5.2.07

A Disneylândia dos freaks

(Última das 3 crônicas de viagem)

Amsterdam é a Disneylândia dos freaks. O que dizer de uma cidade em que sexo e consumo de drogas são a atração turística principal? Ok, ok, tem também o Museu Van Gogh e a casa da Anne Frank, mas o que atrai o grosso dos turistas são mesmo os coffee shops e o famigerado Distrito da Luz Vermelha.

Turismo sexual e maconheiro, o que em outro contexto causaria síncope raivosa em certos moralistas de plantão, em Amsterdam não é apenas aceito, como de certa forma estimulado, na medida que uma das maiores fontes de renda pros cofres públicos.

O histórico de liberalidade e tolerância de Amsterdam não vem de hoje. Vem lá do século dezessete quando a cidade era uma das principais da Europa, um porto movimentado onde refugiados de perseguições religiosas de todo o continente podiam viver sem conflito. Na Amsterdam de 1600 – com suas casas peculiares e tortas, rede de canais desenhando um labirinto urbano – católicos, protestantes e judeus conviviam pacificamente, respeitando diferentes hábitos e pequenas idiossincrasias.

Mas o caráter de disneylândia dos freaks vai se estabelecer no século XX, com as ações do Provos. O Provos foi um coletivo de ativistas políticos, artistas, delinqüentes juvenis e malucos que surgiu em Amsterdam no início dos anos 60. Através de happenings e ações que desafiavam o status quo, o Provos ajudou a definir o que chamamos hoje de contracultura. Dentre as idéias defendidas pela geração Provo estavam a liberdade sexual e o consumo de drogas. Olha o que dizia o artista Van Duijn, um dos cabeças do movimento: “As drogas são ilegais e por conseguinte exercem atração. Estão em conflito com a opinião pública, vão contra as normas e os modelos reinantes, eis porque gostamos delas.”

E assim, quarenta anos depois da revolução Provos, um bando de doidos enche durante o ano inteiro as ruas da cidade buscando sexo e a alteração dos estados normais da consciência.

Por isso, o que pareceria no mínimo curioso em outra cidade do mundo, em Amsterdam é corriqueiro. Putas seminuas se refestelando por trás de vitrines iluminadas por luzes néon. Sex shops especializados em artigos sado-masoquistas. Pessoas de todas as idades fumando maconha impunemente em cafés espalhados pelo centro histórico. Adolescentes comprando cogumelos alucionógenos às oito da manhã nos smart shops. Em Amsterdam, tá tudo liberado.

Peraí, nem tudo. O consumo de drogas pesadas é francamente desestimulado pelas autoridades, o que não impede que substâncias como cocaína, speed e ecstasy sejam compradas ilegalmente nas ruas, de imigrantes africanos que se escondem pelos becos escuros oferecendo o produto aos turistas. Mesmo proibidas, as drogas pesadas estão inseridas numa política de contenção e redução de danos, que muito diferente da paranóia do War on Drugs americano, encara de forma mais humana esse problema de ordem social e de saúde pública.

Estar em Amsterdam é como ter entrado num túnel do tempo e sair em algum momento lá dos anos 60. Em Amsterdam, o sonho ainda não acabou.

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1 Comments:

Blogger Daniela said...

Fantastica essa cronica! Ja havia escutado-a no talk radio e, desde entao, fiquei pensando que tu deverias compilar todas as cronicas de viagens num livro, o qual poderia ser ilustrado. Estou morando no Reino Unido e tenho fotos bem bonitas da Europa que poderiam acompanhar as cronicas.
Ha alguma maneira de entrar em contato contigo sobre esse assunto?
Um abraco!

11:52 AM  

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