9.3.07

As mulheres são o inferno
(Crônica do Talk Radio de 09/03)

Mulheres. O tema me atrai tanto quanto as próprias. Sabendo dessa minha atração, a Melissa, amiga queridíssima que já foi inclusive personagem destas crônicas, me presenteou com um livro obrigatório para o entedimento deste ser que, conforme aprendi no tal do livro, não nasce, se torna.

Publicado originalmente em 1949, O Segundo Sexo é um clássico da literatura feminista, ainda que o termo nem existisse na época. O livro, composto por duas partes Fatos e Mitos e A Experiência Vivida, é um extenso ensaio, em que a autora, a filósofa existencialista Simone de Beauvoir, tenta explicar porque a mulher se deixou submeter à tirania do macho durante toda a história humana. A obra foi recebida na França como um acinte, deixando alvoroçado o macharedo conservador do pós-guerra. Pela primeira vez, esquerda e direita se uniram com um mesmo propósito: esculachar a autora de semelhante infâmia.

É que a Simone – com o perdão da total falta de formalidade – foi certeira em seus disparos.

A mulher é o Outro, diz ela. A alteridade que ajuda o homem a se compreender. E enquanto este vive uma existência plena como indivíduo, a mulher carrega consigo as obrigações para com a espécie. Ou seja: ele goza e cai fora, ela ovula, emprenha, gesta, amamenta...

A mulher, o ser relativo. Semelhante e dessemelhante ao mesmo tempo.

A diferença entre os gêneros existe, sabe muito bem a Simone, mas ela não explica a vexamosa segunda colocação na hierarquia dos sexos. A Simone é erudita. E lá vêm biologia, antropologia, filosofia, materialismo, psicanálise. Ufa! Nenhuma das ciências, sozinha, dá conta da complexidade dessa construção chamada mulher. Mas os dados históricos apontam pra uma só conclusão: o homem fodeu direitinho com a mulher durante esse tempo todo. Em apenas dois momentos na história da humanidade ela esteve, senão por cima, ao menos ao lado do homem. E, olha, faz tempo: foi lá na Idade da Pedra.

No início dos nossos dias, quando éramos nômades e coletores, homem & mulher andavam juntos na caravana. Elas carregavam os fardos pra que eles, de compleição mais avantajada, tivessem as mãos livres pra lutar e caçar. Status social de 50% pra cada um.

Em seguida, ou seja: alguns milhares de anos depois, o homem descobre a agricultura e vê nela semelhanças com a mulher: ambas geram algum tipo de fruto, estão sujeitas às variações lunares e aos ciclos das estações. A mulher goza de privilégios, é uma figura totêmica, associada à fertilidade, à colheita, espécie de divindade que não escolheu estar no pedestal.

Foi o homem que a colocou ali. E pra tirar, um pulinho.

Chega a Era do Bronze. O homem trasforma a natureza com ferramentas que são extensões de seu corpo. O pensamento prático suplanta o místico. Surge a ciência e o entendimento de que o fruto que sai de dentro da mulher também foi engendrado por ele, que se declara único detentor desse fruto. Seu proprietário. Dono dos filhos, da mulher e da terra.

Tradição, Família e Propriedade, e a mulher virou escrava pra sempre. Bem vindos à sociedade patriarcal. Bye bye filiação uterina, como diria a Simone.

Hoje em dia, enquanto em alguns lugares do planeta a mulher ainda vive como na Idade Média, em certas partes a situação melhorou um pouquinho. Aqui no Brasil, por exemplo, 25% dos altos cargos da administração pública e privada são ocupados por mulheres, olha se não é um luxo. Deu no site da BBC. Deu também que no mundo dos bussiness, são mulheres as que mais têm mais propensão ao alcoolismo. Consequência da absurda competitividade do setor, pobrezinhas.

Resumo da História:

A mulher é o Outro, disse a Simone. Mas como maridão dela, o Jean Paul, disse que o inferno são os outros, conclui-se que as mulheres são o inferno.

O equivalente ao caos e às trevas, conforme eu li na epígrafe do livro, escrita pelo sábio Pitágoras.

Ainda bem que lá na Era do Bronze, em algum lugar na pré-História, a gente tomou o controle da situação, não é mesmo rapazes?

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2 Comments:

Blogger Laura said...

agora para completar as leituras... tinha que ler tb o SCUM MANIFEST da Valerie Solanas (aquela louca que deu um tiro no andy warhol)... http://gos.sbc.edu/s/solanas.html

11:47 AM  
Blogger clandestini said...

UAU!

Mesmo depois de esvutar eu tinha que ler. Perfeita análise da Simone hein... Esse livro é meu livro de cabeceira... hehehehe

beijos ;}

http://trecosetrapos.org/weblog

10:28 PM  

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