15.2.07

Escritos de Artistas

(Crônica do Talk Radio de 16/02)

Dica de leitura pra equilibrar os bundalelês carnavalescos com um pouquinho de arte e cultura. Se me permitem, é claro.

O título do livro é auto-explicativo: “Escritos de Artistas Anos 60/70”, uma compilação de textos teóricos e ficcionais, cartas, entrevistas e manifestos escritos por alguns dos principais nomes da arte contemporânea.

As pesquisadoras Glória Ferreira e Cecília Cotrim, ambas com respeitáveis currículos acadêmicos, são as responsáveis pela compilação que explora temas como "a definição, a intenção e o local da arte, processos produtivos de uma obra, novas mídias e a relação entre arte e política". Ou seja: tópicos pra lá de pertinentes pro debate crítico da história da arte de nosso tempo. Estão lá representados os movimentos artísticos mais importantes da segunda metade do século XX: minimalismo, pop art, Arte Povera, arte conceitual, arte postal, Fluxus, land art...

A lista de autores/artistas não é menos impressionante: Joseph Beuys, John Cage, Donald Judd, Richard Serra, Frank Stella, Jasper Johns, Claes Oldenburg, Sol LeWitt, Piero Manzoni, George Maciunas, Paul Sharits... E ainda os brasileiros Hélio Oiticica, Lígia Clark, Paulo Bruscky, Artur Barrio, Cildo Meireles...

Por trás do aparente cabecismo, “Escritos de Artistas” se mostra um livro gostoso de ler, indicado para leigos a fim de se inteirar da coisa sem haver engano (como diria o Luiz Melodia). Todos os textos, apresentados em ordem cronológica, são acompanhados de notas introdutórias que trazem pequenas biografias dos artistas e o contexto no qual foram publicados originalmente.

Três destaques:

“Manifesto do Chelsea Hotel” foi escrito em 1961 por Yves Klein. A referência ao célebre hotel da boemia novaiorquina aponta o novo local para onde a produção da arte mundial iria migrar a partir dos anos 60, saindo de seu centro original, a Europa, em direção aos Estados Unidos. Neste texto publicado pouco antes da precoce morte de Klein, o genial criador dos blue monochromes propõe a conquista do espaço através da expansão da sensibilidade humana. É a proposta de uma arte mística, imaterial e absoluta.

O norte-americano Allan Kaprow, tido como o criador do happening, é o autor de “O legado de Jackson Pollock”, de 1958. Através da análise da obra do inventor da action painting, Kaprow prevê o futuro da produção artística dos anos 60 em sua associação entre arte e o cotidiano. As teorias de Kaprow, expostas de forma clara e objetiva, se deixam impregnar por uma escrita poética, digna dos melhores autores.

Diferente de Klein e Kaprow, que crêem na indissociação entre arte e vida. Ad Reinhardt diz que “a arte é arte, a vida é vida”. “Arte-como-arte” foi publicado pela primeira vez em 1962 e apresenta um ponto de vista no mínimo polêmico em meio ao debate artístico dos anos 60. “Artistas que alegam que suas obras vêm da natureza, da vida, da realidade, da terra ou do céu”, escreve o autor, “são objetivamente e subjetivamente tratantes ou grosseiros”.

Como diria a minha avó, dá pano pra manga. E isso que eu estou ainda na página cem e o livro tem quase quinhentas. O lançamento é da editora Jorge Zahar, 50 pila nas melhores casas do ramo.

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3 Comments:

Blogger Daniela said...

Any chances of having you e-mail address? Veja comentarios na cronica "A Disneylândia dos freaks". Valeu!

8:07 AM  
Blogger Leo Felipe said...

Daniela,
Meu e-mail: remarkablerocket@hotmail.com

1:51 PM  
Blogger mari said...

também tô lendo esse livro, lio. saudades!

3:57 PM  

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