18.4.07

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCLATE
Capítulo 4 - Ah, cês querem roque?
Parte I

Limbo. Desde o chamado boom do rock gaúcho dos anos 80, quando brilhou uma luz no fim do túnel para a (se é que podemos chamar de) indústria fonográfica deste que é o estado mais meridional do país, nada de espetacular acontecia na cena roqueira de Porto Alegre (minto, a aparição do Kingzobullshitbackinfullefects do DeFalla foi algo espetacular, um disco fundamental na história do rock brasileiro e também a última vez que o DeFalla tocaria com formação e repertório decentes, o Edu em sua melhor forma, todo o gás e a malemolência funk, gritos irados à la James Brown e uns dreads de fio de lã colorida colados com bonder direto na cabeça). Passada quase uma década do tal do boom, a luz no fim do túnel parecia ser o trem vindo contra.

Bandas cover. Esse era o boom do início dos anos 90. Boom-dão. U2 Cover, The Doors Cover, Legião Urbana Cover, Deep Purple Cover, os nomes eram originalíssimos e os vocalistas, normalmente, uns clones mal projetados dos frontmen das bandas as quais tentavam imitar. Então o Bono Cover era meigordinho e usava uns óculos escuros iguais aos do Bono; o Jim Morrison Cover tinha um cinto de medalhões prateados, calça de couro, bota de caubói, cabeleira; o Renato Russo Cover de barba, camisa branca, óculos de grau e assim por diante. Uma epidemia, as bandas cover se multiplicando de forma alarmante e tomando conta dos escassos lugares que havia pra tocar na cidade, até que não sobrasse quase nada para sinceros roqueiros interpretando composições próprias.

Alguns poucos artistas e grupos da década anterior ainda persistiam bravamente seguindo o ensinamento do ditado gauchesco que diz “não tá morto quem peleia”. Júlio Reny arrebatava corações apaixonados com uma repaginação do seu antigo Expresso Oriente e, logo depois, com uma guitar band; Wander Wildner trocara Os Replicantes pelo podresco Sangue Sujo e os Replis contra-atacavam com o Gerbase assumindo os vocais; o Defalla chegava ao ponto alto de sua carreira, culminando com uma apresentação polêmica num enorme festival com nome de marca de cigarro, no Rio; remanescentes do TNT se erguiam das cinzas num formato poser à la Guns’n’Roses muy em voga no período.

No submundo cultural, sobrevivia-se graças a (como sempre) iniciativas modestas como festinhas em estúdios e apartamentos, shows em butecos desqualificados e uma ou outra tentativa em alguma casa de show com maior infra-estrutura – tentativas estas fadadas ao prejuízo total, mediante as condições aviltantes geralmente impostas pelas casas (aluguéis de PAs carésimos, porcentagens injustas nas bilheterias, custos com divulgação exorbitantes). O Ocidente, um marco da resistência alternativa, passava por uma fase dance, tendo ampliado seu espaço com uma enorme pista de dança e fechado suas portas pro rock: nenhum show rolava por lá. No circuito estudantil, uma banda formada por uns estudantes de biologia da UFRGS, a Ultramen, agitava uns showzinhos bicho-grilo no campus central. Alunos das belas artes promoviam umas festas malucas, porém bissextas, no último andar do Instituto de Artes, um clima de liberou-geral entre estudantes, artistas, músicos e os freaks de plantão que podiam assistir a shows de bandas total arty, tipo a Pére Lachaise, do sydbarretiano Plato Dvorak ou a Aristóteles de Ananias Jr., uma versão mais hardcore (no sentido atonal) da Graforréia Xilarmônica.

A volta da Graforréia também foi um acontecimento importante pra cena da cidade. A banda tinha lançado há alguns anos uma fitinha demo – esses eram tempos pré-cd – que teve boa aceitação entre o público ligado na produção roqueira local. A Graforréia tinha um pequeno séquito de fiéis que comparecia religiosamente a seus shows, cantarolando e dançando todo o repertório da banda, umas canções neo-Jovem Guarda cantadas num sotaque tri-portoalegrense e repletas de trocadilhos infames, piadinhas sexistas e sacadas poéticas nonsense.

Eis que, do nada, a Graforréia decide pendurar as chuteiras e abandonar os palcos.

Após uma breve pausa, de um ano, mais ou menos, a banda volta pro segundo tempo com uma formação mais enxuta (de quarteto passou a trio), velhos sucessos rearranjados, todo o gás, prontos pra agitar a cena novamente.

O fim de semana de estréia foi bacana. Não foi fracasso, o que já consideramos sucesso. Na segunda noite, umas pessoas que tinham aparecido na inauguração repetiram o dose, alguns amigos a tiracolo. Noitada tranqüila, sem tumultos. Diversão na medida pra uma noite que é quase a ressaca da noite anterior – trago forte na véspera. Dentre aquele pessoal que aparecia no bar pela segunda vez, uns clientes assíduos potenciais, começavam a surgir os primeiros e legítimos garageiros, um público fiel e ao mesmo tempo transmutável que passaria a freqüentar o Garagem fazendo chuva ou sol, seja no inverno ou no inferno, na seca ou na ressaca, em noites movimentadas ou naquelas completamente vazias, em que somente eles próprios se revezariam entre os espaços desocupados do bar, uns deitados semi-adormecidos no sofá da sala dos fundos, outros em pé no patamar da escada tomando um arzinho e papeando à vontade, outros dançando excessivamente animados na pista e ainda os representantes do tipo mais clássico de personagem boêmio, o bêbado solitário: com o cotovelo colado no balcão por cinco horas consecutivas (pausa pra mijada), secando garrafa por garrafa, sabe tudo o que acontece no lugar, quem está afim de quem, quem ficou com quem, quem cheirou cocaína, quem vendeu cocaína pra quem cheirar cocaína, ele é o cara que salva o caixa em noites fracassadas, não come ninguém e chama o barman pelo nome. É o verdadeiro herói da noite. Anônimo, como deve ser o herói que se preze.

A seguir, alguns garageiros da primeira fase:

Drégus. Por um bom tempo foi o nosso Cliente Número 1. Graças a um descorno antológico que durou uma eternidade (love hurts, indeed), o Drégus mateve uma conta que, ao final de cada mês, praticamente cobria o aluguel da casa. Eu passava no banco em que ele trabalhava todo santo quinto dia útil do mês, pegava o cheque e depois repassava direto pra imobiliária. Nunca foi tão fácil. O que nos leva a uma das mais tristes constatações acerca das relações sócio-econômicas em nossa sociedade: é preciso um se fuder pro outro se dar bem. O Drégus apareceu com sua turminha na primeira noite. E na segunda, terceira, quarta e assim ad vomitum. De cliente passou a DJ, colocando som em festas, inclusive na concorrência. Sua canção-assinatura é I will survive, na voz de Tony Clifton.

Otto Guerra. Cartunista, cineasta e colecionador de ninfetas.

Cris e Guillermo. Namorados e artistas plásticos. O Guillermo era argentino e tinha um trabalho de pintura muito massa que deixou registrado em nossas paredes. A Cris era uma morena magrinha e pilhadíssima com uma voz estridente, adorava Sam Cooke. Uma vez ficou puta da cara porque eu disse pra ela a Factory é aqui, apontando pro papel laminado sujo e rasgado que cobria a parede dos fundos do palco. Vivem hoje nos States. Um em Nova York, a outra em Los Angeles.

Joy. Uma loira vamp e louca. Três em Uma: linda, rica e inteligente. Cocainômana empedernida.

Orson. O nome dele era Arthur, mas como era a cara do Orson Welles, virou Orson, de cara. Adotou o pseudônimo e viveu feliz pra sempre em meio à fauna (faina) garageira. Arthur era um pacato controlador de vôo no Aeroporto Salgado Filho.

Suzy Dolls. A mais célebre das groupies porto-alegrenses, imortalizada na canção do DeFalla.

Jimi Joe. O nosso Lester Bangs.

Teminha e Sonsinha. Duas meninas (hoje nem tanto) fiéis garageiras desde o começo. Eram irmãs.

Andréa e Carol. Idem. Só não eram irmãs. Amantes, i guess.

Márcio Ventura, o Rei Magro. Produtor cultural e vocalista da Nada Público – que, como o nome já indica, sempre padeceu por falta de... O Márcio inventou juntamente com o Fabriano (outro desses grandes músicos que abandonou o roquenrol) o Hermético Programa de Garagem, um show de variedades que estreou nos primeiros meses de 93, e agregava música, performances, esquetes, entrevistas, sorteios e o que mais pintasse. Mais tarde o Márcio se envolveu numa briga, foi expulso do bar e acabou virando persona non grata (por pura implicância, admito). Depois virou persona grata de novo e seguiu promovendo um monte de eventos no bar.

João Olair, vulgo João Palmeira, vulgo João Smog, vulgo João Vulgo. Baixista da Smog Fog, uma das bandas mais injustiçadas da história do rock gaúcho. Os caras nunca alcançaram o reconhecimento que mereciam. Eram geniais. Sozinho, o João era apenas um notório pentelho com uma cabeleira à Bob Smith (daí o Palmeira do vulgo) que mais tarde se tornou o operador de som do bar. Mesmo sendo um chato, falador compulsivo e bêbado invertebrado, pegava várias minas.

Big Ant. Um negão desdentado, malandro pra caralho, que vendia a cocaína mais malhada da cidade.

Fabinho. Morador do Edifício São Paulo, um prédio quase em frente ao bar. Com o passar dos anos, o Fabinho se tornaria o nosso braço direito. Coitado. Tudo sobrava pra ele: esperar a cerveja, fazer a limpeza, quebrar um galho no balcão, dar um jeito na elétrica. Valeu, Fabinho!

Gabardine. Um caso triste. Essa figura apareceu logo nos primeiros dias e a gente presenciou a trajetória descendente do cara. No começo era apenas um alcoólatra chato. Usava sempre uma gabardine creme. Aos poucos foi ficando um alcoólatra chato violento. Filão de cerveja, já não tinha dinheiro pra comprar sua própria bebida e uma noite agrediu uma menina depois de ter tentado tomar o copo das mãos dela. Foi expulso do Garagem e mais tarde, naquela mesma noite, vimos o Gabardine desmaiado no vão da escada que dava acesso ao bar, um buraco onde todo mundo mijava pra evitar a fila no banheiro, a gabardine creme encharcada e um cara em pé mijando em cima dele enquanto outro dizia mira da cara. O Gabardine sumiu completamente depois dessa noite, até que um dia eu e o Ricardo vimos a figura no centro. Tinha um olhar perdido e não nos reconheceu quando pedia a esmola, uma mão aberta e esticada pra frente e a outra na altura do peito, fechando a gabardine sem botões, preta de sujeira.

A gente tinha feito um acordo com o Vilson, um cara que tocava bateria em várias bandas e era a cara do Mick Finn, o parceiro do Bolan no T.Rex. O Vilson tinha um estúdio de gravação com equipamentos razoáveis (em termos de qualidade e bolso) e nos alugaria um PA por uma quantia justa, que seria paga com uma pequena parcela da bilheteria, o equivalente a 30 ingressos. O Vilson seria também o nosso operador de áudio oficial. Com um PA decente, capacidade pra 150 pessoas (mais tarde, com todas as mudanças e reformas, esse número quadruplicaria) e uma proposta justa de divisão dos lucros: 100% da bilheteria pros músicos, menos o custo do som. Óbvio que todas as bandas da cidade iriam querer tocar no Garagem.
(continua)

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4 Comments:

Blogger Dinho F said...

hallo leo!
seguinte velho, tá demais essa série de histórias "garagentas". já ouvi alguém dizer que elas tem que ganhar capa dura e brochura(não lembro quem nem onde, maldito old eight), pô que tal isso tomar corpo hein?hein? valeu e até mais.

1:54 AM  
Blogger mutantismos said...

leo moses! tu eh bom!

11:55 AM  
Blogger clandestini said...

um tempão que eu não passava por aqui. e confesso estar bastante feliz ao poder acessar novamente o meu blog preferido!

vou comprar seus livros!

2:19 PM  
Blogger sonsy said...

oi leozinho!!! (assim q a gente te chamava e chama ainda)Adorei ser citada eu e a Teminha!!!!
Continua escrevendo, várias pessoas me disseram q meu nome tava aqui.
Amei!!!
bins
Sonsy

12:54 PM  

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