1.3.07

Aleijadinha

(Esse conto ficou de fora da edição final de "O Vampiro")

Essa quem contou foi o Robério, jornalista, ex-roteirista de programas infantis da Globo que nos anos de 1970 trabalhou (como todo mundo nos anos de 1970, ao que parece) num esquema de teatro meio hiponga, gente finíssima, perfeito gentleman no trato para com seus dessemelhantes, bon vivant, maconheiro pertinaz e – sobretudo – um daqueles caras tipo a personagem-paradigma pra tudo isso aqui: o homem que amava as mulheres do Truffaut, grande Robério, um cara pertencente à seleta classe dos best friends. Pois bem, o Robério conta:

A gente fazia uma campanha pra prefeito em Piranópolis, um cu de mundo, noventa dias naquele inferno e o Zaneti começou a sair com uma guria paraplégica que trabalhava no comitê do candidato. Uma moreninha bonitinha pra caramba, tinha tido uma doença na infância e parou numa cadeira de rodas, imprestável da cintura pra baixo, coitadinha, um amor de guria, precisa ver. O Zaneti se apegou à menina e começou com papinho no restaurante do hotel e mãozinha dada à mesa, em seguida já tava ajudando com a cadeira de rodas da calçada pro carro, e daí foi um pulinho pra beijinho na boca no Furyo’s, a boate onde a gente ia dar uma esticada pra desopilar do estresse que são essas campanhas, sacumé.

Pois eles ficaram nessas de casalzinho por um tempo, papinho e mãozinha dada, um help com a cadeira de rodas e beijinho na madrugada no Furyo’s, mas não saía disso. Lá pelas tantas a guria intima:

Tá, e aí?

Mas rola?

Claro que rola.

Então o Zaneti começou a falar do momento decisivo em que a campanha tava chegando e das últimas pesquisas do Ibope e do volume de trabalho da equipe, problemas insolúveis na ilha de edição, relatórios & cronogramas & fluxogramas & o caralho a quatro, fingiu um bocejo que soou forçado, olhou no relógio se espantando com o horário (muito mais cedo do que normalmente ele ia pra cama) e se despediu da guria prometendo pra amanhã.

No dia seguinte o Zaneti tava que era uma pilha de nervos, pensativo, murmurava e gesticulava sozinho, parecia louco. Puro cagaço, medo de não saber administrar a novidade, de brochar, macular a fama de fodão.

Tá, Robério, como é que eu faço?

Me perguntava o Zaneti e eu ria e dizia:

Sei lá, Zaneti, pendura ela em algum lugar, num cabide.

Mas no fim das contas o Zaneti acabou cumprindo a promessa e acho que deu tudo certo porque ele chegou a comentar depois que a guria era bem criativa, carinhosa, que tinha sido uma experiência interessante et al, o que me faz acreditar que ele curtiu de verdade a menina porque nunca entrou nos detalhes, vamos dizer, pitorescos da coisa. O Zaneti um cara reservado, quem diria. O romance dos dois ainda durou um tempo até que ele trocou a aleijadinha por uma ruiva estagiária da assessoria de imprensa. Anfan, como diria o Baudelaire.

Fim da campanha (só pra constar: o candidato não se elegeu), todo mundo voltou pra Porto Alegre e um tempo depois eu vou numa reunião de um projeto prum documentário na casa do Zaneti e, entre um uísque e outro, vem o papo da aleijadinha e ele me conta que a namorada tinha descoberto um certo e-mail com fotinho de mão dada no Furyo’s, declaração de bons momentos que passamos juntos no cabeçalho. O maior rebuliço mas o Zaneti negou até a morte. Aproveitei a deixa e perguntei:

Tá, Zaneti, mas conta aí, como é que foi com a aleijadinha afinal?

Foi bom.

Disse o Zaneti caindo numa absorção enigmática. Suspirou devagar e contemplou o vazio com um brilho estranho nos olhos e esse gesto do Zaneti me faz pensar até hoje em como será que foi essa porra dessa foda com a tal da aleijadinha.

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1 Comments:

Blogger clandestini said...

adorei o conto...hummmmmmmmm, acho que a foda com a aleijadinha deve ter sido supimpa...

11:41 PM  

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