30.6.09

Então, era isso...
A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE
Capítulo 27 - A última noite

Uma longa fila se formava na rua, saindo do portão, no meio da quadra, em direção à Independência. Depois dobrava a esquina e seguia mais alguns metros pela calçada. Contei, por cima, umas 150 pessoas, a maioria com a maior pinta de quem nunca dantes frequentara aquela espelunca, inquietas como crianças na fila da montanha russa, os figurinos nada a ver, mauricinhas e patricinhos (ou vice-versa), prontos pra desfrutar a última noite do Velho Garagem. De alguma maneira, o antro se tornara inofensivo. Amanhã há de ser outro dia, livre desses depravados que já vão tarde, uma espiadinha lá dentro pra ver como era até que vem bem, se a gente for em bando fica mais seguro.

Ninguém morreu.

Eu pensava enquanto descia a rua desde o táxi em direção ao casarão, olhando o povo enfileirado. Foi mesmo muita sorte. Nem mesmo um pequeno incendiozinho, como prenunciavam falsamente os mais terríveis pesadelos do Ricardo. Escapamos ilesos, como diria a Space Rave, uma das atrações daquele Bailão Apocalíptico, ao lado da banda da casa (leia-se, dos donos). Se bem que ainda havia a última noite. Mas aí já seria um azar despropositado dar uma merda terrível tipo desabamento. Não. Os anjos estavam com a gente, só podiam estar. E lembrei da vez em que um jovem desembargador de carreia promissora se mudou pras redondezas e decidiu moralizar o bairro. Nada de inferninhos na região. Ficamos apreensivos, graças à forte influência política do jovem paladino. Contudo o rapaz teve sua promissora carreira subitamente interrompida. Em férias pelo Chile, morreu num acidente envolvendo um vulcão – até então inativo. Nosso anjo da guarda devia ser o Damien.

Cheguei em frente ao portão, alguns amigos ostentando um olhar apavorado de “meu deus, não vou conseguir entrar” se aproximaram pedindo a infalível liberação. Eu era todo amor aquela noite. Dentro da casa, senti o aconchego dos vários rostos conhecidos, sorrindo, e do calorzinho tradicional que fez com que o Tronho Crocco nos apelidasse de Bar Garrafa Térmica. Aquilo parecia até final de novela com todo o elenco confraternizando. Eu via garageiros dos mais diversos tipos: amigos da Velha Guarda, novos universitários, ex-groupies, junkies em recuperação, todo o pessoal das bandas, ex-jovens, cineastas experimentais, quadrinistas mal vestidos, donos de bares da Grande Porto Alegre, traficantes em liberdade condicional, médicos fora do plantão, estilistas anônimos, ébrios convictos, abstêmios em crise, gays, lésbicas & suspeitos, malas sem alça, enxadristas em férias, punks old school, skatistas hardcore, gostosonas, mucras, policiais disfarçados, mestrandos em Comunicação, artistas visuais, poetinhas, vendedores de incenso. A vida em toda sua diversidade. A música era alta e as pessoas pareciam querer se divertir como se não houvesse amanhã. Havia?

Mas um repuxo de negatividade flutuava em meio à onda eufórica da comemoração. Alguns amigos nos olhavam com cara de enterro, outros com nítido rancor e ainda tinha aqueles que verbalizavam todo seu apavoramento, a expressão máxima daquele sem chão em que suas vidas se apoiariam:

Filhas da puta.

Não me importava, estava convicto de que a venda do bar tinha sido um acontecimento tão importante quanto sua fundação. A cerveja, assim como toda e qualquer bebida disponível, acabou bem cedo naquela que foi a noite mais cheia na história da casa. A Space Rave fez um show longuíssimo, inapropriado pro clima de festa/enterro da noite. Em oposição, os Minimaus tocaram pouquíssimo, não lembro de uma nota só. Jamais fomos tão aplaudidos.

Acertamos a bilheteria com os COLunistas, que, creio, nunca tinham visto tanto dinheiro antes. Pagamos os funcionários, entregamos as chaves da casa pro porteiro, pegamos nossos discos e namoradas e fugimos com um maço de notas no bolso. Cinematográfico. Em nome dos velhos tempos, seguimos por 48 horas acordados. A droga da despedida. Não presenciamos o que aconteceu depois, mas os relatos que chegaram através do porteiro Jorge dão conta de que, numa catarse destrutiva, os clientes tentaram levar “um pedaço do bar pra casa”, conforme alguém tinha sugerido no release de divulgação da festa. Creio que alguns COLunistas portavam inclusive martelos de demolição. O balcão foi invadido e pilhado (só tinha garrafa vazia), os objetos de decoração, assim como algumas partes do estuque das paredes, foram removidos a unhadas e até as pás dos ventiladores e os fios de eletricidade foram arrancados.

O sol de domingo ia alto quando os últimos clientes saíram, entres eles o Zanella e o Diego Medina, abraçados, cambaleantes, rindo e chorando, papinho eu te considero. Enquanto o Seu Jorge trancava o portão, o Diego ajudou o Zanella a subir pela parede (?) e tirar a placa do bar, que ficava pendurada num espeto embaixo da janela, uma peça de ferro formada por duas mesas soldadas, pintada pelo Kbeça em meados dos anos 90, memorabilia de toda uma geração. Numa acrobacia bêbada, o Zanella conseguiu retirar a placa. Caiu de joelhos no chão e empunhou contra o céu azul a peça de colecionador que até hoje ele guarda em casa, a foto da façanha pra comprovar. O fim de uma era congelado num clique: Zanella, a placa e Seu Jorge, ainda segurando as chaves da casa depois da última noite.
Epílogo

Entretanto, como muitos fatos relacionados ao Garagem possuem uma natureza dúbia e enganadora, houve mais uma noite.

Recebi um telefonema no domingo, a festa ainda acontecendo lá em casa. Era uma mina da faculdade que havia marcado seu aniversário algumas semanas antes da venda do bar. Eu tinha esquecido completamente do evento e àquelas alturas já não me importava com nada. Dei o número do Seu Jorge e disse que, se ela quisesse, poderia pegar as chaves com ele, mas teria que comprar as bebidas porque não havia mais uma latinha de cerveja nos freezers.

Ah, e tem que limpar porque a faxineira só vai na segunda.

Pro meu espanto, ela topou. Mais tarde me contou que sua festa de aniversário foi “mágica”. Reuniu os amigos e ficaram tocando violão num Garagem à luz de velas e só deles. No repertório, as clássicas da ripongagem nacional. Curioso fim pra um bar que já foi chamado de punk.


4 Comments:

Blogger Fábio Sidrack said...

do caralho, léozinho...pô, a editora da ufrgs não publicaria??? hehehe

6:44 PM  
Blogger Raul said...

agora só falta publicar, se possivel com um encarte com fotos. vai dizer...

abs
raul

6:54 AM  
OpenID brunobandido said...

fico até triste nesse final, por ter acompanhado essas histórias dese o primeiro post há não sei quantas porras de meses atrás.

já era.

3:18 AM  
Blogger Frank Franklin said...

e era isso...

11:28 AM  

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