11.4.07

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE
Capítulo 3 - A primeira noite do resto de nossos dias
Parte II
Apenas uma semana pra inauguração e o bar ainda estava uma bagunça, cheio de detalhes pra resolver. Faltando a instalação do som e da luz, sem a decoração “entre aspas”. Só o piso novo, o palco e o balcão prontos – o que já era um começo. O freezer também já tinha chegado, mas não tinha sido ligado porque faltavam alguns “retoques” (total “entre aspas”) na elétrica. Como que estabelecendo um padrão que seria seguido até o fim da nossa, digamos, administração, a reforma iria terminar a apenas poucos instantes da festa começar, o primeiro cliente entrando no casarão e ouvindo ecos das marteladas no derradeiro prego. Sempre assim. Mas de qualquer forma havia prazos e um fim de semana antes era o que a gente tinha estabelecido pro início da divulgação e da distribuição dos convites – o que, por sinal, também tinha sido um parto.

Os convites deixa comigo. Dizia o Ricardo. Eu faço o design e a gente imprime na gráfica de um amigo meu, ele faz um preço bom. O cara é praticamente meu irmão.

O design (que também poderia vir “entre aspas”) era a coisa mais minimalista do mundo. Um cartão retangular em papel cuchê cinza, com o nome do bar escrito em azul escuro com umas letras distorcidas.

Dois dias antes do dead-line e o cara da gráfica nem sinal. A gente ligava e ele não atendia. Pior: o pagamento tinha sido adiantado.

Não se preocupem. Dizia o Ricardo. O telefone dele deve tá com problema. Amanhã eu passo lá e pego os convites. Fiquem tranqüilos, o cara não ia nos sacanear. Ele é praticamente meu irmão.

Um dia antes do dead-line e o cara da gráfica tinha sumido com a nossa grana.

Filha-da-puta. Dizia o Ricardo. A mãe dele disse que faz dois dias que ele não aparece em casa. Sacana, era praticamente meu irmão.

O Ricardo descobriu uma outra gráfica. Por sorte, de um completo estranho. O cara tinha uma gráfica bem ao lado da do praticamente irmão. Desesperado, o Ricardo entrou na gráfica do completo estranho e foi tão incisivo que conseguiu que ele aprontasse os convites pro dia seguinte, ou seja, no dead-line. Tiveram que ser impressos num papel mais vagabundo porque a grana já tinha saído com muito esforço, puxada do fundo de nossas contas (poças) bancárias. Moral da história: praticamente nunca confie em praticamente irmãos.

Então era sexta à noite e eu estava na esquina do Lola, na Osvaldo com a João Teles, distribuindo convites da festa de inauguração. Passou a Bia, de camisola branca e coturno de milico, indefectíveis olheiras.

E aí Bia, tudo bem?

Mais ou menos. Eu tentei me matar hoje.

Como assim Bia?

Eu liguei o gás e coloquei a cabeça dentro do forno.

Tá e aí?

Tava muito demorado e eu saí pra tomar uma cerveja. Deixa pra outra hora.

Bom, se não rolar até sexta, toma esses convites e pinta lá na inauguração do meu bar.

A Marion também perambulava por ali naquele fim de semana. Toda de preto, tatuada.

Oi, Marion, olha uns convites pra inauguração de um bar novo, bem bacana.

Legal, consegue mais uns que eu vou com uma galera.

E assim os convites foram se espalhando pela noite.

Mais tarde encontrei o Régis e a Liana (uma mina que depois se mudou pro Velho Oeste, Mato Grosso, eu acho). Depois de umas cervejas, tirei do bolso as chaves da casa e mostrei pra eles, sacudindo na ponta dos dedos.

Cês querem conhecer o bar?

Era uma noite quente de primavera. Dentro do casarão, a única fonte de luz era uma lâmpada ligada a um rabicho que levamos pro lado do palco. O ambiente era caótico, tábuas e tijolos, serrote, fios, pregos e martelo, os indícios da obra espalhados pelo chão. Encontrei, pela metade, uma garrafa plástica de cachaça do Popeye e servi um pouco num copinho de extrato de tomate. O Popeye também tinha um radinho e o Régis ligou-o e sintonizou na Continental. Fechei um baseado e ficamos conversando, os três, ao som daquele Fabuloso Som dos 70's: Billy Paul, Donna Summer, Wings, Barry Manilow. Contei como seria o bar e todas as nossas idéias de festas e shows e precisamos agitar essa cidade que não tem um lugar legal pra gente se divertir e ver um show e dançar uma música boa e eles ouviam atentos, a cachaça plástica do Popeye pegando forte, a fumaça e o som do radinho se espalhando lentamente pelo casarão vazio e escuro. Pensei se tudo der errado eu não me importo, já está valendo a pena. Eu sabia que não ia ser um comerciante pro resto da vida, mas a verdade é que não encarava a minha empreitada como um comércio: era um estado de espírito, a tentativa de realizar aquela obra de arte que eu queria fazer mas não sabia como nem quando e muito menos qual. Tinha a ver com acreditar em certas coisas, muito mais que com ganhar dinheiro vendendo cerveja, e era isso o que eu pensava e falava pro Régis e pra Liana naquela noite quente de primavera e também sobre tantos outros planos (sonhos) sentado no palco do bar que eu inauguraria em uma semana, quando subitamente percebi que eu era feliz e sabia.

O trabalho do Popeye tinha terminado, mas o nosso estava longe de acabar. Pegamos pesado na semana-reta-final, martelando, pintando, limpando, arrumando, decorando “entre aspas”. Glamour nenhum, só trabalho braçal.

Passou a semana e chegou a grande noite. Tirar o cabaço. Todo mundo nos maiores penteados & terninhos & vestidos. A staff preparada e bem passada quem nem criado de casa de verão de lorde esperando a chegada do patrão.

A propósito, algumas palavras sobre ela, a staff. Nossa Armada Brancaleone do trago:

Narciso era o DJ. Mas como disse um amigo, é colocador de som mesmo, apertador de play. Se bem que naquela época tinha um prato e discos de vinil, mas sem criação, scratches, mixagens e essas pirotecnias. Anti-DJ. Era dar play e só e às vezes até isso era muito. Mas eu era o dono da (dos) bola (discos).

Rick Red Neck e Marcos Murruga. (In)Gerência. No início eles não botavam som. Ficavam solamente administrando. Uma beleza, administrar era também encher freezer, resolver problemas, carregar peso. Colocar som era só colocar som, dar play praticamente, às vezes nem isso. Mas não durou muito. Um dia eles socializaram o trabalho e como eu era apenas 33,3 contra 66,6 (a Lucianinha nunca opinava) fui voto vencido. Não fui baixo a ponto de: os discos são meus. Não. Viramos todos DJ-administradores. Mas voltando aos 66,6, era notável o quanto contrastavam em temperamento e personalidade: MM, o Pequeno, era algo como uma raposa (dada a ataques esporádicos de fúria) em esperteza e malícia, enquanto Ricardo, o Ruivo, era ingênuo, franco e pacífico, características que iria abandonar com o tempo, depois de uma vida de agruras – problemas financeiros, mulheres histéricas, drogas pesadas, fiscais do imposto de renda e da vigilância sanitária no encalço – transformando-o num machista durão, implacável polvo capitalista.

Lady 16,65%. Além de mentora intelectual, divulgadora e produtora, Lucianinha se dividia entre o caixa e a cozinha (que consistia numa folha de compensado sobre dois cavaletes com alguns vidros de maionese, mostarda e catchup, azeitonas e salame, e uma geladeira com outros adereços que servissem tira-gostos rápidos, comidinha de bêbado, que com o tempo até os bêbados parariam de comer, terminando a cozinha desativada até o episódio sushi-bar, mas isso já é um outro capítulo). Na cozinha, Lucianinha era habilidosa no preparo de picadinhos com molho de maionese, mostarda e catchup. Mrs. Murruga também não escapava da limpeza, assim como toda a staff, DJ incluso.

The Little Sisters. Uma era (minha) irmã e a outra praticamente. Amigas inseparáveis. Ambas menores de idade. Uns quinze cada, creio. A Flavinha e a Virgínia. Típico exemplo do nosso grau de irresponsabilidade, não bastasse os menores que iriam freqüentar o bar. Criaram lindos objetos que iriam marcar a decoração do Garagem em várias épocas: os peixinhos de tecido que ficavam na parede atrás do bar, a tabela de preços forrada de papel laminado e botões antigos, a aranha de fio preto e durepoxi na porta do banheiro das mulheres. Foram também as piores garçonetes que o bar já teve. Bebiam mais que vendiam. Na hora de pagar o salário, a gente dizia: vocês nos devem trinta, cada uma. Bebiam por noite quase duas vezes o que ganhavam por noite. Uma vez compramos uma garrafa de vodca importada pra qualificar o nosso bar. Enxugada na primeira noite. Pelas irmãzinhas.

Seguranças não havia.

Meio minuto antes de abrir o bar. Tudo OK (pros nossos padrões, ao menos), exceto pela tinta óleo da pintura Pollock de última hora das mesas e cadeiras que não secou a tempo e mancharia a roupa de alguns dos nossos primeiríssimos clientes, também inaugurando um certo padrão de expectativas: vá ao Garagem e tudo poderá acontecer com você, desde se dar bem no banheiro até ter sua calça predileta manchada irrecuperavelmente (ou quem sabe levar um alto-falante na cabeça: isso aconteceu com uma amiga, dançando feliz na pista quando o último de uma pilha de quatro alto-falantes despencou em cima de sua pobre cabecinha, levous uns pontos e na outra semana já estava lá de novo, dançando mais pro meio da pista, e isso me lembra uma vez que um globo de espelhos caiu em cima da cabeça de um cara bem no meio da pista, mas aí já é digressão por demais). Eu gelava de expectativas, frio na barriga, cheio de dúvidas, pensando num mundaréu de coisas que poderiam acontecer, turbilhão de emoções.

Será que a gente vai conseguir segurar esse tranco?

Pagar todas as contas?

Aluguel?

Luz?

Fornecedores?

Funcionários?

E se não aparecer ninguém na primeira noite?

A gente faz o quê?

Fecha o bar no dia seguinte?

Se mata?

Será que eu me meti numa roubada?

E se a mãe tinha razão?

Com que cara eu fico com o Bernoto?

E se eu mato o Bernoto?

Em meio à ansiedade, a excitação e as inúmeras cervejas, a noite transcorreu sem maiores transtornos. Nenhum escândalo que coroasse de estréia o nosso destino escandaloso. Nenhum acontecimento bizarro. Talvez apenas uma ou outra bolinação mais intensa, algumas droguinhas pesadas e um prazer sincero em dançar ao som da boa música.

Nosso freak show estava apenas ensaiando suas primeiras coreografias.

E a noite permaneceu na lembrança como uma bolha azul de vagas recordações, vaguíssimas. Basicamente colocando som na cabine do DJ, que era do lado do palco, vendo entrar o Luke, um carinha que tocava guitarra superbem, mistura de Tom Verlaine e Roger McGuinn, mas que acabou abandonando o ronquenrol (como muitos daquela época), o Luke e sua turminha foram os primeiros. Depois já estavam todos os amigos e alguém disse bota um som mais animado (porque eu ainda fazia um clima lounge de aquecimento) e aí comecei a esquentar a pista e as pessoas se levantaram das cadeiras com as calças manchadas de tinta e foram dançar e a coisa pegou fogo.

Lembro também do Six chegando com a namorada.

A festa tá ducaralho. Dizia o Six, cabeleira despenteada, jaqueta jeans e um jeitão de Jim Morrison.

E o som tá muito legal. A namorada (a Bia, uma que se mudou pra Londres e hoje deve ser vegetariana).

O Six perguntou se eu não queria fumar um com eles.

Só deixa eu colocar um disco antes.

Coloquei uma coletânea dos Sex Pistols, aquela que tem um cocô na contracapa. Saímos do bar e sentamos na frente do casarão, bem na porta da lavanderia. Um baseado importante na minha vida. De volta à pista, o pessoal dançava a faixa cinco com a mesma empolgação da faixa um, mas quando cheguei na cabine bateu um pânico horrível. Eu detestei estar chapado. A maconha tinha me deixado completamente descoordenado, confuso, paralisado. Dar um simples play se tornou uma coisa complicadíssima, os botões e as luzinhas do mixer terrivelmente ameaçadores. Mas no fim foi happy end. Consegui controlar a paranóia e os clientes dançaram felizes. Vendemos o freezer inteiro, as garçonetes não vomitaram muito, nenhuma briga, clientela satisfeita. A sensação do dever cumprido. Recordações de alegria, otimismo e esperança, boiando difusas numa grande bolha azul. Até aqui tudo bem.

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5 Comments:

Blogger Dani Hyde said...

Léo, vim dar uma olhadinha e li desde o primeiro post. São quase 6 da manhã...

Isso aqui tá fantástico, me deu uma dor do tipo "nossa, tinha que estar em papel", mas em seguida eu desconsiderei essa hipótese. Quero mais que os blogs virem literatura. *ri*

Lágrimas em Karen Carpenter, Rebecca e Zappa.

Beijos e siempre viva!

5:10 AM  
Blogger foppa said...

Gênio, hehehhe.

tb resolvi ler um pouquinho e acabei devorando tudo.
Acho q tem q publicar tipo vinil.

9:35 AM  
Blogger flavia giroflai said...

...são tantas emoções...
...assim faslou a garrsçosnete
bÊÊbadadada...
mas muitas mais virão...(emoções ou garçonetes bêbadas?)
...um comentário totalmente lúcido...nenhum goró ainda hj...
...tá muito bom...tudo bem que sou suspeita...só que tá mesmo...
um bj enorme
e muita saudade...tá chovendo muito agora aqui(pseudo frio)
e depois dessas recordações a saudade multiplicou!

8:38 PM  
Blogger Thiago K. S. said...

são histórias como essa, de iniciativa, 'doidera' e algum rock n' roll que me incentivam a, um dia, ter um bar [com música legal, ceva barata e banheiro unissex, porquê não?!]...

saudações!!

2:06 AM  
Blogger rafael said...

É tri bom de ler no blog...QUando espaça as frases, parece que vai acabar, dá uma angustia, e vem mais uma frase, e a história continua, a gente ainda tá vivo...

1:29 PM  

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