14.3.07

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE (ou O Livro do Garagem)
"O Garagem era a Fantástica Fábrica de Chocolate das drogas"
(A genial frase do meu ex-sócio Ricardo inspira o titúlo deste livro que provavelmente nunca será finalizado. Comecei a escrever essas, digamos, memórias em 2004, logo após o lançamento do "AUTO". São 29 capítulos (dos quais concluí apenas 13), divididos em 4 partes: Early Days (1991-93), Hard Times (1994-95), Renascença (1996-98) e Finale (1998-2000), que recontam a trajetória deste fenômeno da chinelagem chamado Garagem Hermética. É uma narrativa super pessoal, muito mais comprometida com a literatura do que com a verdade dos fatos. Ainda assim, estão lá personagens clássicas da noite garageira, causos tão bizarros quanto verídicos e queimações de filme de toda sorte. A partir de hoje e semanalmente, os capítulos serão publicados aqui neste Foguete.)
Capítulo 1 - Ab ovo

Começa pelo começo.

Digo porque poderia começar pelo meio. O narrador-protagonista em plena festa, bar apinhado de malucos, luz estroboscópica, som a milhão e a história sendo contada em idas e vindas através do tempo.

Ou pelo fim. Tudo acabado, bar vendido e um longo flashback em preto-e-branco ou a história em retrocesso, projetada de trás pra frente como num filme surrealista.

Mas não. Começa pelo começo.

Minto. Antes: pré-ovo, pré-gestação, namoro, paquera. E então pedido, proposta, proposição, propositura.
E depois de desvirginado foi foda.

*

Eu era um bancário infeliz com uma bela coleção de discos e o cabelo comprido emplastado de gel e penteado pra trás (não podia usar cabelo comprido no banco então eu disfarçava). Nas horas vagas fumava uns baseados, lia, saía na noite, fumava uns baseados, ia ao cinema, fumava uns baseados, escutava música, fumava uns baseados e, dentre outras atividades culturais e mais uns baseados, atacava de produtor (leia-se que eu escrevia e entregava os relises, colava cartazes, distribuía panfletos, carregava equipamentos e outras chatices mais) da banda do Ricardo, meu amigão.

Conheci o Ricardo numa viagem pro litoral, era feriado de Navegantes. Eu estava na saída da cidade com a Debbie, a minha namorada na época, pedindo carona pra praia quando ele passou no carro de uns amigos (dele) e ofereceu uma (carona). Ele já conhecia a Debbie de outros carnavais – Navegantes, no caso – nos viu na estrada, eu com cara de tédio e a Debbie com o dedo em riste, mochilas no chão do acostamento, e pediu pro cara que dirigia parar. Só tinha lugar pra mais um no carro e a Debbie foi com eles. Consegui uma carona logo depois (na verdade, foi um semi-conhecido que ia de ônibus mas acabou descolando uma carona e me deu a passagem. Anos mais tarde esse sujeito bateu na minha casa pra mendigar um baseado e eu disse cai fora e ele me jogou na cara: aquela vez eu te dei uma passagem pra Capão, seu filha-da-puta-malagradecido!).

Seria um típico feriado adolescente. O apartamento de veraneio do meu avô liberado e eu tinha convidado uns amigos. O combinado era que todo mundo se encontraria na rodoviária de Capão da Canoa, cidade praiana das mais deprimentes dentre as deprimentes cidades praianas do litoral sul, mas, em se tratando de cidade com apartamento liberado longe dos cuidados e olhos dos pais, transformava-se no lugar perfeito prum bando de adolescentes sedentos por sexo, drogas e auto-descobrimento auto-descobrirem-se. Cheguei na rodoviária e o bando já me esperava. A Debbie me apresentou ao Ricardo e a um outro cara que estava com eles, o dono do carro. Perguntou se não podiam ficar lá no apê do meu avô também.

No problem, i guess. Onde dormem cinco, dormem sete.

E foi assim que conheci o Ricardo. Ele fazia um curso de pára-quedismo e tinha ido dar uns saltos em Capão, onde tinha um aeroclube. Um ruivo que saltava de pára-quedas, meio superdotado, que trabalhava com computadores numa época em que pouca gente tinha computador e que seria o meu parceiro nos próximos dez anos na viagem fantástica que foi o Garagem Hermética. Logo no primeiro dia eu já tinha simpatizado com o cara. Principalmente quando, no caminho pro apê, ele sugeriu, à vista de uma sapataria, que comprássemos uma latinha de cola pra cheirar à noite. Pra um jovem toxicômano como eu, nada poderia parecer mais simpático.

O feriado transcorreu como deve transcorrer um feriado adolescente longe dos pais: vômitos, gritarias, desmaios, comas alcoólicos, queimação de filme com os vizinhos e, num paroxismo de demência suicida inspirada pelo efeito dos inalantes, a tentativa de me atirar nu pela sacada do apartamento. A viagem também foi muito marcante pro Ricardo e pro amigo dele porque uma menina morreu durante um salto no aeroclube. Tinha muito vento e ela não conseguiu operar direito o pára-quedas. Acabou caindo sobre os fios de um poste de luz e foi eletrocutada. Acho que os dois nunca mais saltaram depois disso.

De volta à cidade, passei a encontrar o Ricardo regularmente. Ele freqüentava os mesmos lugares que eu: o Lola, o Fim de Século, o Ocidente, a Lancheria. Além disso, ele tinha uns óculos escuros descolados, uma câmera fotográfica e ainda tocava guitarra, que pra mim era o mais legal. O fato era que eu queria desesperadamente me infiltrar no maravilhoso mundo do ronquenrol e, a despeito do primeiro convite ter sido pra ser o produtor e não vocalista da banda do Ricardo, não pude recusá-lo. Eu não tocava nada mesmo. Não me restavam muitas opções. A banda chamava Brigitte Bardot e além dele na guitarra (purple, bizarra, réplica de uma guitarra do Prince que já tinha sido do Edu K na fase em que ele imitava o Prince) tinha um tecladista, um vocalista (que eu achava péssimo, por óbvias razões), uns irmãos muito estranhos da Restinga, fissurados em Alice in Chains e Soundgarten, sempre de camisa de flanela, que tocavam baixo e guitarra, e o Marcos. O Marcos tocava batera e era colega de trabalho do Ricardo numa empresa que produzia óleo de soja. Um cara-mais-velho de uns 24 anos, idade que eu – no esplendor dos meus teens – achava o cúmulo da velhice.

A sede da empresa de óleo de soja ficava no centro, pertinho do banco onde eu trabalhava. Depois do expediente, o Ricardo sempre aparecia e a gente pegava um filme no Ponto de Cinema, uma sala bacana que pegou fogo depois, mas que, na época, final dos 80/início dos 90, só passava uns filmes cult tipo mostra expressionismo alemão ou ciclo Jim Jamursh ou retrospectiva Wim Wenders ou festival Hitchcock. Era fatal: seis e cinquenta e poucos chegava o Ricardo enquanto eu passava as últimas mensagens na minha – tão ruidosa quanto anacrônica – máquina de telex, aberração mecânica que eu operava com perícia e destreza, diariamente da uma da tarde às sete da noite, repassando contratos, minutas, requerimentos e afins, sentado de frente pruma janela que dava pra parede do edifício do lado e pensando que era bem melhor quando eu era boy que pelo menos eu dava umas voltas. O Ricardo chegava e a gente fechava os baseados que iríamos fumar antes do cinema. O crime era cometido atrás da Santa Casa, onde hoje tem um complexo hospitalar novo, supermoderno, só pra clientes particulares ou com plano de saúde. Antes, o terreno era só um estacionamento pros professores e alunos da Faculdade de Medicina e um pico tranqüilo pra se fumar um baseado antes do cinema.

Ou ele pintava no banco com o Marcos e a gente ia lá pra casa ouvir um som e escrever os relises da banda – sempre cheios de frases feitas e clichês medonhos como “riffs psicodélicos”, “grooves envenenados” e coisas do gênero. A gente também costumava almoçar em restaurantes de à la minuta do Centro e, um dia, sentados num banco da Praça da Alfândega depois do rango, pegando um solzinho de inverno antes do trabalho, os dois me contam que vão largar os respectivos empregos e, com a grana da rescisão, abrir um bar, um velho sonho do Marcos. Tinham feito as contas, o dinheiro talvez fosse pouco, talvez precisassem de mais algum, mas foda-se, iriam arriscar do mesmo jeito. Chega de ser empregado dos outros. Perguntaram se eu não queria ser sócio deles na empreitada.

Um bar diferente, cara, só com música legal. Um espaço pras bandas, onde os músicos vão ser tratados com respeito. A ceva e o ingresso por um preço acessível. Dizia o Marcos.

E certamente vamos ganhar dinheiro. O Ricardo.

Pra ganhar aquele dinheiro eles só precisavam de algum dinheiro e da disposição de chutar o balde. Se o que tinham em termos de grana era pouco, a disposição pro chute compensava. De óleo de soja, os caras já estavam de saco cheio. Assim como eu também não agüentava mais as minutas, os contratos, o cabelo emplastado de gel, a máquina de telex, a parede do prédio do lado. Eu queria ser um astro de rock ou pintor famoso ou poeta maldito ou qualquer coisa bem artística rebelde experimental, tipo morrer jovem e belo. Um emprego num banco não ajudava muito nas minhas ambições. Eu via o taxímetro da minha vida girar enlouquecido enquanto mofava dentro daquela agência escrota. Nunca tinha pensado em ter um bar, só pensava em ir a bares, mas por um instante a idéia me pareceu interessante. Talvez ter um bar fosse artístico. A história estava cheia de bares legais: o Cabaret Voltaire em Zurique, o Whiskey a Go-Go em Los Angeles, o La Hacienda em Manchester, o Rick’s em Casablanca, o Studio 54 e – o the-great-of-them-all – CBGB, em NYC. Tá certo que aqui era apenas Porto Alegre, mas a gente faz o que pode.

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11 Comments:

Blogger clandestini said...

ai, mas seria tão bom pegar esse texto nas mãos...

hehehehe

beijos ;}

http://trecosetrapos.org/weblog

10:42 PM  
Blogger Ricardo said...

Lindo Léo! Fico muito feliz de ter participado de tudo isso e estar vivo pra ler essas debiloidices que vem pela frente (mas que venha pela frente porra!)

Viva a DELL e teu novo laptop.
Que faz você escrever mais e melhor por todos os cantos da tua casinha amada, ou para os íntimos, Léo's Club.

Beijos e até semana que vem!!!!

4:21 PM  
Blogger Karenina said...

Leozinho!
Mal recebi o mail do Rick falando no Garagem e corri pro blog pra ler. Afude!
Vivi bons momentos no Garagem, com direito a sair do bar caindo de bêbada com uma amiga de um metro e meio de altura, igualmente bebada, e o segurança ajudar a gente a caminhar até a esquina da Independencia e depois ficar cuidando até a gente entrar logo ali, no predio dela.
Tenho mais algumas historinhas embunitadas, das madrugadas que passei dentro daquele antro maravilhoso!
Bons tempos!
Adorei começar a ler essa linda história!
Muito afude! Semana que vem volto aqui pra continuar lendo esta e outras histórias bacanas...
Beijocas INA

5:04 PM  
Blogger flavia giroflai said...

vamos ver se agora vai!
leuzinho...ducaralho!
vamos ver se algumas lembranças históricas suas vão bater com algumas minhas!
já estou ansiosa para ler os próximos capítulos...
beijinho!

8:14 PM  
Blogger Pavão said...

ô leo... o greatest of all é o CBGB & OMFUG e não o gbgb em ny... corrige ai...

fora a pentelhação... bem bacana tu contar a historia do bar...

me lembro bem que no primeiro dia que eu fui uma hora tocou sister ray inteirinha... respeitei na hora e passei a considerar o garagem o melhor lugar para beber e ouvir música da cidade.

continua.

pavão

9:33 PM  
Blogger Sissa said...

viva
vamos la, lio

12:20 PM  
Blogger Sissa said...

leo, acabei de ler um livro há pouco que tu tem que ler, chama
viagem ao fim da noite
do céline
o melhor

12:21 PM  
Blogger Eduardo said...

Oi Leo.

Tá ficando bacana essa reminiscência... tô curioso pra ler o resto.

Um abração
Dado

3:17 PM  
Blogger Alisson said...

Que legal, Leozinho.

Acabo de receber uma mensagem do Rick falando das tuas postagens - pelo visto, agora, ele é que é o produtor, hehehe.

Não sei explicar, talvez por ser segunda-feira, mas teu texto proporcionou "sensações" muito massa! Uma nostalgia de forma alguma ultrapassada ou saudosamente burra...

Agora, "tratar músicos com respeito" é dourar a pílula, hehehe!!! Não é?

Passado, passado. Escreve mais aí.

Agora, se tu abrir isso pras pessoas e pintar um
"portal colaborativo do Garagem", aí fudeu!

Abraço!
AA

3:48 PM  
Blogger mutantismos said...

Po, Leo Moses!

A partir de agora virei leitor assíduo dos formidáveis foguetes contando a história do garagem. O Bel me mandou o link. A fuder!
Não precisa ler o meu, é muito ruim.
E eu não sei como assinar sem aparecer o mutantismos, saco.

Abs
Raul (Rocha)

6:16 PM  
Blogger Flavia said...

Eu queria o garagem de volta. . .

9:47 AM  

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