8.7.08

FRONTEIRAS FOR DUMMIES: BEATRIZ SARLO E AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA

Tanto tempo sem escrever que temia ter perdido o traquejo. O blog sobrevivendo miseravelmente à base de flyers e releases de divulgação. Contribuiu pro, digamos, recesso ter perdido a conferência da última semana com Ayaan Hirsi Ali, cerejinha no grande bolão do Fronteiras (cachê de 80 mil dólares, dizem). Orbitando na blogosfera leio que a escritora e política somaliana, que sofreu com o regime misógino do fundamentalismo islâmico e foi ameaçada de morte por sua postura crítica em relação a ele, sentou o pau na idéia de multiculturalismo. Provocador, no mínimo. A frustração de perder uma fala tão interessante deixou seqüelas numa preguiça monumental de articular qualquer frase inteligível (a sorte foi uma foto posando de sleeveface, tirada na casa de um amigo, que deixou este Foguete com um arzinho mais up to date). Mas é chegado o momento de enfrentar o monstro.

Não sem antes relatar as devidas conspirações do universo (contra e a favor):
A primeira foi quando, durante o check in no setor de imprensa, dou conta de que esqueci minha credencial – bem como a mochila na qual ela estava dentro – no carro da colega de trabalho que me dera uma carona. Credencial, mochila, além da carteira e das chaves de casa. Ou seja: uma bela duma cagada.

Infortúnio consumado e eu pensei:

Que se foda.

E decidi assistir às palestras, a mochila e minha vida dentro dela que esperassem. Mesmo sem a credencial, entrei sem problemas, nada como ter bons contatos. O problema veio quando a escritora e crítica literária argentina Beatriz Sarlo, começou sua fala A literatura e a arte na cultura da imagem. Citou o ano de 1929 e eu já sabia que falaria do rádio como a invenção tecnológica que permitiu comunicação simultânea e à distância entre os homens. Como bem observou um amigo na saída do auditório, a professora não disse nada que a gente não tivesse dado conta sozinho, ou discutido com alguém em mesa de bar, sala de aula ou outro local de aprendizado. Falou da cultura das celebridades que se globaliza pelo mundo nas mais diversas nacionalidades, de Bollywood ao Projac. Mencionou, é claro, o Grand Hermano, o programa de tevê fetiche entre acadêmicos das mais diversas áreas do conhecimento, hit número um em teses de mestrado, doutorado, monografias, ante-projetos e afins.

Nesse ponto eu só pensava na mochila e no enorme trabalho que daria recuperá-la. Não conseguia mais prestar atenção na fala óbvia da senhora Beatriz porque ficava o tempo todo lembrando o quão retardado eu tinha sido a ponto de tê-la esquecido no carro de uma colega de trabalho de quem nem tinha o telefone. Foi quando meu bom contato no Fronteiras chegou carregando a segunda conspiração do universo, na forma da mochila que minha gentilíssima colega de trabalho tinha acabado de deixar na recepção.

Meu humor melhorou apesar da palestra ter seguido naquela linha insípida tipicamente acadêmica. A coisa foi temperada (uma pitadinha, no máximo) quando a professora citou a elite social e cultural (não necessariamente econômica) e sua predileção por manifestações artísticas consagradas, em detrimento à produção das vanguardas que romperam a unanimidade entre público e crítica. Beatriz Sarlo ainda destacou o caráter pré-falkneriano da literatura latino-americana que teve seu boom na metade do século XX. Uma literatura aos moldes da praticada no século anterior ao de sua criação, que "arruma o mundo e tranqüiliza o desenlace". No caderno que extraí da mochila anotei: "esperança estética". A professora afirmou que a crise da cultura é a crise da escola e em seguida se mostrou otimista com o futuro da literatura e do mundo dizendo que "esperar pela próxima leitura [que revolucione o campo da criação literária] é como esperar a forte intervenção política que libertará os povos e públicos". Grifei a palavra esperar, repetida duas vezes, e pensei que a senhora Beatriz era uma mulher paciente demais, observando o mundo desde sua cátedra.

Eu sabia que o Affonso Romano de Sant’Anna pertencia a tal da elite social e cultural que a senhora Beatriz citara momentos antes. Imaginava-o crítico em relação a certas manifestações da arte contemporânea, mas não supunha que pregaria um retrocesso tão grande, a um tempo anterior à "abertura da caixa de Pandora da não-arte do dadaísmo" (admito: reacionário, mas ótimo frasista).

Em roupas negras, com lustrosos sapatos de salto, o poeta e professor sugeriu que as pessoas no auditório fizessem exercícios de alongamento, "como nas fábricas chinesas", pra se preparar pro que ele tinha a dizer. O pronunciamento, com o título triplo de Alguma coisa não vai bem/Na proa do Titanic/Em busca de uma outra episteme, havia sido extraído de seu próximo livro "O enigma do vazio" e buscaria problematizar a cultura do nosso tempo.

Para Sant’Anna, as proposições que anunciaram a morte de Deus, da arte e o fim da História criaram uma série de "objetos desagradáveis" e de "pretensiosas trivialidades". Segundo ele, há uma exaustão do paradigma que dominou o século XX, os sintomas dessa canseira verificados na falência de um modelo estético fascinado pelo erro e pela desordem, centrado na neurose, no vício e na ideologia.

Exibindo um conhecimento enciclopédico, Sant’Anna listou dezenas de filósofos - tanto pensadores críticos ao novo modelo paradigmático quanto àqueles que o enxergam de forma positiva. A negação do paradigma clássico é o novo paradigma, que passa por questões puramente pessoais. O século XX trouxe a derrocada da grande teoria da arte, que perdurara 2400 anos, desde a Grécia Antiga. A física quântica, a filosofia de Nietzsche, o marxismo, a psicanálise e o dadaísmo foram as armas que ajudaram a derrubar o velho paradigma de beleza.

"Graças ao relativismo da física quântica, vivemos o domínio da incerteza."

"O pensamento de Nietzsche, o filósofo quântico, está na base dos sofistas que dizem não haver verdade."

"O marxismo e a psicanálise já sofreram suas revisões, agora é a vez da arte moderna ser revista."

"Desde o dadaísmo, arte é o que qualquer um diz ser arte. Trata-se de ver significado em qualquer insignificância."

Desprezou o que chamou de "certeza da incerteza" e defendeu que ordem e conseqüência estão na base da vida.

"Na desordem existe também uma cota de incompetência."

Usando gestos largos e expressões bombásticas, Affonso Romano de Sant’Anna parecia um ator, algo entre Raul Cortez e Bela Lugosi. Chamou Duchamp de grande mentiroso e zombou de Beckett:

"Depois do fim do jogo, há de se recomeçar o jogo."

Definiu a produção intelectual e artística de hoje como a "poética da dispersão", "a teorizar jubilosamente" a morte da arte, do romance, de Deus e do homem. Para ele a tanatomania define o século XX, um vasto "cemitério niilista" de culto à desordem, a violência e a destruição.

"O novo paradigma é a reinvenção do jogo", proclamou. E finalizou, retumbante:

"É preciso voltar cem anos!"

Não foi exatamente o fim da conferência, mas a frase ficou ecoando na minha cabeça, de modo que não consegui mais acompanhar o que ele dizia. Propor um novo jogo ao fim do jogo me parecia uma boa tentativa de seguir jogando, mas querer voltar às regras de um passado parnasiano de perfeição era um anacronismo inaceitável. A arte é um produto do homem em seu tempo e, se um determinado paradigma estético é derrubado, não foi por simples birra de um bando de intelectuais suicidas, cínicos e debochados. Quem sabe o paradigma não dava mais conta da realidade que os artistas tentavam representar... As premissas dadaístas que foram dar na arte de nossos dias têm como conseqüência lógica o fim da própria arte, mas e daí? Talvez seja necessário ao homem superá-la. Eu ficava com Duchamp: num mundo marcado pela desigualdade e pela intolerância, prefiro o cinismo da piada à hipocrisia da grande arte como receptáculo de beleza, justiça e verdade.

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3 Comments:

Blogger Rafael Ferretti said...

Ouvi essa última frase qd tu tava conversando com o Lana. E concordo em parte, se a opção à hipocrisia for o cinismo da piada. O problema é qua a piada ficou séria também, e aí se perfilou com a hipocrisia da arte como farol da verdade, da liberdade e do escambau. O Duchamp criou a maquina de cagar pra tudo, mas só não se pode cagar pra arte, que manteve seu papel(higiênico) de elevar a consciência para a reflexão instantânea. Aì pode ser tão hipócrita quanto antes. Ou mais, porque pode-se dizer que tudo é arte, ou tudo é verdade. Acho interessante pensar em relativisar o relativismo, dá pra sentir na própria pele o que a falta de certezas faz. Justifica a procrastinação, o futuro parece um túnel no fim da luz. Mas voltar 100 anos é frase de efeito, e o problema das frases de efeito é esse, fica retumbando, se perde a sutileza, o jogo da reflexão vira só um grande reflexo, que ofusca. Frases em parachoque de caminhão conceitual. Mais uma forma de arte. Se ele não estava falando sério, o que quer dizer é refletir em cima de pontos do antigo paradigma, fazer uma arqueologia dos antigos conceitos, uma dialética do novo através do velho para criar um novo, novo. Porque afinal, não seriam as bases as mesmas? Dá pra acreditar que tudo foi revogado pela arte contemporânea? Não né? Ainda existe essa aura mística que sustenta assombros, vernisages e leilões. Não se democratiza a arte conceitual, mas sim o conceito do que é arte. A arte contemporânea não ganha as ruas, a arte das ruas ganha o rótulo de arte de galeria. Mas calma, tô só pensando...Pensar é bom, pontos pra o Fronteiras e pra ti que nos representa tão bem e ajuda a pensar.

12:15 PM  
Blogger mutantismos said...

Rafa, Léo... não assisti ao Fronteiras mas fiquei com a impressão que "voltar 100 anos" é um desejo de retomada das bases. Aquela coisa de "pra fotografar sem foco e com o horizonte tortinho, tu tem que saber fotografar em foco e com o horizonte reto". Falta muito isso hoje. A galerinha já vai desvirtuando tudo e não tem referência de base, não tem conhecimento anterior.
Talvez essa falta de certezas que tu fala, Rafahell, venha daí, dessa falta de sustentação. Sei lá, devaneios de quem dormiu cedo pra caralho e acordou as 6 da manhã com insônia tardia.
E, caras... o lance de que hoje tudo é arte (ou pode ser) é foda de entender mesmo. Mas vi uma palestra do Joaquim Paiva (maior colecionador de fotografia de arte particular do BR) e ele disse uma coisa interessante: "fotografia é aquilo que o autor, A PARTIR DA SUA INTEGRIDADE E SEU PASSADO FOTOGRAFICO, diz que é fotografia". Achei interessante.

Abrasssssss
Raul

6:28 AM  
Anonymous bruno said...

outro voto pro duchamp.

5:34 PM  

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