9.5.07

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE

Capítulo 6 - Um corpo que cai

Foi em janeiro. E diferente das histórias escabrosas do hemisfério norte, quando janeiro é inverno e frio, muito frio, aqui era verão e quente, muito quente. História escabrosa de verão, sem vento gélido açoitando-nos os ossos e outros clichês de filme de suspense. Verão e quente. E vazio. Naquelas noites de sábado em que todo mundo parecer ter ido pra praia, só restando na cidade os chatos, os duros e as feias. Sendo eu um duro, tinha que ficar também. E ainda tentar fazer algum dinheiro em cima dos chatos e das feias (até porque com os duros não teria chance). Sendo meus sócios outros duros, ficamos todos.

Poucos clientes. Ventiladores ligados no máximo pra tentar assoprar o calor pra fora, calor insuportável mesmo com a casa quase vazia. Ninguém na pista de dança. Ou talvez tivesse alguém, uma mina bêbada e um carinha idem, embalados pela cerveja e pelas melodias de um disco qualquer, coletânea de preferência, tocada aleatoriamente pelo meu alter-ego da discotecagem, o infalível DJ Shuffle. Enquanto Shuffle assumia o som, eu podia sair pelo bar pra beber ceva na sacada, papear no patamar da escada, olhar as meninas, fumar um na salinha dos fundos, dançar. Bastava esconder o acervo de discos debaixo do palco, escolher a coletânea e deixar o Shuffle comandar a ação.

De tanto calor, a maioria dos clientes (tão poucos que chega a ser ridículo chamar um número tão pequeno de gente de MAIORIA) só entrava no bar pra pegar uma cerveja e logo depois saía de volta e sentava no patamar da escada pra jogar conversa fora. Acho que os melhores assuntos já discutidos no Garagem – salvo as discussões movidas à cocaína no escritório – se deram no patamar da escada. Na verdade, acho que essa é uma frase de efeito mentirosa porque eu nunca poderia afirmar onde se deram os melhores assuntos já discutidos no Garagem – salvo as discussões movidas à cocaína, que, sem sombra de dúvida, posso afirmar que as melhores e a maioria (agora sim tendo como referência um número grande o bastante pra chamar de MAIORIA) se deram no escritório.

Pra reduzir gastos, tínhamos dispensado as meninas do balcão e o Marcos servia as bebidas pra clientela. DJ Shuffle rolava o som, o casal bêbado dançava na pista e o Ricardo e eu bebíamos e conversávamos no patamar da escada com a maioria dos clientes, umas 4 ou 5 pessoas, dentre elas um cara alto e magro, muito alto e magro, que tinha aparecido não sei de onde e se juntara ao grupo. Ele também era a parte da clientela que mais entrava no bar pra pegar cerveja. Um daqueles bêbados solitários obstinados, enxugando uma atrás da outra. Tinha uma cara grande e quadrada, emoldurada por cabelos compridos, pretos e lisos, visivelmente sebosos. Usava uma camisa listrada de mangas curtas, barba por fazer de vários dias. Muito alto, tão alto que o corrimão da escada dava um pouquinho acima da altura dos seus joelhos. Em alguém de estatura mediana, esse corrimão dava nos quadris. Muito alto.

Então o cara muito alto, depois de buscar uma seqüência de cevas, se encostou no corrimão e entrou na conversa falando rápido, rindo, soluçando e bebendo golões de cerveja. Na maior das animações, balançava o corpo comprido, encostado no corrimão. Lá pelas tantas, em meio a uma risada mais forte, se inclinou pra trás e foi caindo lentamente. Ficamos olhando a cena como num filme em câmara lenta, pensando: o c a r a t á c a i n d o. De repente, como se a velocidade do filme tivesse sido acelerada, as pernonas compridas ficaram suspensas e deram um pinote pra cima. A cabeça e o tronco foram pro outro lado do gradil, as coxas ficaram apoiadas no corrimão e os pés se ergueram no ar. Depois foi um escorregão e o corpo caindo da altura de uns quatro metros, que era mais ou menos a altura da escada. Num reflexo, o Ricardo tentou segurar o cara, mas o peso do magrão e o tecido fino da camisa listrada tornaram inútil o gesto de salvamento. O próprio cara também tentou se agarrar à grade com uma das mãos enquanto a outra ainda apertava o copo de plástico com um resto de cerveja. Preso à grade por uma das mãos e embalado pela queda, o sujeito fez um movimento de pêndulo, indo prum lado e depois voltando e, quando atingiu o ponto máximo da trajetória, desprendeu a mão e desabou. Caiu de barriga pra baixo, de carão na laje, os braços esticados como quem dá um mergulho. Um desses pranchaços que os inexperientes dão em piscina de clube. Só que no cimento.

Tudo aconteceu muito rápido. Ficamos olhando o cara lá de cima, corpo estirado, a cara grudada no chão, nenhum sinal de vida. Passada a perplexidade, os primeiros socorros. Alguém gritou cara, tu tá bem? Sem resposta. Descemos as escadas. Cutuquei o ombro dele com a ponta do pé, depois o Ricardo se abaixou e sacudiu o corpo inerte. Nada. Nisso, todos os clientes (uns 9, no máximo) já estavam no patamar olhando pra baixo, menos o casal bêbado que ainda devia dançar o set do DJ Shuffle, imperturbável. Os rumores da tragédia chegaram até o Marcos que largou o balcão e foi ver o que tinha acontecido.

O Marcos era um carinha estressado. Chegou aterrorizando, botando a culpa em mim e no Ricardo por algum motivo inimaginável, nos chamando de irresponsáveis, que a gente ia ser processado. Depois do furacão de stress e dos prenúncios de calamidades, vieram as questões práticas. Ninguém ali conhecia o infeliz, que trazia apenas um dinheiro amassado no bolso, sem carteira nem documento (nem lenço).

Então fazer o quê?

Chamar a polícia?

Ambulância?

Arrastar o corpo até a calçada e deixar por lá?

Enterrar no pátio em meio ao entulho?

Alguém sugeriu que a gente chamasse um táxi e o levasse pro hospital mas outro disse que não se deve mexer no corpo de uma pessoa acidentada. Um foi até o orelhão da esquina chamar uma ambulância mas logo depois voltou dizendo que não tinha fichas. E o cara ainda lá, imóvel, sem a gente saber se respirava ou não. Alguma atitude precisava ser tomada. Não podíamos nos responsabilizar por todos os bêbados irresponsáveis desconhecidos que entravam no bar, já tínhamos os conhecidos pra nos preocupar. O melhor a fazer era se livrar do corpo. Uma vez eu tinha visto num filme: pra desovar o amigo morto de overdose, o cara dirigia até o hospital, reduzia, abria a porta do carro, atirava o morto, acelerava e caía fora. Só precisávamos adaptar a estratégia prum táxi (depois de aliciar o taxista) porque nenhum de nós sabia dirigir. Ainda assim parecia o plano mais viável. Como eu tinha sido o mentor intelectual já saí dizendo que não ia executar. O Marcos disse que não podia abandonar o balcão sob nenhuma hipótese.

Sobrou pra ti. Falamos pro Ricardo.

Vocês tão loucos? Vamos tirar no palitinho.

Mas como já dizia a avó de uma amiga:

– O que é teu tá guardado!

Para o bem ou para o mal, digo eu. E o Ricardo perdeu no palitinho.*


*N. do A.: Em termos de literatura este é o final da história. Mas, mediante às queixas daqueles que insistem que os fatos da relidade não ficam assim sem explicação (ô doce ilusão), cabe informar que: 1) provavelmente o cara não morreu; 2) depois de perder no palitinho, o Ricardo levou-o num táxi até o HPS e lá o deixou, antes de fugir sorrateiramente; 3) nunca mais o vimos, o que nos leva a pensar que 4) talvez ele tenha morrido mesmo.

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6 Comments:

Blogger Dado said...

E não foi a única vez que alguém se esborrachou daquela escada: se não me engano - se o alzheimer do grass deixar - eu vi uma mina se estourar lá embaixo em outra ocasião...

8:21 PM  
Blogger fernanda said...

Noossa Léo, isso está cada vez melhor...hahahahahahaha

7:44 AM  
Blogger Cliff said...

A escada é a única coisa de original do bar até hoje, devia ser retirada e colocada em um museu.

4:43 PM  
Blogger Mauricio said...

com certeza a escada naquela época balançava muito mais...

9:44 AM  
Blogger mutantismos said...

tem certeza que nao era o babs?

2:43 PM  
Blogger Aline Leão said...

Oi Leo! Adorei o blog. Saudooooso Garagem. E Saudooosa TVE. Grande abraço. Ah! Olha o que a nossa querida amiga Bruna Barella está aprontando em São José dos Ausentes: http://www.arcaverde.org

2:44 PM  

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