16.10.08

FRONTEIRAS FOR DUMMIES: CARPINEJAR E PEDRO JUAN GUTIÉRREZ

Entre gaúcho orgulhoso e clown, Carpinejar adentrou o auditório pilchado. Diria dos pés à cabeça não faltasse o chapéu, apenas a careca brilhosa sorrindo à luz dos holofotes. Pendurada no ombro trazia uma guampa de boi (uísque doze anos dentro) que ofereceu ao colega de palestra: Pedro Juan Gutiérrez, outra portentosa careca resplandecendo no topo de um blazer blanco, exata medida da elegância caribeña. Comparei as calvícies e considerei sobre a escalação da dupla pra palestra da noite. Semelhança estética. Ainda bem que a Paula Taitelbaum é bem cabeluda.

O Carpinejar é um pai apaixonado confesso. Em sua fonética conflitante, leu uma espécie de longo poema que falava do amor à família e às palavras. O texto abria com o clichê da criança que acredita ter sido trocada no hospital. Acho que não tive infância porque jamais cogitei uma coisa dessas. No telão, ao invés da imagem do palestrante, eram mostrados instantâneos-poéticos-de-pequenos-objetos-do-cotidiano, xícaras, bilhetes na geladeira, cadarços de sapatos etc., idéia que poderia ter sido boa se as fotos também o fossem. Como fotógrafo o Carpinejar é um excelente escritor.

E a leitura seguiu naquele tom amoroso e apaixonado característico de sua literatura, com o humor na dose certa pra agradar a audiência do Fronteiras. Lembrou da italianada à mesa, do beliche que dividia com o irmão, de fotos em Pinhal. Vieram as reminiscências do avô e eu que começava a achar chata demais a fixação com infância e família, experimentei alguma empatia com o Carpinejar quando lembrei que há poucos dias tinha pensado no meu avô com saudade. Não era um completo insensível afinal.

“Somos as palavras que escolhemos.”

Nos definiu. Nós, tartarugas das emoções, o tempo todo carregando conosco passado, vida e família, com um repertório verbal montado por assimilação dos sons, ações, medo e (perdão) delírio de nossos afetos. Foi um discurso bonitinho, com seus momentos de singeleza, mas longe de dar aquele barato intelectual que eu experimentara em outras noites de Fronteiras do Pensamento.

O outro careca entrou em cena com o relaxamento desencanado de quem já comeu muita puta nessa vida. O rosto sulcado num sorriso másculo, a careca morena, o blazer blanco, só faltou o charutão. Pedro Juan era uma caricatura de si próprio.

(continua)

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3.9.08

FRONTEIRAS FOR DUMMIES: PHILIP GLASS

– Let’s give Philip Glass a warm welcome!

Proferiu, num tom meio teatral, o MC da noite, o compositor e professor Celso Loureiro Chaves. Fã tentando agradar, pensei. Falando em inglês pro ídolo compreender. Então ele entrou no palco, passando por um piano de cauda instalado na lateral e, pra minha surpresa, não foi pro pequeno púlpito de onde o fã tinha feito a abertura. Sentou numa poltrona, colocou uma folha de papel na mesinha de apoio e iniciou uma fala tão preguiçosa quanto todas as aparências indicavam, elas de fato desenganam. Na medida em que o discurso avançava, ficou a certeza de que ele não tinha se preparado muito, só uns esbocinhos que consultava de vez em quando na folha de papel, balbuciando um inglês casca-grossa de compreender que se diluía em frases mal acabadas, soltas num vazio alusivo. Pra piorar, os fones da tradução simultânea dos vizinhos num volume altíssimo interferiam, com seu ruído agudo de radinho, o entendimento da (se é que dava pra chamar de) conferência. Apelei pra leitura labial, olhos grudados num dos telões do auditório.

Não era primeira vez que Glass vinha à cidade. Ele já havia se apresentado por aqui em 2001, na 8ª edição do Porto Alegre em Cena. O músico ficou conhecido do grande público nos anos 1980 quando criou a trilha dos documentários de títulos impronunciáveis do diretor Godfrey Reggio: Koyaanisqasi e Powaqqatsi. Desde lá, compôs trilhas-sonoras pra filmes de sucesso como Kundun, O Show de Truman e As Horas. O início de sua trajetória artística remonta aos anos 1960 e vai além das colaborações com cineastas: compôs pra teatro, ópera e performances, sempre em parceria com grandes nomes das artes. A fala Criatividade e colaboração pretendia dar conta justamente desse aspecto importante de seu trabalho, mas creio que faltou empenho, objetividade e talvez capacidade para tanto. Se bem que, logo de início, Glass avisou que preferia tocar que falar, o que fez em dois momentos, os melhores da noite. Também exibiu o curta Evidence, do parceiro Godfrey Reggio, outro bom momento em meio ao monólogo tedioso e pouco inspirado.

Philip Glass faz parte de uma geração que transformou a arte do século XX. Transformação que, segundo ele, foi lenta e difícil de perceber porque muitas vezes seus artífices não notavam a dimensão do impacto que causavam. Herdeiro das idéias de Duchamp, ajudou a embaralhar os limites entre sujeito e objeto. Muy informalmente, o músico propôs fazer um apanhado de como a arte mudou nos últimos 50 anos. Dividiu sua fala em quatro temas, entre eles: 1) a relação entre performance e público; 2) colaboração artística e 3) o performer como intérprete. Não consegui compreender do que tratava o outro tema, mas ao fim isso pouco importou porque o próprio Glass esqueceu de abordá-lo.

Ele explicou que a performance só existe porque há um público que a assiste. Essa percepção veio após o contato com o trabalho do músico vanguardista John Cage, em Paris, em 1961. Cage foi integrante do legendário grupo Fluxus, coletivo que incluía artistas tais quais Yoko Ono, Joseph Beuys e Nam June Paik. Formado em Nova York, por George Maciunas, o Fluxus combatia o status quo do mercado das artes, propondo um tipo de arte lúdica, expressada em suportes tão diversos quanto a música, o vídeo, a poesia e, sobretudo, o happening. Com origens no dadaísmo, o Fluxus foi a expressão máxima da anti-arte naqueles loucos anos 1960. E foi nessa época que Glass leu os escritos de Cage e conheceu seu trabalho. Ficou fascinado com a controversa composição 4'33'' (que, ao contrário do que muitos pensam, não consiste em 4 minutos e 33 segundos de silêncio, mas dos ruídos do ambiente onde a peça é executada durante essa duração).

“Para que algo produza um som é necessário que alguém o ouça.”

Mencionou ainda a técnica de cut-ups experimentada por Cage em cima de textos de Thoreau. Falou do fascínio pelo acaso no ato criativo e do interesse pelas artes performáticas. Para Philip Glass, a performance é a intersecção entre a música e o teatro experimentais. O músico confessou que sua arte chegou nas salas de concerto apenas no final dos anos 1970. Até então, suas peças ficavam restritas às galerias de arte.

Lembrou das parceiras com os dramaturgos Samuel Beckett e Bob Wilson. Com o último compôs a ópera Einstein on the beach, da qual executou um trecho enquanto, no telão, eram exibidas cenas da montagem. Também citou a parceria com o cineasta Godfrey Reggio, que levou sua arte ao alcance do grande público. Por fim, lembrou do poeta Allen Ginsberg, com quem se apresentou por todos os Estados Unidos em performances poético-musicais. Acompanhado de uma gravação de um poema contra a guerra (“Só não lembro qual”) na voz do famoso poeta beat, executou mais uma peça ao piano.

A música era extraordinária. Infinitamente superior à fala fugidia de seu criador e às repetidas digressões que o faziam rir em piadas sem a menor graça. Bocejos gerais. Ao meu lado, uma mulher cochilava sem constrangimentos.

“Entendo o tempo como algo material.”

Disse Philip Glass, enquanto duas filas à frente um senhor espiava as horas no celular pela enésima vez. Decerto concordava com o músico: o tempo é tão material quanto o dinheiro e não há nenhum dos dois a perder. Abandonou o auditório antes do fim da (se é que dava pra chamar de) conferência. Ele e várias pessoas.

Com o início da sessão de perguntas, aproveitei pra escapar também. Antes de deixar o auditório, vi que Celso Loureiro Chaves fazia menção à presença de Laurie Anderson, outra parceira de Glass. Já a tinha visto no saguão da reitoria, antes da conferência, ao lado do sempre risonho Peninha. Ela e outra dessas grandes damas da arte contemporânea, a Vera Chaves Barcellos, perscrutando com olhos desconfiados o entorno. Na noite seguinte, Miss Anderson se apresentaria na abertura do Porto Alegre em Cena.

Na saída, os bateristas Prego e Diego Silveira batucavam umas estruturas metálicas numa performance insípida com ares de jogada publicitária. A apresentação fora encomendada pela organização do evento, que dali a dois dias anunciaria alterações no programa do ciclo de conferências: o já esperado (pra usar uma expressão beckettiana) godot do David Byrne e a escalação extra do (pra usar uma expressão de acordo com a dimensão de seu excelente trabalho) gigante Richard Serra.

A carroça nunca foi tão veloz.

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22.8.08

FRONTEIRAS FOR DUMMIES: WIM WENDERS
Parte II
Soube que, na noite da chegada de Wim Wenders à cidade, um convescote (sic) reuniu, de maneira informal, o cineasta, jornalistas e intelectuais. Porra, eu nunca sou convidado pra esse tipo de coisa, pensei. Deve ser porque falo muito palavrão, merda! Na tarde seguinte, Wenders, sempre solícito, participou de uma palestra para professores e alunos do curso de cinema da PUC. Quando deixei o Salão de Atos, depois da conferência, ele concedia uma entrevista para um programa de tevê, transmitido do saguão do auditório, no olho do furacão do Fronteiras (David Lynch, que medita, não teve um décimo da paciência). Durante a coletiva, foi extremamente atencioso com os jornalistas que contribuíram, na maioria, com perguntas decentes.

A crítica Ivonete Pinto mandou bem com uma sobre a experiência de Nick’s Movie, que registra as últimas semanas de vida do cineasta Nicholas Ray. A idéia original era fazer um filme de ficção que desse continuidade ao personagem de Ray em O Amigo Americano. Mas a doença do diretor de Juventude Transviada e Johnny Guitar impediu o projeto de avançar.

“O câncer foi mais forte que todas nossas idéias ficcionais.”

Como Ray queria muito fazer o filme, Wenders adaptou-o para o que se transformaria num tocante documentário sobre a morte de um artista. Experiência assustadora que só não foi interrompida a pedido do médico de Ray. Para viver, seu paciente precisava continuar o filme. Wenders filmou Nicholas Ray até o último momento possível, no leito de hospital.

“É um mistério que isto exista em filme.”

O tema da morte também rendeu comentários sobre seu novo filme Palermo Shooting, em que um fotógrafo alemão vai à Itália e consegue fotografar a morte, na forma de uma mulher. Li em algum lugar na blogosfera que o filme recebeu péssimas críticas. Deve ser por isso que Wim Wenders não mais as lê, conforme revelou na coletiva.

“Meu filmes preferidos obtiveram as piores resenhas.”

O Marquinhos Mello, afiado como sempre, fez referência ao documentário Chambre 666 pra perguntar sobre o futuro do cinema. Wenders realizou o filme durante o festival de Cannes de 1982. Pôs uma câmera 16 mm num quarto de hotel. Os diretores que participavam do festival eram convidados a entrar, ligá-la e responder à pergunta: qual o futuro do cinema? A referência do Marquinhos foi a deixa pra Wenders contar que lhe haviam proposto o mesmo desafio, algumas horas antes naquele hotel. Idéia do Gustavo Spolidoro (baita espertinho), que fez um documentário encomendado pela organização do evento (também deve ter sido do Gus a idéia de dar uma camisa do Inter pro Wim Wenders).

O correspondente do JB fez uma pergunta péssima, daquelas com uma longa introdução traçando um breve apanhado da carreira do artista e destacando aspectos relevantes de sua obra, pronunciada num tom tão blasé que fez com que o tradutor (baita profissional) perguntasse ao fim:

Hein?

E pediu que repetisse a segunda parte. O correspondente do JB refez a pergunta, suprimindo a introdução, uma pergunta boba que Wenders respondeu com a maior gentileza, tão vagamente quanto tinham lhe perguntado. Dois guris cabeludos que faziam a cobertura prum site quiseram saber da relação do rock com o trabalho do cineasta. Wenders, que leciona numa escola de arte em Berlim (“Nas escolas de arte entende-se o cinema num sentido mais amplo. Escolas de cinema são muito voltadas para a carreira.”) e deve estar acostumado a lidar com os jóvens (como diria o Carlinhos), respondeu que morria de inveja dos roqueiros.

“Eles têm muito mais liberdade que os cineastas.”

Confessou que, em suas aulas, está muito mais interessado com o futuro do que com o passado do cinema. Sente gratidão pelos mestres mas prefere o trabalho das novas gerações. Também contou da visita de Glauber Rocha ao set de O Estado das Coisas, em Sintra, pouco antes de sua morte. E, claro, abordou o onipresente tema novas mídias. Para Wenders, a tecnologia digital expandiu a linguagem e o vocabulário do cinema e deu mais liberdade aos iniciantes.

“Não tenho nostalgia da película.”

DON’T COME KNOCKING

Li em letras vermelhas nas costas da jaqueta de um carinha sentado na segunda fila do auditório. Se a vida tivesse a opção com legenda, viria escrito embaixo:

ESTRELA SOLITÁRIA

A coletiva tinha sido boa, mas a conferência estava matando a pau.

A América, uma das obsessões do artista, foi evocada através de um de seus produtos mais importantes: o cinema.

“O senso de identidade americano foi estabelecido pelo cinema.”

A construção do sonho americano se dá nas imagens em movimento, projetadas na grande tela.

“Imagens são as armas mais importantes do século XXI.”

Então WW disse que exibiria algumas imagens. E como não é bobo, não caiu na armadilha preguiçosa de mostrar uma clipagem de seu trabalho. Não iria ilustrar o que acabara de dizer, como alguém que escreve as legendas primeiro pra depois escolher as fotos. Exibiu Invisible Crimes, um curta feito pra organização humanitária Médicos Sem Fronteiras. Sua equipe viajou até o Congo, no coração das trevas, na mesma região em que Conrad ambientou o famoso livro que inspirou Apocalypse Now. Lá, numa aldeia perdida no meio da zona de guerra, colheu depoimentos de mulheres abusadas por militares e milicianos em eterno confronto.

“Depois da exibição do filme, vocês poderão me perguntar sobre qualquer coisa que eu tenha dito ou feito até agora.”

Disse Wim Wenders antes de nos tocar com um delicado soco nos peitos. Aturdido com a pancada, demorei a aplaudir quando o diretor voltava ao palco, luzes acessas novamente. Veio a rodada de perguntas. Wenders falou da paz e de sua impopularidade (“Todos os épicos são sobre a guerra”) e de detalhes da produção do filme que tínhamos assistido. Muito pragmático, Gerbase quis saber como resistir ao cinema de Hollywood (“resegva de megcado?”) que, segundo seu brother Giba Assis Brasil (baita frasista), é ao mesmo tempo o melhor e o pior do mundo.

“First of all, não tentar copiá-lo.”

Antes ele já havia manifestado sua preferência por estações de trem aos Batman, Harry Potter e semelhantes. Fui obrigado a concordar, esses filmes de Hollywood são cada vez mais (e sempre) a mesma merda. Depois do último Batman (Heath Ledger merece um Oscar, essa deve ser a piada mortal) decidi que não perco mais meu tempo precioso que adoro perder com um monte de outras coisas inúteis indo ao cinema ver blockbuster da estação. Opa, mas voltando ao Wenders, cinema de Hollywood é que nem junk food: de vez em quando é bom, mas não enche cabeça. Segundo ele, devemos ignorar a indústria, ela vai ficar bem sem nós.

Antes do anúncio do fim da conferência (que desencadeou um muxoxo coletivo no auditório) Wenders narrou um episódio biográfico quando, aos 23 anos, trocou numa loja de penhores seu saxofone tenor (em que tocava “nada além de Coltrane”) por uma câmera Bolex 16 mm. Ótimo negócio. Pra ele e toda a humanidade. Coltranes já bastam os que têm por aí.

Mas um dos melhores momentos da noite veio na resposta a uma pergunta aparentemente idiota:

Qual a diferença entre atores americanos e alemães?

E Wenders, um cara legal pra caramba, contou uma ótima história de bastidores de O Amigo Americano que foi mais ou menos assim:

Aquele era o primeiro filme de Bruno Ganz. O dedicado ator, escolado nos palcos teatrais, acordava de manhã cedo e, todos dias, ia bater na porta do diretor pra passar o texto. As filmagens acontecendo de acordo com o cronograma, tudo nos conformes. Foi Dennis Hopper (“o arquétipo do ator americano”) chegar que o set virou do avesso. Hopper voltava das filmagens de Apocalypse Now, direto da selva, trajando o figurino do filme, cinco câmeras penduradas no corpo cheio de feridas, louco, chapado, rindo e falando compulsivamente, a complete mess. Isso não vai dar certo, pensou Wenders. No outro dia, ao bater da claquete, Hopper se tornara uma nova pessoa. Recomposto, encarnou o talentoso Ripley, dando-lhe vida, improvisando inesperadamente, alterando a marcação original do texto. Quelle performance. Mas através do visor, Wenders percebeu algo errado: Bruno Ganz acertou um soco no meio da cara de Dennis de Hopper. Ao revide do americano, o diretor foi obrigado a gritar corta! Os dois deixaram o set e Wenders achou que fossem brigar lá fora. Voltaram na manhã seguinte, abraçados, bêbados e melhores amigos. Não houve filmagens naquela tarde, a ressaca impossibilitou. Na manhã seguinte, o diretor foi surpreendido com Dennis Hopper em sua porta, cedo, querendo passar o texto. Bruno Ganz, por sua vez, apareceu minutos antes da gravação. À batida da claquete, estava pronto. Mais tarde, confessou a Wenders que O Amigo Americano salvou sua vida.

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20.8.08

FRONTEIRAS FOR DUMMIES: WIM WENDERS

Parte I

Eu tinha 17 anos, lembro muito bem. A sessão foi num domingo, no extinto Ponto de Cinema Sesc. Num belíssimo preto-e-branco, começava com um filme dentro do filme, rodado num hotel abandonado em algum lugar da costa portuguesa. Terminava com a impactante cena do diretor alvejado num estacionamento na Califórnia, apontando sua câmera no derradeiro tiro de revide contra a indústria que assassina a arte. Deixei a sala de projeção e fui caminhando em direção à obrigatória Osvaldo Aranha. Trazia comigo uma sensação estranha, mistura de deleite e melancolia. Estava feliz e triste ao mesmo tempo, seria possível? Eu me sentia desoladoramente vivo enquanto tocava os pés nas pedras frias das ruas de Porto Alegre. Tão sozinho quanto sempre estarei, meu cérebro ebulindo em milhares de idéias. No frescor dos meus teens, eu desfrutava uma espécie de epifania, a tal da vertigem da arte. Barato total que estimula, juntos, coração e mente.

Recentemente, ou seja, 17 (!) anos depois, revi O Estado das Coisas e pude experimentar a exata sensação daquela antiga noite de domingo. A mesma vertigem causada pela obra que Wim Wenders produziu em resposta a uma situação traumática: a experiência malfadada da parceria em Hollywood com o produtor Francis Ford Coppola, em Hammet. Durante estes 17 (!, não canso de me espantar) anos, procurei conhecer a filmografia de Wim Wenders e considero alguns de seus filmes os melhores que o cinema já produziu, incluindo o epifânico O Estado das Coisas e também Paris, Texas, que chega a ser covardia: é o filme mais lindo que existe. Há ainda os pequenos e não menos belos diários filmados, como Tokyo-Ga e Nick’s Movie, poemas de amor ao cinema e seus artesãos. Obras de arte singulares e confessionais que convergem passado e futuro: dialogam com a história do cinema e desenham formas muito diferentes do modelo industrial hollywoodiano. Desde os anos 1990 a filmografia do cineasta parece ter perdido um pouco da força, mas Wenders ainda é um artista que tem muito a dizer. Espero rever seus filmes que menos gosto para reavaliá-los. Wim Wenders merece todo o meu respeito. Em sua passagem por Porto Alegre, mostrou que grandes artistas também podem ser pessoas legais.

Falar sobre fronteiras parece apropriado para um cineasta que tem na viagem o grande tema, é famoso por rodar road movies e ainda traz na bagagem produções filmadas nos cinco continentes. Eu sabia que ele não apareceria por aqui vendendo livrinho de auto-ajuda. Wenders, que no final dos anos 1960 participou, ao lado de nomes como Herzog e Fassbinder, da retomada do cinema de seu país, é um pensador das imagens em movimento. Além disso é um humanista que sofre de otimismo e sabe que tem uma grande responsabilidade enquanto artista. “Uma alma germânica romântica”, como se definiu com sua fala mansa, marcada pela inquietação com o estado das coisas no mundo e o futuro dessa arte que chamam por aí de sétima.

Carlos Gerbase, que fazia a condução do evento, anunciou o tema da fala: Cinema além das fronteiras. Wenders apareceu em suas botas de cowboy, calça baggy e casaco de malha. Uma cabeleira cinzenta tapava metade do rosto. Trazia um pequeno note book embaixo do braço. Foi aplaudidíssimo, creio que a maioria dos presentes compartilhava do meu enorme respeito a ele (exceto uns idiotas que deixaram o celular tocar durante a conferência, feio, muito feio). Estacionou com as pernas abertas (deve ser problema de coluna, disse lá pelas tantas a senhora a meu lado) e se apresentou:

“Como vocês devem saber agora, meu nome é Wim Wenders.”

O mesmo jeito de falar que eu já tinha escutado em seus documentários. Aquele devanear sincero, com a serenidade germânica por trás das frases pronunciadas pausadamente num inglês muito claro.

“Antes de tudo, sou um viajante.”

Tornou-se viajante em função daquele misto de vergonha e culpa que aflige os alemães de sua geração. Nascido em 1945, nos escombros de uma Alemanha devastada pela Segunda Guerra, Wenders teve de deixar para trás um país estigmatizado pelo erro nazista. Viajar pra se encontrar.

“Às vezes você tem que viajar muito longe para se conhecer de perto.”

Faraway, so close. Durante a tarde, eu tinha participado da coletiva concedida no hotel em que ele estava hospedado. Não fiz perguntas, me contentei com as dos colegas. Acompanhava as respostas atenciosas do entrevistado, fazendo algumas anotações (coletiva + conferência = 15 páginas, preparem-se). Era uma saleta apertada e quente, e a entrevista foi longa. Wenders foi solícito e muito bem humorado (na medida, é claro, que um alemão pode ser muito bem humorado).

“Viajar se tornou minha profissão.”

E revelou que seus últimos 21 filmes foram instigados pelo interesse em descobrir lugares. A sensação de estar num lugar é a base de seu cinema. Antes de qualquer processo intelectual, é este “sense of place” que guia seu trabalho.

“Não tenho interesse por histórias que possam ser contadas em qualquer lugar.”

Na adolescência, os filmes foram “as primeiras mensagens de um território desconhecido”. A América dos westerns de John Ford e Nicholas Ray. A América do documentário de Fernando Solanas, que viu, matando aula aos 16 anos, em Oberhausen. Ou Terra em Transe, que pôs o Brasil em seu “mapa mental”. Também lembrou dos recortes de Brasília, colecionados pelo jovem que sonhava ser arquiteto. O Brasil, para ele, era esse lugar inventado por Niemeyer no meio da selva. Um país irreal.

“Eu não estava tão errado.”

Brincou e eu tive que concordar: Brasil, não dá pra acreditar.

Para Wenders, a sensação de estar num lugar está ligada a duas forças criativas: o pertencimento e o descobrimento. Há os cineastas do primeiro tipo, como Fellini, que jamais saem de sua terra de origem. E há os viajantes, como ele, que acreditam que os lugares têm suas próprias histórias pra contar. Ainda que suportem inúmeras metáforas, lugares são reais, a memória está gravada neles, em suas pedras, e a câmera capta o que acontece em sua superfície. Eles são o principal protagonista da obra wenderiana.

“Os lugares não podem nos esquecer.”

Falou abertamente de seu processo criativo. De como surgiram muitos de seus filmes, do equivocado A Letra Escarlate ao cultuado Asas do desejo. O motor criativo de todos eles é o senso geográfico que obceca o viajante.

Wenders tem pavor de turistas. Por mais que viajem, carregam sempre sua origem consigo. Em todos esses anos, o cineasta-nômade aprendeu a respeitar e aceitar as fronteiras. Vistas geralmente sob uma ótica negativa, encerram cercas, guerras e a limitação da liberdade. Mas elas também nos ajudam a preservar nossa identidade, atributo da maior importância para o artista. Identidade que tem a ver com escolhas, opções e limites.

“Só as fronteiras podem manter nossa identidade.”

Identidade que está ligada diretamente à experiência e ao conhecimento.

“Apenas as histórias pessoais interessam.”

A platéia parecia enfeitiçada pela fala de Wim Wenders. Ao meu lado, um casal suspirava em êxtase, grudado nos fones de tradução. Desisti das anotações e fiquei apenas ouvindo e olhando o homem. Pela primeira vez em todo o ciclo de conferências meu olhar era compelido diretamente para o orador no centro do palco e não para os telões nas laterais. Por trás dos pequenos óculos de fundo de garrafa, Wenders encarava a audiência com serenidade. Tinha nas mãos um pequeno pedaço de papel que manuseava entre os dedos, único sinal de que alguma coisa pudesse perturbar sua calma germânica.
(continua)

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13.8.08

FRONTEIRAS FOR DUMMIES: DAVID LYNCH

A intelligentsia local estava toda lá. A cidade varrida num alvoroço desde que a organização do evento anunciara a inclusão do artista que muitos chamam de o maior cineasta da atualidade. Uma compensação pelo calote do Christo e da Jeanne-Claude, o adiamento do Daniel Libeskind e os cancelamentos do porvir, que virão, creiam-me. Calhou estar no Brasil, divulgando seu livro de meditação transcendental (!?), o homem é de fato cheio de mistérios. Acertados os detalhes (trouxe consigo uma equipe que roda um documentário sobre a turnê de divulgação do livro), e a notícia bombástica agitou a carroça:

DAVID LYNCH EM PORTO ALEGRE!

Na semana que antecedeu a conferência três pessoas me perguntaram se eu não conseguia liberá-las no evento.

Cês tão pensando que o Fronteiras é a Pulp, pô?

Eu não via um agito desses na cidade desde a passagem do João Gilberto. Encontrei muita gente da minha geração na frente do auditório. Gente criada à Twin Peaks, a maioria sem ingresso. Uma atriz conhecida me disse que tinha falado ao telefone com o grande cineasta, mesmo sem saber inglês. Ligou pro hotel, na maior cara-dura, queria entregar um portifólio. Vai que. Com a mesma (cara-dura), me perguntou:

Não me bota pra dentro?

Nisso o Marquinhos Mello chamou num canto, estava eufórico. No dia anterior tinha escrito um artigo pra Zero Hora que rendeu um convite pra almoço com o diretor, não por acaso, idolatrado pelo Marquinhos.

Almocei com ele. Disse, com um sorrisão estampado no rosto.

E eu pensei: se medita deve ser vegetariano.

O quê ele comeu?

Um pouco de salada.

Rá!

Lynch’s lunch, dava um poema surrealista. Depois o Marquinhos contou que ganhou do mestre um desenho rabiscado durante a entrevista coletiva: uma linda mandala... Meditação transcendental, salada, mandala, isso não estava me soando bem. Não bastasse ainda tinha o pocket-show do Donovan Leitch, que só fui dar conta de que era o Donovan quando um dos amigos-que-perguntaram-se-eu-não-conseguia-liberação se referiu a ele como o chato do Donovan. O Estranho Mundo de David Lynch. Por trás daqueles filmes sombrios e sórdidos, cheios de violência e perversão, havia um homem que meditava, comia salada, desenhava mandalas e era amigo do Donovan, um dos músicos mais chatos dos anos 60. Acontece que Donovan foi parceiro dos Beatles na viagem à Índia, quando os Fab Four se tornaram discípulos do guru Maharishi Yogi, pai da meditação transcendental que David Lynch exalta em seu “Em águas profundas: criatividade e meditação”. E não custa lembrar que o episódio Beatles versus Maharishi rendeu, pelo menos, mais uma linda e rancorosa letra de John Lennon:

Sexy Sadie what have you done
You made a fool of everyone

O que aconteceu no Salão de Atos da UFRGS, na noite da histórica visita de David Lynch a Porto Alegre (no futuro algum nerdzinho vai fazer um documentário sobre isso, me disse o Marquinhos), foi uma grande jogada de divulgação.

Excepcionalmente a apresentação se daria no formato entrevista, explicou o diretor de televisão Gilberto Perin, que conduziu (pessimamente, ele mesmo confirmaria se assistisse ao vt) a própria, pautada em perguntas da maior relevância, tais quais:

Qual a importância do mantra na meditação transcendental?

Confortável num folgado terno preto (gravatinha fina amarela, tres elegant) e com uma tranqüilidade que só pode ser alcançada por quem medita, David Lynch defendeu que não há paradoxo algum em fazer filmes perturbadores como Veludo Azul, Estrada Perdida e Cidade dos Sonhos e acreditar que o êxtase é a nossa natureza.

“Você não precisa morrer pra filmar uma cena de morte.”

O poeta é um fingidor. Se ele finge a dor que sente ou não, aí já é outra coisa. Diferente de um Tim Burton, com sua franjona preta dark, David Lynch tem um sensacional topete cinza-prata, radiante. Ele é feliz, em oposição ao estereótipo do artista perturbado e deprimido.

“Acredito que Van Gogh e Artaud eram felizes quando criavam.”

Em meio à extensa pauta de divulgação do livro e aos elogios constantes às benesses da meditação transcendental, houve raros momentos em que Lynch revelou um pouco de seu método criativo e de suas escolhas estéticas. Contribui o interessado auditório que enviava as perguntas (vi um garoto sentado na escada preenchendo três cartões com elas).

“Eu amo as idéias. O sentido aparece se você focar nelas.”

“A intuição é a solução pros problemas, ela não é intelectual ou emocional, é ambas.”

Segundo Lynch, é através da intuição que capturamos as idéias que podem, ou não, render frutos. Como saber?

Meditando, claro!

Falou de cinema e pintura (houve inclusive uma pergunta constrangedora sobre expressionismo abstrato, feita claramente pra impressionar. Lynch respondeu de maneira polida: yes, I like Jackson Pollock, but… e já emendou em algum aspecto transformador da meditação transcendental).

“O cinema é a mais bela das linguagens: imagens e sons fluindo no tempo.”

“Há alguma coisa da pintura que se aplica no cinema. Mas há mais coisas do cinema que se aplicam na pintura.”

Lynch lamentou o fim iminente das salas de cinema, que proporcionam a verdadeira experiência cinematográfica de imagem e som.

“Teremos enormes home theaters no futuro.”

Adepto das novas tecnologias, lembrou que também há tristeza e solidão na internet. Contou que se apaixonou por uma pequena câmera digital e que tem apreciado as texturas que ela imprime, com seus pontos de escuridão onde o olho se perde em mistérios, sonhando.

“Às vezes a má qualidade é muito, muito bela.”

Falou da importância da luz que irradia na Costa Oeste dos Estados Unidos. Segundo Lynch, a indústria do cinema se fixou em Hollywood por causa dessa luz natural que permite filmagens externas. Ainda sobre a Grande Indústria dos Sonhos, revelou que não sente desconforto trabalhando nela, dentro de sua engrenagem capitalista.

“Adoro o dinheiro, mas não é a razão pela qual faço filmes.”

Alguns cinéfilos enviaram perguntas bastante específicas sobre a obra lynchiana. O cineasta falou de como surgiu a personagem Log Lady, de Twin Peaks, figura que remonta a seu primeiro longa Eraserhead, de 1977. Também contou que Cidade dos Sonhos foi pensado originalmente como seriado de tevê. Graças a um produtor que assistiu ao copião entre goles de café e chamadas telefônicas, o piloto não foi aprovado. As idéias ficaram abertas por um tempo até que, póin!, numa sessão de meditação lhe foi revelado o que fazer com as imagens captadas. Lynch também contou que detesta testes de elenco por achá-los muito humilhantes (só não entendi se pro ator ou pra ele). Escolhe seus elencos a partir de rostos que combinem com os dos personagens do roteiro.

Mais um pouquinho de meditação transcendental, uma referência à física quântica (a ciência preferida de quem medita, come salada e desenha mandala) e a conferência foi chegando ao fim. David Lynch ainda contou que, no momento, não trabalha em projetos cinematográficos, tem somente se dedicado à pintura que, segundo ele, nunca morrerá. Deixou o palco sob aplausos. Da terceira fila, um grupo de tietes mandava beijos.

Depois apareceu um sujeito que trabalha na fundação mantida por David Lynch (e que leva seu nome), cujo objetivo é, rá!, divulgar as práticas da meditação transcendental. Temi que fosse conduzir uma meditação coletiva, mas o que fez foi anunciar a próxima atração, o músico oficial da meditação transcendental: o grande Donovan! Antes do trovador entrar em cena, foi exibido um vídeo que mostrava-o ao lado de gente como os Beatles e Bob Dylan (inclusive com a antológica cena do documentário Don’t look back, em que o cáustico Dylan olha pra foto de Donovan num jornal e diz: I hate him). Usando uma camisa do tipo oriental, de largos punhos, cantou um par de canções ao violão. Imediatamente um cheiro de mofo tomou conta do ar. Fuji quando o apresentador voltou e sugeriu perguntas ao cantor. Queria saber como foi a experiência indiana com os Beatles. Chega, eu não agüentava mais todo aquele proselitismo, não podia nem ouvir a expressão meditação transcendental.

Na saída, uma fila já se formava, aguardando o cineasta, que autografaria seu livro. As tietes estavam lá, ansiosas, todas com seus livrinhos na mão. Será que virariam seguidoras do Maharishi? Mais tarde, soube que David Lynch retornou ao palco pra ensinar um mantra aos presentes, pacote completo. Sorte que escapei na hora certa. Espero que o Wim Wenders não seja adepto de nenhuma doutrina esotérica.

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5.8.08

FRONTEIRAS FOR DUMMIES: JURANDIR FREIRE COSTA E CONTARDO CALLIGARIS

Um pouco antes de alcançar o saguão da Reitoria, recebi um panfleto de duas meninas posicionadas estrategicamente no portão de acesso. Um postal com fundo azul vibrante e formas coloridas em primeiro plano, bem parecido com um flyer de festa rave (não o tenho em mãos pra conferir, mas creio que em algum ponto daquela barafunda de formas e cores havia inclusive um arco-íris). Divulgava um curso de pós-graduação de piscanálise junguiana: “a Pós dos seus sonhos”. Travestida de flyer de festinha, a isca tinha como alvo os profissionais da psicanálise e psicodiletantes que compareceriam ao sétimo encontro da série Fronteiras do Pensamento. Ouvi dizer que a maioria dos inscritos nas conferências é de médicos. Junte o notório apreço pela psicanálise nutrido por estas plagas e mais dois psicanalistas como conferencistas e você tem um ótimo ponto de divulgação do pós dos sonhos em psicanálise junguiana. Só falta um flyer melhor.

A noite abriu com a fala de Jurandir Freire Costa, aparentemente um psicanalista acima de qualquer suspeita: membro do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, professor, autor de livros com temas tão diversos quanto cultura, violência e homoerotismo. Trajando terno e gravata, manuseando papéis que deixou cair e apanhou sem parar de falar, tirando e botando os óculos (não contei, mas deve ter beirado uma centena de vezes), Jurandir Freire Costa destruiu a imagem do psicanalista cool, de fala macia e gestos serenos e sedutores. Com tiques um tanto nervosos e um discurso truncado, JFC era definitivamente uncool. O tema que escolheu também não foi dos mais sedutores: A transcendência ética na modernidade e na contemporaneidade: de Graham Greene a Philip K. Dick. Um assunto restrito demais para aqueles que – como eu – freqüentavam o Fronteiras do Pensamento buscando questionamentos mais profundos. Tais quais o sentido da vida, por exemplo.

Curiosa a escolha de dois autores do segundo escalão da literatura universal (o primeiro, notório por seus romances de espionagem, o segundo, pelas histórias de ficção-científica, ambos muito adaptados pro cinema), mas pra Jurandir Freire Costa, aí é que estava o charme de toda a coisa. Conforme o professor, através de uma literatura dita de entretenimento, os autores metaforizam o dilema ético da modernidade. Nas tramas de espiões e andróides existem questionamentos profundos, sobre política, amor, a origem do mal e a existência de Deus. Também mostram visões distintas acerca da ética.

Em Greene a ética é transcendente. Os heróis são marginais desenraizados que acreditam no bem, mas tropeçam e erram. Porque o mal está sempre escondido na realidade, oculto e obsceno, manifesto em guerras e na brutalidade do Estado. Nem o amor pode ser considerado o bem porque amar não significa estar livre de causar sofrimento. Para o escritor inglês, é em Deus que se deve buscar o ponto definidor entre o bem e o mal. Um Deus que está antes, além e acima do homem.

Já na ética imanente de Philip K. Dick, Deus é plural, fragmentado em atos e objetos cotidianos que precisam da mediação do homem pra se manifestar. A vida é um eterno presente e o futuro nada mais é que as intenções de nossas ações. Para os replicantes, precogs e viciados de Dick não há diferença entre a realidade e o sonho. A lógica, marca da subjetividade consciente, é insana. O mal está na racionalidade.

Tirando e colocado os óculos mais umas doze vezes, Jurandir Freire Costa ressaltou que o dilema ético moderno tem uma herança greco-judaico-cristã. Daí fez pequenas citações em latim e uma única piada, da qual também riu, meio sem graça. Pudera, não era lá essas coisas. Sobre 1964, ano de publicação de um texto de Philip K. Dick do qual leria um trecho

“O mesmo ano em que os andróides tomaram o poder no Brasil.”

Hm. Depois da piada inócua, a citação foi o melhor fechamento pra conferência que certamente não ficaria entre as Cinco Mais. Contribuição miserável pra minha coleção de frases de efeito. Somente uma, lá no finzinho, na citação de Philip K. Dick, uma crítica à identidade coletiva tão exaltada nestes dias de fundamentalismos.

“As raças não nos definem.”
*
Sentando confortavelmente numa poltrona instalada no palco, o palestrante seguinte ouvia com atenção a fala do colega. Italiano que morou na Inglaterra e nos Estados Unidos e escolheu o Brasil pra viver, o psicanalista Contardo Galligaris é escritor e colunista de um dos jornais mais importantes do país (a Folha). Eu já tinha tido a oportunidade de entrevistá-lo e fiquei fascinado com a inteligência e o carisma de italiano buona gente com nome emprestado de personagem de filme expressionista. O sujeito é a encarnação do psicanalista cool, fala macia e gestos serenos e sedutores, autoconfiança plena dos que sabem foder. Foi uma entrevista deliciosa em que falou de seu primeiro romance, lançado recentemente, “O Conto do Amor”, uma narrativa íntima do tipo acertos de contas com o passado, construída a partir de cartas deixadas pelo pai. Perguntei sobre o que falaria no Fronteiras do Pensamento, estávamos em meados de maio. Respondeu que ainda não sabia.

À vontade diante do auditório cheio, Contardo Calligaris explicou que tinha amadurecido o tema da conferência nas inúmeras entrevistas que concedera durante a divulgação do livro, a partir da constante pergunta: por que fazer ficção? Da reflexão sobre a razão de narrar veio, enfim, o tema: A ficção como linha de conduta para inventar a vida.

As razões de narrar de Calligaris remontam a devaneios da infância. Reminiscências de marcianos que o levavam a se sentir também um alienígena, toda vez que o raio verde entrava pela janela do quarto prestes a abduzi-lo. Não sou daqui, era o sentimento do pequeno Contardo, sentimento que só iria aumentar nos anos seguintes com a escolha da vida de imigrante (confessou que viveu de bicos in London, por vários meses, tudo por causa de uma mulher, tô dizendo, o cara é do métier). Estrangeiro aqui como em toda parte, lembrei. Um sentimento que, para ele, define a subjetividade moderna.

“Não é o local de origem que nos define.”

Deve ser o quanto a gente ganha, pensei. Pro regozijo dos profissionais da área da saúde, Calligaris usou uma expressão da medicina pra classificar nossa condição de despertencimento: ectopia (no Houaiss: "posição anômala de órgão"). Por não importar de onde viemos, e por não sabermos para onde vamos, inventamos nossa origem e nosso destino criando histórias.

“Nossa ectopia nos conduz à ficção.”

E então o Dr. Calligaris (não pude evitar), lembrou que é narrando que fazemos a passagem do acontecimento à experiência.

“A narrativa é a condição de transformação dos acontecimentos em experiência.”

Isso ele sabe muito bem, afinal lá em seu gabinete (de novo) está acostumado a escutar (com a paciência de quem vai levar algum no final) as narrativas dos pacientes/clientes, ajudando a processar tudo aquilo em experiências que os ajudem a viver melhor. No emaranhado de narrativas que é a vida, os acontecimentos nada significam se não soubermos enxergar os dilemas morais que eles trazem. Evocou Kant pra defender o que chamou de identidade narrativa: para bem viver, é preciso bem contar. Ou seja: a ética é equivalente à estética.

“A vida é uma aventura que deve valer a pena ser contada e vivida.”

Concluiu. Um tanto clichê, vamos admitir. Minha coleção de frases de efeito andava meio desvalorizada. A argumentação do charmoso Dr. Calligaris não possuía o rigor teórico das colocações de seu colega de conferência com todo seu minucioso (e nervoso) estudo da ética moderna através da literatura de polpa. No entanto, o tom confessional, envolto no charme de estrangeiro bom de cama, e a paixão confessa pelas aventuras que a vida proporciona deixaram melhor impressão no auditório.

O que nos leva a uma importante conclusão em mais uma etapa dessa longa jornada rumo às fronteiras do pensamento: o importante é ter estilo.

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8.7.08

FRONTEIRAS FOR DUMMIES: BEATRIZ SARLO E AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA

Tanto tempo sem escrever que temia ter perdido o traquejo. O blog sobrevivendo miseravelmente à base de flyers e releases de divulgação. Contribuiu pro, digamos, recesso ter perdido a conferência da última semana com Ayaan Hirsi Ali, cerejinha no grande bolão do Fronteiras (cachê de 80 mil dólares, dizem). Orbitando na blogosfera leio que a escritora e política somaliana, que sofreu com o regime misógino do fundamentalismo islâmico e foi ameaçada de morte por sua postura crítica em relação a ele, sentou o pau na idéia de multiculturalismo. Provocador, no mínimo. A frustração de perder uma fala tão interessante deixou seqüelas numa preguiça monumental de articular qualquer frase inteligível (a sorte foi uma foto posando de sleeveface, tirada na casa de um amigo, que deixou este Foguete com um arzinho mais up to date). Mas é chegado o momento de enfrentar o monstro.

Não sem antes relatar as devidas conspirações do universo (contra e a favor):
A primeira foi quando, durante o check in no setor de imprensa, dou conta de que esqueci minha credencial – bem como a mochila na qual ela estava dentro – no carro da colega de trabalho que me dera uma carona. Credencial, mochila, além da carteira e das chaves de casa. Ou seja: uma bela duma cagada.

Infortúnio consumado e eu pensei:

Que se foda.

E decidi assistir às palestras, a mochila e minha vida dentro dela que esperassem. Mesmo sem a credencial, entrei sem problemas, nada como ter bons contatos. O problema veio quando a escritora e crítica literária argentina Beatriz Sarlo, começou sua fala A literatura e a arte na cultura da imagem. Citou o ano de 1929 e eu já sabia que falaria do rádio como a invenção tecnológica que permitiu comunicação simultânea e à distância entre os homens. Como bem observou um amigo na saída do auditório, a professora não disse nada que a gente não tivesse dado conta sozinho, ou discutido com alguém em mesa de bar, sala de aula ou outro local de aprendizado. Falou da cultura das celebridades que se globaliza pelo mundo nas mais diversas nacionalidades, de Bollywood ao Projac. Mencionou, é claro, o Grand Hermano, o programa de tevê fetiche entre acadêmicos das mais diversas áreas do conhecimento, hit número um em teses de mestrado, doutorado, monografias, ante-projetos e afins.

Nesse ponto eu só pensava na mochila e no enorme trabalho que daria recuperá-la. Não conseguia mais prestar atenção na fala óbvia da senhora Beatriz porque ficava o tempo todo lembrando o quão retardado eu tinha sido a ponto de tê-la esquecido no carro de uma colega de trabalho de quem nem tinha o telefone. Foi quando meu bom contato no Fronteiras chegou carregando a segunda conspiração do universo, na forma da mochila que minha gentilíssima colega de trabalho tinha acabado de deixar na recepção.

Meu humor melhorou apesar da palestra ter seguido naquela linha insípida tipicamente acadêmica. A coisa foi temperada (uma pitadinha, no máximo) quando a professora citou a elite social e cultural (não necessariamente econômica) e sua predileção por manifestações artísticas consagradas, em detrimento à produção das vanguardas que romperam a unanimidade entre público e crítica. Beatriz Sarlo ainda destacou o caráter pré-falkneriano da literatura latino-americana que teve seu boom na metade do século XX. Uma literatura aos moldes da praticada no século anterior ao de sua criação, que "arruma o mundo e tranqüiliza o desenlace". No caderno que extraí da mochila anotei: "esperança estética". A professora afirmou que a crise da cultura é a crise da escola e em seguida se mostrou otimista com o futuro da literatura e do mundo dizendo que "esperar pela próxima leitura [que revolucione o campo da criação literária] é como esperar a forte intervenção política que libertará os povos e públicos". Grifei a palavra esperar, repetida duas vezes, e pensei que a senhora Beatriz era uma mulher paciente demais, observando o mundo desde sua cátedra.

Eu sabia que o Affonso Romano de Sant’Anna pertencia a tal da elite social e cultural que a senhora Beatriz citara momentos antes. Imaginava-o crítico em relação a certas manifestações da arte contemporânea, mas não supunha que pregaria um retrocesso tão grande, a um tempo anterior à "abertura da caixa de Pandora da não-arte do dadaísmo" (admito: reacionário, mas ótimo frasista).

Em roupas negras, com lustrosos sapatos de salto, o poeta e professor sugeriu que as pessoas no auditório fizessem exercícios de alongamento, "como nas fábricas chinesas", pra se preparar pro que ele tinha a dizer. O pronunciamento, com o título triplo de Alguma coisa não vai bem/Na proa do Titanic/Em busca de uma outra episteme, havia sido extraído de seu próximo livro "O enigma do vazio" e buscaria problematizar a cultura do nosso tempo.

Para Sant’Anna, as proposições que anunciaram a morte de Deus, da arte e o fim da História criaram uma série de "objetos desagradáveis" e de "pretensiosas trivialidades". Segundo ele, há uma exaustão do paradigma que dominou o século XX, os sintomas dessa canseira verificados na falência de um modelo estético fascinado pelo erro e pela desordem, centrado na neurose, no vício e na ideologia.

Exibindo um conhecimento enciclopédico, Sant’Anna listou dezenas de filósofos - tanto pensadores críticos ao novo modelo paradigmático quanto àqueles que o enxergam de forma positiva. A negação do paradigma clássico é o novo paradigma, que passa por questões puramente pessoais. O século XX trouxe a derrocada da grande teoria da arte, que perdurara 2400 anos, desde a Grécia Antiga. A física quântica, a filosofia de Nietzsche, o marxismo, a psicanálise e o dadaísmo foram as armas que ajudaram a derrubar o velho paradigma de beleza.

"Graças ao relativismo da física quântica, vivemos o domínio da incerteza."

"O pensamento de Nietzsche, o filósofo quântico, está na base dos sofistas que dizem não haver verdade."

"O marxismo e a psicanálise já sofreram suas revisões, agora é a vez da arte moderna ser revista."

"Desde o dadaísmo, arte é o que qualquer um diz ser arte. Trata-se de ver significado em qualquer insignificância."

Desprezou o que chamou de "certeza da incerteza" e defendeu que ordem e conseqüência estão na base da vida.

"Na desordem existe também uma cota de incompetência."

Usando gestos largos e expressões bombásticas, Affonso Romano de Sant’Anna parecia um ator, algo entre Raul Cortez e Bela Lugosi. Chamou Duchamp de grande mentiroso e zombou de Beckett:

"Depois do fim do jogo, há de se recomeçar o jogo."

Definiu a produção intelectual e artística de hoje como a "poética da dispersão", "a teorizar jubilosamente" a morte da arte, do romance, de Deus e do homem. Para ele a tanatomania define o século XX, um vasto "cemitério niilista" de culto à desordem, a violência e a destruição.

"O novo paradigma é a reinvenção do jogo", proclamou. E finalizou, retumbante:

"É preciso voltar cem anos!"

Não foi exatamente o fim da conferência, mas a frase ficou ecoando na minha cabeça, de modo que não consegui mais acompanhar o que ele dizia. Propor um novo jogo ao fim do jogo me parecia uma boa tentativa de seguir jogando, mas querer voltar às regras de um passado parnasiano de perfeição era um anacronismo inaceitável. A arte é um produto do homem em seu tempo e, se um determinado paradigma estético é derrubado, não foi por simples birra de um bando de intelectuais suicidas, cínicos e debochados. Quem sabe o paradigma não dava mais conta da realidade que os artistas tentavam representar... As premissas dadaístas que foram dar na arte de nossos dias têm como conseqüência lógica o fim da própria arte, mas e daí? Talvez seja necessário ao homem superá-la. Eu ficava com Duchamp: num mundo marcado pela desigualdade e pela intolerância, prefiro o cinismo da piada à hipocrisia da grande arte como receptáculo de beleza, justiça e verdade.

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10.6.08

FRONTEIRAS FOR DUMMIES: MILTON HATOUM E SERGIO RAMÍREZ

A senhora ao lado disse alguma coisa pra comadre e eu acordei do cochilo. Espero que não tenha babado, pensei enquanto me arrumava na cadeira. Que preguiça. O suco e o chocolate não foram suficientes pra recompor as energias. Talvez precisasse de alguma coisa mais forte pra vencer o acachapante tédio de segunda-feira potencializado pela umidade asquerosa e a tarde morrinha no trabalho. É que supervalorizando meu espanhol de feriado no Uruguai, tinha recusado os fones da tradução simultânea e adentrado o recinto confiante, retirando resquícios de ânimo do fundo do... Ah, deixa pra lá. Mas exigia atenção acompanhar Sérgio Ramírez em sua fala monocórdica. E o sono veio vindo de mansinho.

O escritor participou da Revolução Sandinista que tomou o poder após quase meio século de ditadura (apoiada pelos States, of course) do clã Somoza, dono de meia Nicarágua. Ramírez foi vice de Daniel Ortega, deputado na Assembléia Nacional e candidato à presidência do país em 1996. Sua fala, Cadernos de encargo (oficios compartilhados), dava conta justamente da profissão de dublê de escritor e político.

Lendo um calhamaço de anotações, Ramírez elencou colegas que mesclaram esses ofícios contraditórios, de Daniel Defoe a Normam Mailer (a lista era extensa e dividida por nacionalidade, mas eu só lembro da seção britânica que, além do autor de Robinson Crusoe, incluía John "Paraíso Perdido" Milton e Sir Francis Bacon). Também traçou um paralelo entre a ação política e a criação artística: mudar a realidade é uma forma de imaginar. Falou dos escritores da América Latina, "que carregam paixão pela vida pública". Citou o substrato rural do continente que gerou, na política, o caudilhismo e, na literatura, o realismo mágico. Lembrou os grandes temas da literatura: 1) amor e morte, conforme Garcia Márquez; 2) amor, loucura e morte, segundo o uruguaio Horacio Quiroga, e 3) amor, loucura, morte e poder, conforme ele próprio.

"O poder deteriora os ideais no momento em que se o assume."

Disse, com conhecimento de causa, um pouco antes de eu cochilar. Acordei quando ele falava que ainda tinha fé nas utopias.

"A sociedade perfeita é impossível, mas é preciso ter fé na justiça e na igualdade. Imaginar é uma forma de aproximar-se da utopia."

Aplausos e eu pensando:

Espero que não tenha babado.

Dei uma rápida espreguiçada e fui salvo do sono pela fala envolvente de Milton Hatoum. A sisudez do político nicaragüense foi substituída pela leveza do libanês culto criado à beira de igarapés tropicais. Em tom jocoso, Hatoum começou falando da professora de filosofia que conheceu no vôo que o trouxe de São Paulo (que acabou pousando em Caxias, graças à "cerração") e da conversa sobre os confins do mundo. Confins: limite e essência de um lugar. A passagem entre a vida e a literatura, por exemplo. As tais das fronteiras, resumindo.

O autor amazonense, filho de imigrantes libaneses e tri-campeão no prestigiado Prêmio Jabuti, faz uma literatura cujo combustível principal é a memória. São relatos que misturam reminiscências da infância, fatos biográficos, lendas e fantasia. Daí o mote de sua palestra: Passagens entre a vida e a literatura.

Hatoum lembrou da infância em Manaus no final dos anos 1950, das aulas no Colégio de Aplicação, em Brasília, e dos dias de militância política na Sampa da década de 1970. Citou livros importantes (os contos do velho Machadão encabeçando a lista) que, segundo ele, nos mostram que precisamos sair dos nossos confins, avançar através dos limites, cruzar as fronteiras da imaginação.

"A literatura diz o tempo todo: você tem que sair do seu lugar."

E lá foi Milton Hatoum rodar o mundo. Estudou na Espanha, morou na França, tentou poemas, contos e um romance político que, segundo ele, não era político nem romance.

"Têm coisas que não podem ser aproveitadas, temos que ser brutais."

E jogou tudo no lixo, enquanto percebia que a mediadora entre a literatura e a vida é a experiência. Mas ela só serve à arte depois de filtrada pela linguagem, pois fazer literatura é transcender os fatos, transfigurar o vivido.

Citava sua "viagem ao preciosismo de Euclides da Cunha", em Os Sertões, quando um blackout fez acender as luzes de emergência da Reitoria e deixou as senhoras inquietas por alguns minutos. Na fila de trás alguns expoentes-da-nova-geração-de-autores-gaúchos esperavam ansiosos a volta da palestra.

Quando a luz voltou, Hatoum alertou pro perigo do dogmatismo político da Era Bush e lembrou que religião também é cultura. Sobre o ofício de escrever, citou Céline:

"Ser escritor é passar do plágio à petite musique."

O escritor deve achar sua própria voz e, pra isso, é necessário se distanciar dos seus confins para, então, recriá-los. Daí lembrou quando tentou fazer terapia. A psicanalista o expulsou do divã e o mandou escrever.

"Tanto a literatura quanto a psicanálise são biografias de fantasmas."

Com a modéstia dos laureados, Milton Hatoum afirmou que nunca quis ser um grande escritor.

– COMO ASSIM?

Escrevi no bloco de anotações (em capital letters, como diria o Justice). Estava na cara que aquele sujeito tinha trabalhado a vida inteira pra isso, perseguindo os grandes mestres, tentando capturar a essência de sua arte. Sua literatura era um espelho dessa pretensão, construída à base de memórias da infância e mitologias re-contextualizadas num cenário regional, a petite musique de imersão sensorial em sons, odores e sabores amazônicos, cascas rugosas de árvores na umidade da mata escura etc. A pretensão de "grande escritor" era tão visível que eu não tinha conseguido terminar o primeiro capítulo de seu aclamado segundo romance. Dois irmãos me pareceu um bom esquema preenchido com frases bonitas de sons e odores e sabores amazônicos. A fórmula do sucesso da grande literatura.

Mas pra tanto, há de se labutar. Hatoum trabalha oito horas por dia e um romance pode lhe consumir anos de trabalho.

"O romance é a narrativa do desencanto, da desilusão."

Afirmou, fazendo crer que a utopia pertence muito mais à política que à literatura.

Mas mesmo com tanto desencantamento, não deve haver sofrimento no processo da escrita: escrever deve ser tão prazeroso quanto ler. E mandou um aviso pros aspirantes: leiam, sobretudo. Na despedida, citou Borges:

"Afinal, ler é um ato muito mais civilizado do que escrever."

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27.5.08

FRONTEIRAS FOR DUMMIES: BETO BRANT E JOSÉ PADILHA

Destaques do 3º encontro do Fronteiras do Pensamento:

1) Os All-Stars prata do Roger Lerina, o mediador do evento. Tinha visto um par igualzinho, horas antes, nos pés de um carinha no centro. Lançamento, decerto. E eu não conseguia parar de pensar: será que tem com cano longo?

2) A queridíssima Prê, que eu não via há muito tempo. Quando ficava chato, Prê e eu batíamos um papinho (sussurrando, é claro, somos elegantes) e, lá pelas tantas, ela me soprou a frase que definiu a noite: intuição versus método. A Prê é foda.

O Beto Brant é figurinha fácil por aqui, quase um Fabrício Carpinejar. Nas seis semanas de filmagens do Cão sem dono, eu o via em todos lugares: boteco de esquina da Demétrio, restaurante italiano, festinha no apê do Dudu, antigo Beco. Ainda que não tenha conversado com ele, deu pra sacar a sua personalidade, principalmente através dos relatos dos amigos que trabalharam com ele, mas também por vê-lo trabalhando. Tudo de um jeito muito aberto, intuitivo. Pura emoção.

“Se eu tivesse juízo, não teria vindo.”

Convenhamos, um péssimo início. Beto não parecia confortável e já saiu dizendo que não se sentia habilitado a falar do cinema brasileiro. Iria falar do que o levou a fazer cinema, de si próprio. Não tinha o domínio de palco de Fernando Arrabal ou Gerald Thomas, nem amigos como Picasso ou Beckett, então a coisa saiu meio trôpega. Entre boca seca e goles de água, Beto divagou sobre infância, pai e amigos. Alguns momentos de singeleza, mas achei que demorou a chegar no ponto. Passou trailers, o que eu achei muito chato, sem me dar conta de que talvez seus filmes não tivessem sido vistos por muitas pessoas ali. Pouco falou sobre seu processo criativo porque, creio, não deve pensar muito nele.

Seu interesse é pelas pessoas e por suas histórias de vida, alimento de sua arte. Destacou a amizade e a parceria com Marçal Aquino, com quem trabalhou em cinco filmes. O primeiro, Os matadores, representou o fim de uma visão bucólica do campo, herança dos tempos da faculdade de agronomia, passeios na fazenda etc. Uma espécie de trilogia da violência se completa com Ação entre amigos e O invasor. A ruptura acontece em Crime delicado, um filme intimista e “auto-reflexivo”, que fala de arte. O individual em lugar do coletivo.

Mas daí o tempo já era curtíssimo e o Roger em seus tênis prata foi obrigado a avisar: vai que é curto (o tempo, não o cano do tênis, que, aliás, era). Beto Brant quis encerrar ali mesmo, mas acabou falando uns minutos mais sobre o pintor mexicano Felipe Ehrenberg, que interpreta um pintor em Crime delicado, numa intrincada construção que embaralha as, perdão, fronteiras entre vida e arte. O depoimento de Ehrenberg é parte do filme. Após um terremoto no México, o artista abandonou seu atelier e foi ajudar no salvamento das vítimas, numa forma direta de ação. Depois de presenciar tanta violência, tanta morte, houve uma transformação em sua arte e ele foi buscar no erotismo (a celebração da vida através do sexo) sua inspiração. Algo semelhante tinha se passado com Beto Brant (rimou!) e ele agora voltava suas lentes pra outros lados. Pra dentro, quem sabe. Falou também, e com muito carinho, da experiência de imersão porto-alegrense de o Cão sem dono. Sugeriu que assistissem ao filme. Em versão pirata, que fosse. Afinal, apenas cinco mil pessoas o tinham visto nos cinemas da cidade em que foi rodado.

Em contraponto ao divagante primeiro palestrante, José Padilha era a eficiência, o pragmatismo e a precisão em pessoas, todas sob o mesmo boné. Água e vinho, sendo o Beto obviamente o vinho (José Padilha deve ser abstêmio). Com a bola toda, trazia no currículo o documentário Ônibius 174, considerado um dos melhores do gênero, e sua primeira obra de ficção, o filme-evento de 2007 (muito graças a uma ação de pirataria), Tropa de elite, que conquistou recentemente o Urso de Ouro no Festival de Berlim.

No telão, organogramas e esquemas comparativos resumiam o tema de sua fala. Planilha, quer dizer, Padilha explicou que ia falar de filmes que “representam a realidade” e não de filmes que “não representam a realidade”, categoria que ele exemplificou com obras de ficção científica. A realidade representada pelos filmes sobre os quais iria falar era a violência no Rio de Janeiro e os filmes, além dos seus, Notícias de uma guerra particular e Cidade de deus.

Na equação de Padilha, há quatro grupos sociais envolvidos no cerne da violência gerada por consumo e tráfico de drogas: usuários, traficantes, policiais e a polícia especial. O Estado se relaciona com todos os quatro grupos de formas diferentes, sendo condescendente com usuários e torturando pessoas como Sandro Nascimento, o personagem real de Ônibus 174. Para Padilha, não se trata de uma guerra particular porque não envolve apenas polícia e traficantes, mas cada um de nós. Não é a situação de miséria que provoca a violência, mas a ação nociva do Estado. Padilha prometeu um terceiro filme sobre o tema, que irá representar mais um grupo enredado na teia da violência: a classe política. Com a sutileza de um policial do Bope, antecipou o título da produção: Nunca antes na história desse país.

Ele revelou que constrói seus filmes (o que os diferenciaria de Notícias... e Cidade de deus) a partir de narradores que vivem o drama de dentro, num ponto de vista interno, em perspectiva distorcida da realidade. Prefere dar ao espectador o envolvimento emocional ao distanciamento crítico, e, pelo visto, o faz de forma bastante metódica. Normalmente são anos de pesquisas e entrevistas a fim de construir uma representação da realidade pela dramaturgia, segundo ele, isenta de julgamentos morais. Insistiu muito neste ponto, o de não fazer julgamentos morais. A ponto de me deixar desconfiado.

“Ninguém aqui tem mais autoridade moral e ética do que eu.”

Parecia dizer o Padilha, parafraseando mais uma vez o presidente da nação. E apontou o dedo pros maconheiros, lembrando que é deles a culpa pelas balas perdidas que matam criancinhas na guerra do tráfico.

“Sou favorável à liberação das drogas.”

E mais uma vez eu fiquei desconfiado (apesar de concordar que este seria o único final feliz possível pra Tropa de elite). No fundo, parecia que ele queria mesmo era ver os filhinhos-de-papai-cheiradores-de-pó sendo enrabados na prisão. Achei Tropa um bom filme de ação, mas lembro que o chamaram por aí de fascista.

A palestra foi aberta pra perguntas e eu pensei agora só piora. E a coisa foi num descendente até culminar com a última que, anônima e ingenuamente, indagava se os palestrantes poderiam falar de sua relação (“e do meio artístico”) com as drogas. O vinho, quer dizer, o Beto disse que isso era uma questão de livre arbítrio e cada um deveria fazer o que bem entendesse: é um direito pessoal usar ou não drogas.

“A primeira lei anti-drogas é a bíblia que proibiu a maçã”, brincou.

Padilha se colocou mais uma vez a favor da legalização, mas ressaltou a enorme falha moral que é fumar um baseado no Brasil.

“Um sujeito que fuma maconha plantada em casa é moralmente diferente de alguém que compra no morro.”

Dependendo do que planta, também pode ser mais chapado.

“Quem fuma maconha deve sair às ruas e protestar por seus direitos.”

E usou a expressão “dar a cara pra bater”, o que imediatamente me fez pensar num monte de maconheiro apanhando da polícia. As senhoras já se levantavam das cadeiras, quando Padilha finalizou:

“Ouvi dizer que sálvia também dá onda.”

Risadinhas entre a ala geriátrica e eu cá com meus buttons: e se desse, não proibiam?

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13.5.08

FRONTEIRAS FOR DUMMIES: FERNANDO ARRABAL E GERALD THOMAS

­Segunda noite consecutiva no Auditório da Reitoria.

Digressão exibicionsita: no domingo, show do cantor e guitarrista John Pizzarelli, que, acompanhado de um combo estilo West Coast, fez uma apresentação honestíssima na primeira parte, revisitando alguns dos maiores standards do gênero: “All of me”, “It’s only a paper moon”, “They can’t take that alway from me”, “I got rhythm”. Em seguida, uma homenagem a Frank Sinatra com três clássicos do repertório do bom&velho Old Blue Eyes: “Witchcraft”, “How about you” e “In the wee small hours of the morning”. Uma pena que na segunda metade a coisa descambou pra releituras insossas de Beatles e uma seqüência interminável de melosos hits da bossa nova, bem ao gosto da platéia que cantou a “Garota de Ipanema”. Direitinho, tenho que confessar.

Segunda palestra do seminário, já que o, perdão, prometido Christo e sua parceira Jeanne-Claude foram excluídos da programação (descumprimento de obrigações contratuais, segundo os organizadores).

O auditório não estava cheio como na noite inaugural. Achei uma cadeira na lateral, perto do palco. Na fileira da frente, um carinha com uns oclinhos de publicitário devorava um pacote de Cheetos, e eu jurando que isso só acontecia em coletivos da região metropolitana. Ao meu lado duas lésbicas conversavam com a arrogância dos que se julgam mais inteligentes do que os outros. Um delas era colega de profissão e segurava uma câmera de vídeo no colo. Num gesto de simpatia, ofereci chicletes. A outra me olhou com hostilidade e fulminou:

Conhece?

Não, a jornalista respondeu.

Por que, vocês não aceitam balas de estranhos?

A outra riu com sarcasmo:

Temos medo de sermos estupradas.

Olhei pra cara feia e respondi em segredo que com isso ela não se preocupasse.

No telão passava um documentário sobre o primeiro palestrante da noite. Depoimentos de intelectuais e artistas europeus eram intercalados com cenas de filmes, umas cenas escatológicas, cheias daquelas referências católicas típicas dos espanhóis (um elenco de punks encenando o milagre da multiplicação com hambúrgueres no lugar de pães, por exemplo).

Fernando Arrabal, poeta, dramaturgo, cineasta e ficcionista, deveria falar do “Surrealismo à Patafísica: onde está a vanguarda da arte”. Oba, pensei. Uma oportunidade de saber um pouco mais sobre essa escola filosófica inventada por Alfred Jarry, a ciência das soluções imaginárias. Mas como bom surrealista, Arrabal sequer mencionou a Patafísica.

Acompanhado de um cocodrilo (o espanhol é a língua mais divertida que existe) empalhado, que acariciava e beijava de tempos em tempos, o velho provocador contou histórias de sua vida, lembrou dos amigos (Brecht, Breton, Picasso, Dali, Duchamp, Ionesco) e reafirmou as obsessões que caracterizaram sua obra (sexo e a estupidez humana, entre outras).

O encenador de si mesmo, foi como se definiu. Vestia um traje chinês com um par de dragões (cocodrilos, segundo ele) e um espiral jarryano bordados na camisa negra de largos punhos dourados. Caminhava de um lado pro outro e parecia se divertir bastante. Lembrou que aquela era a segunda vez na cidade. A primeira tinha sido há dez anos, quando foi patrono da mesma Feira do Livro que homenageou Paulo Coelho.

“Não tive culpa”, brincou. E despejou outras máximas deliciosas na platéia:

“A inteligência é a arte de servir à memória.”

“Se eu fosse Gary Cooper iria dançar pela noite em vez de escrever.”

“Imaginação é a arte de combinar as recordações.”

“Um comunista só crê nos Estados Unidos.”

“Ou inteligente, ou gênio.”

“A próstata é misteriosa.”

“Picasso era um pesado insuportável.”

Em concordância semântica com o nome do famoso pintor, Arrabal afirmou que Picasso era bem-dotado e sofria de priapismo. Ficava de pau duro ao simples sol da manhã. Até que a misteriosa próstata tirou sua virilidade, enquanto a esposa, a jovem e bela Jaqueline, amava verdadeiramente o pintor. Porque “o amor engendra a castração”.

Uau!, gritei mentalmente.

“Un cocodrilo habita my vida”, disse o pequeno grande homem apontando pros dragões no peito. Abriu a camisa, revelando uma reprodução da “Aula de anatomia do Dr. Tulp” estampada na camiseta. A enigmática tela pintada por Rembrandt em 1632. Ou 1932, segundo Arrabal, o ano de seu nascimento.

Até que uma das atendentes gostosas o interrompeu com um papelzinho, claramente indicando que seu tempo de fala havia terminado. Quando o apresentador (um jornalista do Jornal do Comércio, não lembro o nome) agradeceu a presença do palestrante, alguém berrou:

“Deixa ele terminar, porra.”

Ou quase isso. E quando foram perguntar se Fernando Arrabal podia terminar, soube-se que “aparentemente” aquela era a palestra do senhor Arrabal.

Se alguém ficou surpreso, imagino a reação após a palestra seguinte. Indignação, eu chutaria, aquele velho sentimento sovina de quero meu dinheiro de volta. A colega de profissão ao lado (que estranhamente só gravara um rápido take da palestra de Arrabal) já tinha me dito sobre o clima de hostilidade entre os dois palestrantes. “Aparentemente”, Fernando Arrabal e Gerald Thomas haviam discutido no jantar da noite anterior sobre quem era mais amigo de Samuel Beckett. A situação se agravara na entrevista coletiva quando perguntaram a Arrabal o que ele achava de Gerald Thomas.

“Thomas quem?”, teria respondido o dramaturgo espanhol.

Quem ri por último ri melhor, deve ter pensado Thomas Quem. E veio com tudo. Literalmente. Parecia recém chegado da rodoviária. Ou aeroporto, como talvez fosse mais apropriado pra um sujeito que mora em Nova York. Casacão, cachecol e uma enorme mochila, “aparentemente” cheia.

“Não trouxe o jacaré, é que eu superei a fase do teatro do ridículo, quer dizer, absurdo.”

Daí pôs a mochila no chão, foi tirando aquele monte de roupa e deixou o microfone cair, fazendo um barulhão. Encenador de si mesmo. Lembrei da frase de Arrabal e pouco me surpreendi com a representação do papel de polêmico que Gerald Thomas construiu pra si em 25 anos de carreira. Cidadão brasileiro e norte-americano, com uma educação privilegiada e uma biografia conturbada (li no Wikipédia que teria se envolvido em prostituição em Nova York. Na enciclopédia livre também li uma frase constante no site oficial do Fronteiras do Pensamento, ipsis litteris, como se diz naquela velha língua morta: “Trabalhando regularmente em no mínimo oito países, Gerald é visto pela opinião pública como um diretor polêmico pela maneira autêntica como expressa sua independência artística através do teatro”), encenou dezenas de peças marcadas pelo experimentalismo.

Caminhava de pra lá e pra cá de um jeito meio autista, ficando muitas vezes de costas pro público. Do alto de sua enorme boçalidade, ordenou que pusessem no telão a sua foto com Samuel Beckett. Depois passou uma espécie de clipagem muito cafona de suas montagens teatrais, enquanto proclamava:

“Não tenho me interessado muito por meu trabalho.”

Sugeriu que se falasse de outros assuntos: o último estupro no Louvre, o novo corpo no Tâmisa, o tráfico de cocaína no Rio. Declarou-se cansado de pessoas se exibindo em tom teatral. Dupla canseira, já que aquilo era exatamente o que fazia, tirando o notebook da mochila pra zombar da era da comunicação virtual, “aparentemente” um ato casual, em meio ao profundo tédio de ali estar.

“Vim aqui conhecer o anexo do teatro da minha amiga Eva Sopher”, confessou.

Recebeu alguns aplausos quando se manifestou contra o estado de Israel, que visitou uma vez por conta da revista Caras, já que nunca pagaria pra ir lá. Disse que devemos brincar com a tragédia da vida. Evocou Franco (em direta provocação a Arrabal) e Hitler e zombou da “gente do Bonfim” que abandonava o auditório. Enfadado, abriu pra perguntas e logo alguém gritou:

“Fala sobre o Barack Obama.”

Mexeu na longa cabeleira tipo Milli e Vanilli e disse que aquela era a luta pela qual poderia se engajar: colocar um homem negro na Casa Branca. Alguns aplausos foram ouvidos, mas o clima geral era de hostilidade. Tatibitate, um idiota leu uma pergunta constrangedora sobre o “papel das artes”, o que deu munição pro polêmico profissional tripudiar sobre interlocutor. Bem feito, pensei. Decretou a insignificância dos intelectuais num mundo de fome e miséria:
"A gente não existe. Vivemos numa bolha."
Terminou dizendo que não vivia de palestras e achava todo aquele circo uma enorme ação de marketing.

“O resto é hipocrisia”, disse encerrando prematuramente a palestra. E saiu sob vaias.

Na rua notei duas senhoras em exagerados casacos de pele comentando que tinham gostado muito do primeiro, mas que o segundo...

“Imagina o quanto ele ganhou pra fazer isso.”

Dei o braço a torcer pro escroto do Gerald Thomas: essa gente merece que lhe tirem o dinheiro.

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15.4.08

FRONTEIRAS FOR DUMMIES: EDGAR MORIN

Cheguei esbaforido no Salão de Atos da UFRGS, em fuga após o trabalho, despenteado, suado, mochila, casaco, sacola. Dando pistas de que não vinha de casa, sem banho nem perfume. Muita gente perfumada no auditório (lotado). Impressionou também a quantidade de gostosas. Foi-se o tempo que, pra posar de inteligente, mulher tinha que ser feia. As lindas também pensam. Era o que parecia dizer a peituda espremida num decote catedrático que entrou fatal no salão, pretinho básico dos pés à cabeça (ou ao menos até o decote), enquanto eu me arrumava na cadeira, constrangido, cheio de acessórios inapropriados pra quem vai fazer um curso de altos estudos culturais, tipo tênis novo na sacola.

Naquela de sair cedo de casa, tendo de emendar um compromisso no outro, tarefas várias de segunda-feira, cabeça a mil logo pela manhã, fui incapaz de colocar na mochila qualquer coisa com a qual eu pudesse fazer uma anotaçãozinha sequer. Restariam as mentais. Meu cérebro e eu, pensei.

O evento começou com a condução de Ruy Carlos Ostermann. Depois os discursos das autoridades presentes e o prefeito ainda teve a presença de espírito de declarar que político não deveria ser convidado a falar em eventos como aquele. Foi aplaudido. Representando a governadora, o chefe da casa civil não teve a mesma sorte e a platéia emitiu um grunhido de consternação ao ouvir seu nome ser chamado logo em seguida.

Então o ilustre palestrante foi convocado. De um assento na platéia, caminhou lentamente pro palco acompanhado de uma das atendentes (gostosas, by the way). Um senhor pequenino com pouquíssimos cabelos brancos ao lado da cabeça. Um dos grandes pensadores franceses da segunda metade do século XX, de um tempo em que a França dava ao mundo cabeções ilustres. Mas ao contrário de outros de seus conterrâneos/contemporâneos com envergadura craniana semelhante, Edgar Morin está bem vivo. O intelectual de 86 anos, doutor honoris causa por nada menos que 17 universidades, foi o primeiro convidado pra série de 15 palestras da edição 2008 do curso Fronteiras do Pensamento.

Num português tosco, se desculpou por fazer a palestra em francês. Na próxima faço em brasileiro, emendou. O tema de sua fala era 1968-2008: o mundo que eu vi e vivi. Uma hora depois, 40 anos de História tinham passado em meus ouvidos (a despeito de algumas falhas na transmissão do tradutor simultâneo).

Primeiro ele explicou como o homem via a si mesmo àquela altura do campeonato: ele (o homem, você, eu, sua tia etc.) tem consciência de sua insignificância diante do universo em expansão e sabe que nada o separa da natureza, ele é parte dela. E foi assim que a ecologia, ciência criada no final do século XIX, passou a ganhar cada vez mais posições no ranking do pensamento científico. Sobre o emblemático 1968 e suas revoltas, Morin falou da busca paradoxal de autonomia e comunidade: ser livre e ao mesmo tempo pertencer. Nessa época, surgiu a contracultura pra combater a autoridade. Foi a estréia da adolescência (porque até então era criança ou adulto, não tinha nada no meio). O ex-comunista também refutou o neoliberalismo de Fukuyama. Foi o século que terminou com a chegada dos anos 1990, um século curto que nasceu atrasado em 1914. Pra Morin a História não acabou porque novos desafios surgem no horizonte do homem. O capitalismo dá sinais de ruína com a crise da hegemonia norte-americana. Países antes chamados periféricos tomam lugar no tabuleiro geopolítico e cultural. A globalização cria positividades e negatividades que se chocam.

Mas a maior quebra de paradigma é que o homem perdeu o futuro, pois ele não acredita mais no progresso tecnológico que trará o bem-estar. O progresso traz armas de destruição de massa e mata a natureza da qual o homem é parte. O futuro é igual à morte. É por isso que ele volta a pensar como no passado, quando acreditava que o céu era o espaço da plenitude. Daí os fundamentalismos e suas estúpidas guerras santas.

A probabilidade é de que o homem se destrua. É matemático. Mas Edgar Morin, em sua enorme generosidade, acredita na improbabilidade. Porque o improvável também pode acontecer. É matemático. Evocando a metamorfose da lagarta em borboleta, ele pergunta: quem poderia pensar que aquele ser rastejante voaria tão alto? A origem está diante de nós.

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