22.9.07

Homens notáveis V
John Cassavetes

Dentro da indústria o homem foi ator, celebrizado como um dos maiores crápulas da história do cinema: o marido que oferece a esposa pro capeta, corno diabólico, na obra-prima do terror O bebê de Rosemary. Vendia a alma desse jeito pra depois alcançar a salvação, torrando os vultosos cachês no financiamento de filmes radicalmente autorais, produzidos à margem do esquema industrial de Hollywood. John Cassavetes é o pai do cinema independente e o maior nome da nouvelle vague americana.

Filho de imigrantes gregos, nasceu em 1929 na mesma Nova York em que, trinta anos depois, rodaria seu primeiro filme como diretor e roteirista. Shadows é um marco do cinema, com suas cenas urbanas e trilha sonora jazzística (assinada por Charles Mingus). O filme rompe com os padrões de produção de Hollywood, seja no orçamento reduzido, nas interpretações improvisadas, no uso de atores semi-profissionais ou no enfoque dismitificado das relações racias da América hegemonicamente branca.

A escola de Cassavetes é o teatro. Ele se graduou em artes dramáticas e provavelmente foi influenciado pelas técnicas do Actor's Studio, muito em voga na época. Mas foi na tevê que estabeleceu seu nome, tendo participado de centenas de telepeças e protagonizado uma série de bastante sucesso, Johnny Staccato, sobre um dublê de detetive e pianista de jazz. As experiências teatrais e as técnicas documentais da televisão se fundem no cinema de Cassavetes. Um cinema viril, de amigos enchendo a cara juntos, machões românticos e durões estilo Humphrey Borgart apaixonado. Ainda que masculino, deita um olhar atento sobre a mulher, especialmente na figura de Gena Rowlands, esposa do diretor e sua grande companheira de aventura, protagonista de sete de seus filmes. Além de Gena, Peter Falk e Ben Gazarra são outros atores-fetiche pra Cassavetes, que costumava trabalhar só com os amigos em suas produções (seu filho Nick também é cineasta). Um cinema de grupo, de vida levada a consequências máximas, de porres homéricos e amor à flor da pele. Um cinema que não mente.

Apesar da aura de culto que gira em torno do homem, os filmes de John Cassavetes foram muito pouco vistos. A maioria padeceu de péssima distribuição na época de lançamento e somente agora alguns títulos começam a ser reeditados em DVD. A crítica européia foi a primeira a reconhecer seu talento. Um pouco depois de sua morte (por cirrose, em 1989), Godard dedicou a ele o segundo de seu Histories du cinéma.

O que torna imperdível a mostra em cartaz na Sala Paulo Amorim até 17 de outubro. Cinco dos principais filmes do cultuado diretor americano, um por semana: A woman under the influence, Shadows, Faces, Opening night e The killing of a chinese bookie. Todos com legendas em português.

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1 Comments:

Blogger mutantismos said...

valeu a dica, léo. vou espalhar. abraço!

9:28 PM  

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