25.5.07

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE
Capítulo 8 - Up against the wall
Parte I

Além do stress com os bandidos, tinha o stress com a polícia. Era ordem expressa na porta: aconteça o que acontecer, não deixa entrar. É claro que nem todas vezes funcionava (principalmente as com mandado) e era horrível ver a polícia lá dentro, presença em oposição total a tudo em volta (principalmente à parede com o desenho do Silvinho Ayala com um guri cagando num capacete de brigadiano). Quando o porteiro era dos bons, conseguia segurar os tiras lá embaixo e mandava alguém chamar o primeiro dono que encontrasse pela frente. Eu, por exemplo:

Os hômi tão aí. Dizia alguém.

A reação dependia do meu estado, não digo psicológico, mas farmacêutico. Cocaína era o pior. Eu gelava de pavor em ter que convencer a polícia de que estava tudo OK cheirado. Era a prova de que tudo não estava OK. Chegava encarquilhado no portão, a boca seca se contorcendo em bicos e rictos, baba branca acumulada nos cantinhos, mal conseguindo pronunciar as palavras, terror & pânico:

T-á t-u-d-o O-O-O-k-a-y.

Não sei como acreditavam. Maconha era ruim também, não há nada que seja ruim que fique bom sob o efeito da maconha. Álcool era o normal: ruim. Agora ácido era bom. Controle total da situação. Eu me sentia o Rei do Mundo e enfrentar a polícia em tais condições era um ótimo desafio pra confirmar a minha soberania. Chegava a esfregar as mãozinhas de felicidade quando alguém vinha me dizer os hômi tão aí e eu no ácido. Ia até a entrada e já saía perguntando pro porteiro em voz bem alta e debochada:

Qualé o problema?

Os vizinhos mandaram baixar o som. Dizia o porteiro apontando pros hômi, que sempre vinham em dupla quando os vizinhos reclamavam do barulho. Primeiro eu olhava a plaquinha de identificação na camisa pra saber quem era o superior, depois encarava o sujeito bem nos olhos, um olhar-scanner que penetra a alma e saca tudo da pessoa na hora, e telepaticamente conseguia convencê-lo de que os vizinhos é que estavam errados. Uns tapinhas nas costas já meio que enxotando e segundos depois eles já tinham caído fora. Facílimo. Com cocaína seria uma merda, eu sairia balbuciando escusas e gaguejando justificativas sem eles terem perguntado nada, me dirigiria direto ao soldado deixando o sargento puto da cara com o desrespeito à hierarquia militar e com uma vontade louca de me massacrar, torturar, botar nos eixos, dar uma bela duma lição, me ensinar o que é ser homem, e ele mandaria baixar o som imediatamente sob ameaça de fechar a casa e eu imploraria clemência ajoelhado, o que inflaria seu ego como um balão cheio de peido e ele acabaria demovido da idéia por pura vaidade, entraria altivo na viatura com o soldadinho a tiracolo, ligaria a sirene e aceleraria em disparada pelo cruzamento cantando pneus e furando o sinal vermelho, não sem antes gritar que voltaria em dez minutos pra ver se a gente tinha mesmo baixado o som que é pra deixar bem claro quem é que manda aqui nessa porra.

Mas à vezes não tinha porteiro que segurasse e eles invadiam mesmo. A grande maioria das visitas – senão todas – era por causa do barulho. Algum vizinho insone ficava atordoando a polícia pelo telefone até que eles mandavam uma viatura verificar se a queixa tinha procedência. Três da manhã, a duas quadras do bar e a música já podia ser ouvida, alta. Bota procedência nisso. Mas a única coisa que podiam fazer era meter um terror psicológico porque a resolução do problema não compete à polícia – teoricamente, só a Prefeitura, através da Secretaria do Meio Ambiente, pode fechar um estabelecimento comercial por excesso de ruído, poluição sonora ou barulho que o valha. A sensação de impotência só fazia aumentar o desprezo dos policiais para conosco, um bando de drogados, putas e pederastas fazendo coisas ilícitas na madrugada e perturbando o sono das pessoas decentes. Se o porteiro não tivesse a manha de barrá-los (o que não devia ser fácil), eles invadiam mesmo.

Ver a polícia lá dentro era um SUSTO!, aparição medonha na penumbra, os bonezinhos brancos à primeira vista nos fazendo pensar que eram apenas alguns manos. Então o inconfundível uniforme cinza com as calças enfiadas pra dentro dos coturnos e os cassetetes nas mãos, armas nas cinturas. Cruz credo. Temia que algum cliente com o coração mais fraco pudesse ter um troço diante de uma aparição dessas. Daí eles entravam, olhares inquisidores, algumas perguntas e mais tantas ameaças, mandavam baixar o som e iam embora, solenes. Mal a viatura dobrava a esquina e tascávamos volume máximo de novo. O que é proibido é sempre mais gostoso, já dizia o povo.

Às vezes o perigo vinha sorrateiro e quase nos apanhava numa armadilha. Por exemplo, a vez que eu fumava um beque no pátio dos fundos com uns quatro ou cinco amigos, praticamente toda a clientela naquela noite. Todos riam faceiros em meio à montanha de entulho que era o pátio dos fundos nessa época. Rindo, fumando e bebendo e sendo jovens e felizes. De repente notei algo estranho: de dentro do bar não vinha som algum, a música tinha parado.

Apaguem o beque e fiquem quietos, eu vou lá dentro ver o que tá rolando. Falei pro pessoal.

Só mais um pega. Alguém disse e todos caíram na risada.

Shhhhh! Fiz com o dedo entre os lábios. Silêncio.

Alguma coisa estranha estava rolando, eu pressentia, peguei o isqueiro e atravessei a escuridão da salinha dos fundos, cheia de obstáculos: tralhas inúteis, restos de carpete, mesas quebradas. No breu da saleta, espiei por uma fresta da porta, uma porta velha, toda lascada que dava pro corredor do banheiro e só fechava por dentro com cadeado. Vi dois policiais caminhando pelo corredor em direção à salinha. Pus o cadeado na tranca e fechei-o rapidamente, os policiais chegarem até a porta e tentaram entrar, forçando a velha maçaneta. Um deles se abaixou e, pela mesma fresta que eu espiava, olhou do outro lado. Vi a cabeça com bonezinho branco se aproximando do buraco até se transformar num olhão que mirou na escuridão através da fresta. Desviei tirando o rosto do seu campo de visão e colei o corpo na parede. Deixei passar uns segundos pra recobrar do cagaço, olhei pela fresta e vi os policiais rumando pra saída. Abri o cadeado e saí. O Fabinho quebrava um galho no balcão naquela noite, me olhou apavorado:

Eles perguntaram pelo dono e eu disse que tu tinha saído. Disseram que voltam mais tarde.

Puta merda, essa foi quase. Gotinhas de suor frio brotavam da minha testa. Pedi uma cerveja e voltei pro pátio dos fundos. Os quatro ou cinco amigos continuavam rindo faceiros, bebendo e fumando e sendo jovens e felizes. Totalmente alheios ao perigo.

Seus cretinos, a polícia acabou de entrar no bar e vocês aqui dando gaitada e fumando maconha!

E eles:

Ah é é, entrou?

Quando?

Agora?

Ah, pára!

(risadas)

Ô, fuma aqui – alguém disse me passando um baseado – aquele acabou e a gente fechou outro.

Olhando o baseado que me passavam, sem saber se mandava todo mundo à merda ou se chamava a polícia de novo pra prender aquele bando de irresponsáveis ou ainda se aceitava a oferta mesmo, optei pela última alternativa. Resignado, dei um pega.

*

Nem sempre dava pra tirar de letra as visitas da polícia. Não digo essas visitinhas inócuas feitas em dupla pra reclamar do barulho, mas os verdadeiros e genuínos ATRAQUES, ações coletivas e planejadas em que a coerção é o meio, e o terror, a finalidade. O Garagem teve três atraques históricos.

1º Atraque Histórico: Os porões da ditadura

Alta madrugada, quase na hora de fechar. Bêbados remanescentes juntavam os últimos trocados pras saideiras. O show já tinha terminado e a música mecânica tocava num volume médio-alto (médio o suficiente pra não importunar o sono dos vizinhos e alto o suficiente pra ser bem ouvido lá dentro). Tudo calmo no front. Eis que duas viaturas estacionam na frente da casa. Apenas uma visita de rotina, pensamos. Nada ledo engano, aqueles tiras estavam mal intencionados. Sem que o porteiro pudesse detê-los, quatro brigadianos invadiram a casa e já saíram empurrando os clientes contra as paredes e revistando bolsos, cuecas, meias e sapatos. Olhei as plaquinhas de identificação pra saber a quem eu deveria me dirigir pra reclamar da invasão, mas não havia sargento entre aqueles soldados. Alguém começou a falar em direitos civis e mandado de busca e apreensão e foi logo repreendido com um chute de coturno no meio das canelas. Um brigadiano tentou tomar a bolsa de uma das clientes, a Lica (uma garageira das mais confirmadas conhecida por seu temperamento forte) e ela fez um escândalo. Em represália, ele torceu o braço da moça. A Lica gritou.

Numa atitude cavalheiresca de Casanova de fim de noite, o Dias entrou na história. O Dias era guitarrista e tinha tocado na Plastic Dream, banda-cometa da virada dos anos 80/90 que causara frisson na ceninha under com o hit Shake my mind, entoado na voz de outos dois garageiros beneméritos, o Régis e a Marion. Nessa época a banda já tinha terminado e o Dias se tornara um guitarrista bissexto, fazendo participações em alguns shows mas sem banda fixa. Tinha um fenótipo inegavelmente negróide, mas ficava puto da vida se fizessem qualquer insinuação quanto à cor de sua pele ou o encrespado do cabelo – o que fazia com que, nas internas, todo mundo se referisse a ele como o Noites.

Então o Dias, embevecido pela chance (sem falar no trago) de ganhar a menina em atitudes de gentleman, se interpôs entre ela e o policial, segurando o braço que torcia o braço da garota:

Como ousas? Disse o Dias com um ar de lorde indignado.

Cala a boca, crioulo. Disse o policial. E lascou-lhe um tapão que chegou a fazer eco. Todos na sala ficaram perplexos diante do ato brutal e inesperado, e a perplexidade congelou o tempo e os movimento deixando tudo ao redor em suspensão por um breve instante. Nesse átimo congelado, olhei a cara do Dias paralisada de susto como um menino que toma o primeiro tapa do pai, expressão acuada, ombros encolhidos, os olhos cheios d’água. Depois de um tapão desses, só mesmo um duelo pra recuperar a honra de cavalheiro ofendido, mas o Dias não pegou em armas e se recolheu num canto, assustado. Protestamos contra a violência dos policiais e eles mesmos se deram conta de que tinham passado dos limites. Sem pedir desculpas, foram embora. Depois que saíram baixou a maior deprê. Foda perceber com que facilidade podemos nos tornar reféns da violência, uma violência travestida de autoridade, castigo sem crime. Pagamos uma rodada saideira pra clientela prostrada e nos comprometemos em tomar uma atitude contra aquela arbitrariedade. Era nossa obrigação moral. Sobretudo em consideração ao Dias, coitado, que tinha levado a pior (e também porque se ele espalhasse a notícia de que polícia saía batendo nas pessoas no Garagem a nossa reputação (seja lá ela qual fosse) estaria arruinada). Pra ele foram duas saideiras.

No dia seguinte começou a peregrinação. Enredo de filme: o homem contra o sistema. Ou três homens contra o sistema, no caso. A nossa batalha: desafiar a polícia em sua própria fortaleza. As armas para travá-la: a coragem dos bravos, a determinação dos loucos e um saco de Papai Noel. Usar de argumentos contra a obediência cega e burra, acusar a casta militar, emaranhar-me kafkianamente nos interiores da burocracia invencível, registrar queixas em bem guardados quartéis de pátios ensolarados e corredores úmidos fedendo a água sanitária com ladrilhos faltando no chão, descer escadinhas subterrâneas que conduzem a saletas cheias de arquivos e móveis velhos mal-iluminadas por lâmpadas pendendo de fios do teto, a interminável espera em cadeiras gastas e comidas por cupim em frente à escrivaninha de um suboficial qualquer. O mais perto que eu jamais poderia chegar do que talvez tenham sido uma vez os tais porões da ditadura. Confesso que revivi o que nunca vivi. Sem apanhar, graças à Deus.

O Ricardo conseguiu o contato de um deputado ligado à defesa dos direitos humanos que foi dando uns toques de como a gente deveria agir. Fui até o batalhão a que pertenciam os soldados que invadiram o bar e identifiquei-os através de fotografias. A queixa era por agressão. O processo se desenrolou de tal maneira que, num dado momento, tínhamos quase todas as cartas na mão pra liquidar com aqueles milicos, o deputado pronto pra armar o maior bafafá na imprensa, o depoimento do agredido, nossa cartada final. Só que o Dias arregou, não quis depor. Disse que não se envolveria no caso por recomandação de seus advogados (sic). Ainda que o tapa tivesse sido na cara dele, o problema era nosso. Sem o depoimento da principal vítima, fomos obrigados a retirar a queixa depois de quase um mês de incursões sombrias nos meandros da burocracia militar. Morremos na praia, como diria o meu avô. Mas pelo menos mostramos praqueles milicos com quem eles estavam lidando.
(continua)


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3 Comments:

Blogger renatodias said...

Com certo distanciamento brecthiano, claro, até porque estar em Brasília, lugar do Planeta Terror, (todos parecem zumbis) - começando pelos lobistas – depois da décima sessão de daime no United Vegetables, confirmo, o que nunca será: o que não tem governo nem nunca terá, o que não tem juízo! Garagem. Hermética. Fecha ( ). Essas reações psicóticas analisava friamente distanciado numa provável parede do bar. É o que eles chamam... Foda-se. As pessoas saem para buscar uma cerveja lá nos fundos ou passam pelo corredor. Ir ao banheiro... Não entendo muito bem os códigos de linguagem. Paciência, você está sozinho encarnando não sei quem. John Fante? Lembrem-se, Porto Alegre é frio... Alguém está a fim de ficar sozinho. Afinal, o clima é suspeito e você nunca sabe o que pode acontecer. Era assim que ele se sentia no casarão da /Rua Barros Cassal\ . Clara Averbuck, não sei se escreveu certo, vivia lá. Viva Hique Gomes! A máquina não obedece. Jornalismo narrativo, estilo gonzo de Hunter Thompson, literatura beat de Jack Kerouac e William Burroughs; com o new journalism de Gay Talese, Tom Wolfe e Norman Mailer. Eu queria dizer isso para o blog. Talvez não seja nada disso. Ou tudo isso e mais um pouco. Você se sente um dos Tarnation da história. Mais divertida é claro, menos gay também. Mais solitária. Socorrendo as caretas sob custódia da tia. Assim como o Ocidente havia menores. Não corrupção, mas abandono de menores delinqüentes. Chega. Vou escrever aqui.

12:37 AM  
Blogger Leonardo said...

classe, memórias de um sargento de milícias no melhor estilo homen anti-bombas.heheheheeee
ta dá hora os textos léo, da hora mesmo. tem que publicar. aquelas paredes tem muita história pra contar. conheci no fim já, ali por 96/97 quando vim morar em POA. o melhor eram os shows da ultramen, Classa A.
eu sou o gremistão que foi a curitiba no mesmo bumba que tu pra ver os Beastie Boys.
abraço

4:49 PM  
Blogger mutantismos said...

e?

5:10 PM  

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