4.4.07

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCLATE
Capítulo 3 - A primeira noite do resto de nossos dias
Parte I

Não havia tempo a perder. As reformas começaram assim que pegamos as chaves da casa. Logo no início da obra, constatamos que as condições do imóvel eram piores do que supúnhamos, mas (o pior d)o pior era que não haveria dinheiro pra arrumar tudo. O Ricardo tinha conseguido um semi-acordo na empresa de óleo de soja, o Marcos dispunha praticamente da metade da grana inicial e eu tinha pego uma mixaria pelos três anos de banco.

Então fizemos o mínimo, apenas o estritamente necessário pra fazer o bar funcionar. Trocamos o piso das três primeiras salas da casa, onde seriam o palco e a pista de dança. Demolimos duas paredes pra abrir mais espaço, construímos um palco e um balcão de madeira e compramos alguns metros (não muitos) de fios e um disjuntor. O resto ficou como estava. Nosso pedreiro, indicado pelo Marcos (cuja família tinha a tradição de construir as próprias casas, todas no mesmo terreno) ganhou o apelido de Popeye. Era queixudo e banguela, com uns braços fortes de estivador, só não era caolho nem fumava cachimbo. Durante um dia de trabalho bebia em média uma garrafa (plástica) de cachaça. Como a maioria dos pedreiros, tirava a sesta depois do almoço. Todavia não fumava maconha.

Enquanto Popeye e seu Assistente, um guri preguiçoso de uns 15 anos, sobrinho ou neto, i guess, faziam o trabalho no QG, nós atacávamos por outros fronts: compra dos equipamentos (freezer, ventiladores, aparelhos de som e luz etc.), contatos com os fornecedores, diagramação e impressão dos convites, redação dos relises de divulgação. O nome Garagem Hermética já era consenso. Foi fácil. Fuçando numa caixa cheia de livros, revistas e histórias em quadrinhos, dou de cara com uma edição colorida da obra prima do Moebius. A Garagem Hermética, satélite flutuante de portas e possibilidades infinitas, caixote surrealista de alucinações sci-fi, buraco cósmico de incoerências e sonhos coloridos. A palavra garagem também estava diretamente associada ao rock: as garage bands dos anos 60 que eu colecionava obsessivamente (além da piada interna com a furada que foi toda a história do Violeta: o nosso Funhouse seria na garagem) e hermética já era bom demais só por ser proparoxítona, mas também era certo que o nosso inferninho seria hermético o bastante. Airtight, alright.

Na hora de comprar os equipamentos, optamos por várias coisas de segunda mão, como uns ventiladores que deram uma porção de problemas até serem jogados no lixo algum tempo depois. O receiver também era usado, mas essa foi uma compra auspiciosa, escapou a dois arrombamentos e não sei quantos blecautes, mantendo-se firme e potente (exceção de uns dois consertos e meia dúzia de fusíveis queimados) até a venda do bar. Alguns itens foram zero quilômetro: o mixer, os cd players, uma estroboscópia, três canhões de luz. Também parcelamos numa loja de departamentos (em seis vezes) um freezer novinho em folha. Durante mais de um ano esse foi o único que tivemos. Nessa fase inicial, somente no início da noite era possível beber alguma cerveja gelada no Garagem. Quando o freezer chegava à metade de sua capacidade, já começávamos a abastecê-lo pra que não faltasse cerveja. O resultado era nada diferente do que preveriam as leis da física: a metade que já estava dentro esquentava e a outra não gelava. Compramos seis jogos de mesas e cadeiras de metal branco e pintamos, com tinta óleo preta, motivos abstratos à la Jackson Pollock de última hora. O Marcos tinha uma esposa, a Lucianinha, que, como tal, segundo as normas que legislam a comunhão de bens neste país, era dona de 16,66% das ações da nossa empresa. Era uma mulher pequenina (aliás, pouco menor que o próprio Marcos, cujo apelido (que detestava) era Murruga) estudante do Instituto de Artes. Lucianinha deu uma força na “decoração”, assim mesmo, “entre aspas”. Como não tínhamos dinheiro pra pintar todo o bar, ela fez uns desenhos nas paredes, inspirados na Garagem Hermética do Moebius: o Major Fatal, personagem principal da história, entrando e saindo de portas rabiscadas na tinta branca suja. Na sala onde ficaria o bar, enchemos as paredes com dezenas de páginas de histórias em quadrinhos. A mesma coisa foi feita no hall de entrada, onde as folhas cobriram o teto. Um amigo nos deu um pôster com o rostão do Picasso com uns olhos penetrantes de artista excêntrico que colamos sobre as páginas de revista. Bem em cima da porta do hall, e o Picasso ficava lá em cima, como um vigia, cuidando todo mundo que entrava. A iluminação era composta por umas sete lâmpadas azuis espalhadas em cantos estratégicos, três canhões de luz com filtro vermelho no palco e só. No banheiro, colocamos um compensado com a mesma pintura Pollock-chinelona sobre a banheira (que acabaria virando um gigantesco e nojento mictório) e, antecipando o que ocorreria de maneira inevitável, pichamos todas as paredes com manchas, borrões, desenhos obscenos e frases de desordem (lembro duma: “free your mind and your ass will follow”, que alguém escreveu embaixo: “bando de viados”), resumindo: um banheiro muito jovem. E unissex. (aliás, por isso e outras tantas coisas mais, esse banheiro, por si só, já mereceria um livro, um livrinho assim tipo pocket). Ah, e com um pequeno vazamento bem na base do vaso que não foi arrumado e o transformaria no terror das meninas de sandália. Em noites movimentadas, com o fluxo intenso de pessoas mijando, cagando e puxando a descarga, o banheiro estaria sempre inundado com uma aguinha suspeita que escorria do vaso, encharcando tudo em volta.

Todas essas coisas foram ou não foram feitas somente após o trabalho do pedreiro. Pra colocar o piso novo, Popeye teve que remover primeiro todo o madeirame antigo, deixando a casa por dois ou três dias com as vigas à mostra.

Olha só essas vigas. Dizia o Popeye sentado numa delas, com as pernas balançando pros lados a poucos centímetros do forro da lavanderia. São de madeira de lei, já duraram uns cem anos e vão durar mais cem. Foi sorte, guris, se essas vigas não fossem de madeira boa, os cupins já teriam comido tudo e cês tavam fudidos.

Durante a remoção do piso foram achados trocentos ovos de baratas, além de um número semelhante das próprias. Popeye ia arrancando as tábuas com o pé-de-cabra e as baratas correndo em todas as direções, cena de filme de horror. O piso da parte dos fundos e do corredor, que estava num estado menos pior, teria que esperar ainda dois anos pra ser trocado. Enquanto isso ficaria lá, com uma forração cor de rato sujo por cima, meio irregular e inclinado, rangendo conforme a pisada e deixando acumular nos cantos aquele pozinho de madeira que indica a presença de cupins.

Em função da dureza total, não tivemos grana sequer pra contratar aquelas caçambas de tele-entulho que levam embora os dejetos da obra. Então o Marcos teve a idéia de colocar tudo no pátio, que não tínhamos a intenção de usar. Popeye e Assistente descarregaram todo o entulho lá nos fundos: metros de tábuas velhas, restos de compensado e forração, sacos de farinha cheios de pó, cacos de tijolos e pregos tortos, um material capaz de produzir a abiogênese de alguns ratos e baratas e (com as pontas de baseado, tocos de cigarro e restos de bebida que seriam lançados ali a partir da abertura do bar) de dois ou três freqüentadores mais asquerosos. A salinha dos fundos também não seria usada, o piso podre demais, e foi transformada num depósito onde acabariam acumulados engradados de cerveja, cadeiras e mesas danificadas e, por razão que ninguém explica, todas as garrafas vazias dos destilados que a gente acabaria vendendo nos próximos meses. A sala também não tinha luz e passar por ela pra fumar um no pátio, à noite, era um desafio. Mesmo com a ajuda de um isqueiro, o tropeço em alguma garrafa (depois de um tempo elas já cobriam quase todo o chão) ou canelada em ponta de mesa ou cadeira, inevitável.

As garrafas espalhadas pelo chão iriam render ao menos uma boa história.

Cansado de tropeçar sempre que eu ia fumar um, resolvi por um fim naquela bagunça. Numa tarde, munido de vários sacos plásticos, recolhi todas as garrafas da salinha, não sem antes entornar o restinho de cada uma delas – vodca, uísque, tequila, rum, gin, cachaça – numa única garrafa de tequila. A mistureba encheu a garrafa com um líquido fulvo (leia-se: cor de mijo), e foi colocada em cima da geladeira, na cozinha. Pra todos os efeitos, meia garrafa de tequila ouro. Não demorou muito pra que viesse um:

E essa tequila, só pra diretoria?

Era um amigo baterista, o Bolonha.

Tafim?

Enchi um copo e, conforme o Bolonha ia bebendo, a cara dele ia ficando vermelha, quase roxa. Soltava fumacinha pelos ouvidos que nem personagem de desenho animado, engasgava de vez em quando, tossia. Mas respirava fundo e seguia engolindo o drink maligno.

Na ceninha alternativa da província os rumores da abertura do bar já corriam de boca em boca. A gente só tinha comentado com os amigos mais chegados que só tinham comentado com os mais chegados que só comentaram com os mais chegados e então todo mundo comentava. Alguém tinha dito que o Renatão e a Carla, os donos do Elo Perdido, um bar que a gente freqüentava, tinham ficado putos porque alguém (eu certamente, boca grande!) tinha dito que o Garagem ia ser bem melhor que o Elo. E alguém tinha dito que alguém tinha dito pro Renatão e a Carla que o nosso bar ia ser uma merda e que a gente era uns guris de merda. O bar nem estava aberto e já causava polêmica.

Também encontrei na rua o Bernoto que me olhou com um sorrisinho sarcástico (minto, o Bernoto era muito burro pra manifestar sarcasmo, o sorriso era mesmo de um deboche mesquinho, grosseiro e invejoso) e perguntou se eu já tinha alugado a casa.

Sim, Berna, não se preocupe, o bar abre no próximo final de semana. E tasquei um convite na mão do filha-da-puta.
(continua)

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3 Comments:

Blogger tati said...

Pensei que as pinturas da inauguração fossem do Guillermo.

4:11 PM  
Blogger tati said...

Formidável :)

4:14 PM  
Blogger Dinho F said...

Hallo Léo!!!
Cara... muito bons textos(quem sou eu pra falar?). mas assim ó: primeira vez que embarco neste foguete, e ele é sim, formidável! vou ler mais um pouco por aqui pq tem cheiro de coisa boa(!?) Mas que dá uma saudade do Rocket na 103.3, bah...

bra

1:24 PM  

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