embaixo do Garagem.

Seu Antônio era um mulato de 50 e tantos anos, viúvo, pai de dois filhos, estudante temporão de História na FAPA e, rufar dos tambores (tambores que o Seu Antônio não ouviria, assim como não ouvia a zoeira rock’n’roll all night long das longas noites do inferninho): surdo.

O dono da lavanderia no primeiro andar tinha sublocado uma das peças. Numa dessas tardes enfadonhas, esperando a entrega das bebidas durante a passagem de som, tédio absoluto, e pior: banda chata, vi esse velho de pijama e pantufas, zanzando no pátio do casarão. Desci pela escadinha lateral e, incisivo, abordei o homem, tom de voz tipo histérico:

Pois não?

O velho se apresentou: novo vizinho.

Agora essa, pensei.

Num tom mais ameno, perguntei se o barulho não incomodava.

Quê?

E a gente se habitou a ver aquela figura circulando pelo pátio da casa de pijama e pantufas. Mesmo sem escutar direito, Seu Antônio adorava uma conversa. O Ricardo não tinha a mínima paciência com o velho, de ficar gritando pra que ele ouvisse, tampouco com os assuntos. Quanto a mim, não era apenas o sentimento de piedade que me fazia parar pros dois dedos de prosa, como ele costumava dizer, eu gostava de conversar com ele. Na maioria das vezes, falávamos de política. Aos brados, invariavelmente. Era engajado em ações sociais em prol de comunidades carentes, lutava contra o preconceito racial e dormia o sono dos surdos, enquanto a gente arquitetava insone e inconscientemente uma revolução apolítica e egoísta. Ele também: 1) roncava, a ponto de fazer eco naquelas noites vazias e por si só deprimentes, imagina com uma trilha sonora dessas; 2) juntava lixo e sucata, como muitos desses velhos doidos por aí. Vivia trazendo algum entulho da rua e o pátio ficava sempre lotado de coisas inúteis. Quando fizemos uma festa junina, o Ricardo foi até o depósito de entulhos do Seu Antônio e trouxe de lá uns pedaços de madeira pra alimentar a fogueira montada no pátio, enfim alguma utilidade. No dia seguinte, o velho apareceu puto da cara reclamando que a gente tinha queimado um pé de mesa de grande estima pra ele.

Não contente em montar o ferro-velho, o Seu Antônio também resolveu abrir um restaurante. O bistrô do Seu Antônio era meia dúzia de mesinhas no pátio dos fundos, disputando espaço, lado a lado, com o depósito de entulho. Contando ninguém acredita. Eu mesmo custei quando ele disse que ia abrir um refeitório no meio de toda aquela tralha. Escreveu almoço numa placa de madeira tirada do próprio ferro-velho e pendurou no portão da frente. Achei que ninguém iria engolir aquilo mas nunca se pode subestimar a raça humana porque o Bric-à-brac Bistrô acabou conquistando uma pequena clientela. Era composta por gente da base da pirâmide social da Barros Cassal e arredores: garis, empacotadores, estivadores do asfalto e outros mortos de fome. Só mesmo à beira da morte pra encarar aquela gororoba sinistra servida pelo Seu Antônio, que sempre me convidava pruma boquinha:

É por conta.

Não, obrigado. E uma repugnante fragrância de fritura subia pro segundo andar, impregnando o ambiente e somando um fedorzinho extra ao característico blend de cigarro e cerveja choca. Eu ficava imaginando que tipo de coisa ele fritava. Algo caçado no depósito de entulho provavelmente.

Numa dessas tardes tediosas de espera da bebida (the story of my life), o Seu Antônio me chamou lá embaixo. Não o via tão irritado desde quando queimamos seu estimado pé de mesa.

Quê houve, Seu Antônio? Gritei da janela.

Daí ele falou de uma goteira que pingava na cozinha do seu refeitório. Descobri que um dos nossos freezers não tinha a tampa da manguerinha que escoa pra fora aquela água suja de gelo derretido e cerveja azeda. Assim que desligávamos a chave de força no domingo de manhã, pós-festerê, aquela sopa fria começava a se formar dentro do freezer e ia pingar lá embaixo no ensopado do Seu Antônio.

Por essas e outras, o empreendimento gastronômico não vingou e o Seu Antônio passou a se dedicar a sua pesquisa acadêmica em História. De vez em quando recebia a visita do filho, um carinha da minha idade (na época, hoje deve ser bem mais velho). Tinha também uma filha, mas só a vi uma vez, quando apareceu pra almoçar ainda no tempo do bistrô. Depois de provar a comida, nunca mais voltou.

Outra bronca que ele tinha com a gente era com o banheiro. O banheiro do Seu Antônio ficava fora da casa, numa área de serviço ao lado do pátio. À noite, o pessoal que trabalhava no bar também usava aquele banheirinho de emergência, sempre limpo e sem filas. Não demorou pra que o banheiro limpeza do Seu Antônio se tornasse de domínio público e TODO MUNDO dava um jeito de burlar o segurança e, pulando o portãozinho lateral, ir até lá satisfazer as necessidades, fossem elas químicas, fisiológicas ou sexuais. O resultado era que, no fim da noite, ou seja, de manhã, quando o Seu Antônio acordava e, como um relógio, ia fazer suas abluções matinais, o banheiro estava um completo desastre: papel higiênico sujo transbordando da lixeira, camisinhas usadas, xixi na tampa do vaso, o de praxe em se tratando de banheiro de boteco.

Um dia ele perguntou onde comprávamos os docinhos.

Docinhos?

Esses negrinhos que vocês vendem adoidado.

Negrinhos?

Sim, esses que o pessoal come e depois atira o papel do embrulho no vaso, eu sempre tenho que desentupir.

Achei que o velho estivesse delirando. Uma noite, cheio de cerveja na bexiga, fui usar o banheiro de emergência do Seu Antônio e quando mirei o pinto no meio do vaso vi o papel de embrulho a que ele se referia. Juro que: 1) definitivamente não era de negrinho e 2) não era a gente quem vendia.

Foi numa noite de inverno, um friozão fodido dessas quintas-feiras que eu só queria estar em casa vendo tevê embaixo do cobertor, que o Seu Antônio apareceu dentro do bar, um chambre puído por cima do pijama. Uns clientes que estavam no meio da sala viram aquela figura esfarrapada e soltaram uma gargalhada. Eram os mesmos que, minutos antes, tinham rido quando o chão soltara um estalo num intervalo de música. Um estalo mais alto que os estalos de sempre.

Tremeu o chão, gente!

Gritou uma bichinha roliça e os amigos caíram na risada. Era a mesma bichinha que, guinchando como uma hiena, apontava pro Seu Antônio de chambre e pantufa. Pensei que ele ia reclamar do banheiro ou de algum pedaço valioso de entulho que a gente havia detonado. De mansinho, me pediu que o seguisse até sua casa.

Era uma peça abarrotada de livros, revistas e jornais que ele dizia se tratar do material de sua pesquisa, tudo empilhado nos cantos, ocupando a maioria do espaço. Um colchão velho estirado no meio da bagunça, o pequeno fogão encostado na parede e era isso.

Embasbacado diante da austeridade da casa do Seu Antônio, esqueci o motivo da visita até que ele chamou a minha atenção, apontando pra cima. Ali estava a viga do segundo piso, exposta em sua fratura, a origem do estalo mais alto que os de sempre. Ajudei o Seu Antônio a fazer uma pilha de livros. Construímos um apoio pra viga quebrada com boa parte do material de pesquisa do velho. Afinal, leitura é a base.

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3 Comments:

Blogger mutantismos said...

papel de negrinhos! hahaha! muito bom, léo!

12:46 PM  
Blogger renatodias said...

Este comentário foi removido pelo autor.

4:35 PM  
Blogger renatodias said...

Tá mais pra papelote de branquinho. Quanta ingenuidade seu Antonio... Grande Presença!

4:40 PM  

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