1.6.07

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE

Capítulo 8 - Up against the wall

Parte II

2º Atraque Histórico: O aliciador de menores

De maneira que na segunda vez eles se puxaram, os filhos-da-mãe. Vieram com tudo: mandado, delegada, agentes do Denarc, pé de cabra e o que mais fosse necessário pra arrebentar com aquele abjeto covil de drogas perigosas. Chega a ser engraçado. O único indício de consumo de drogas que acharam foi um tíquete de cerveja que nem fora usado naquela noite, mas não impediu os sacanas de, na falta de nada melhor pra me incriminar, enfiarem um processo por aliciamento de menores no meu rabo. Isso que eu devia ter pouco mais de 18 anos e por muito pouco não era um menor myself.

A história o seguinte:

O Piá, figura central da cena rap gaúcha, começou a agitar umas festas às quartas-feiras. Nessa época o Piá ainda era um branco mirradinho e não me perguntem como, com o passar do tempo e num processo inverso ao do Michael Jackson, o cara conseguiu se transformar num negrão forte. O Projeto Rap POA era conceitualmente bacana (trazer os grupos de rap da periferia (ou não) pra se apresentar no bar), pero economicamente um fracasso. O público incipiente do projeto era composto: 1) ou por uma pirralhada que mal tinha dinheiro pra entrada, por sinal, baratíssima; 2) ou por uma turma de skatistas hardcore que só aparecia na finaleira quando a gente já estava louco pra fechar e dava muito mais trabalho do que dinheiro graças ao comportamento zoador e briguento. Naquela noite o público era, por assim dizer, da primeira categoria: pirralhada sem grana. Também estava no bar, meio perdido e completamente de bobeira, o Caniço, dos Raimundos. Visita internacional. Coitado, deve ter tomando um cagaço quando viu a polícia entrando no bar. Foi um pouco antes do show começar. O grupo de rap, três negrinhas magrelas e um DJ, recém tinha subido no palco quando entrou uma mulher baixinha com um papel na mão. Ia à frente de um pelotão de brigadianos de capacete, cassetete, metralhadora e todo o aparato. A mulherzinha era a delegada e parecia furiosa. O papel se tratava do famigerado Mandado de Busca e Apreensão. Senti que estávamos totalmente fudidos. Se ao menos fosse um delegado.

Ninguém entra, ninguém sai. Gritou um policial.

Todo mundo na parede. Gritou outro, quase simultaneamente.

Eu e o porteiro fomos os únicos que escapamos da revista. Em compensação, tive que aguentar o péssimo humor da delegada. Não parava de sacudir o tal do mandado que lhe dava poderes pra revistar quem e onde bem entendesse. Era a lei, estava lá, assinado pelo juiz.

Confessa, onde estão as drogas? Não parava de inquirir.

Qual não foi o desapontamento da delegada e do pelotão inteiro quando terminou a revista e nenhuma droga foi encontrada. Nada, nada, nem uma pontinha.

Confessa, onde estão as drogas? Me perguntava a mulher, jurando que escondíamos um carregamento inteiro de cocaína em algum lugar na velha casa.

Drogas? Que drogas, minha senhora? Dizia eu. Tudo isso não passa de um grande equívoco.

A delegada foi se dando conta da roubada na qual tinha se metido. Como iria explicar pro juiz que o mandado de busca e apreensão que ele assinara só tinha buscado, buscado, buscado sem apreender porra nenhuma? Sem falar no custo de todos aqueles adicionais noturnos na folha de pagamento do pelotão.

Enquanto isso, um dos soldadinhos que revistava a casa reparou no chão de madeira cheio de frestas e começou a ter idéias. Foi até uma viatura e voltou trazendo um pé-de-cabra. Há alguns dias, após os pogos de um show de hardcore, uma tábua do piso em frente ao palco tinha quebrado. Munidos de martelo e pregos, substituímos a tábua quebrada por uma outra, um pouco mais estreita, que deixou uma sobra, uma larga fresta entre as madeiras. Através desse vão dava pra adivinhar muita sujeira e algumas bitucas de cigarro depositadas em cima do forro da lavanderia, no piso inferior. Foram essas imagens – a tábua nova e mais estreita do que as outras e o vão pelo qual se espiava alguma coisa entre o piso e o forro do andar de baixo, algo escondido, secreto, ilegal talvez – que deram idéias ao soldadinho. Já devia estar certo da condecoração, quando enfiou o pé-de-cabra no vão e arrancou a tábua fora.

Minha senhora, aí já é demais. Falei pra delegada. Quem é que vai pagar o prejuízo?

A delegada rosnou pro soldadinho e ele parou imediatamente. Pros ares os sonhos de condecoração do infeliz, decerto seria rebaixado depois dessa, aonde já se viu soldado ter idéia? O fato é que não havia droga nenhuma, isso era o que mais cedo ou mais tarde eles teriam que admitir.

Inconformados com a apreensão mais frustrada de toda a história do combate às drogas, resolveram apelar. A delegada encontrou um vale-cerveja na mesa do escritório e aí veio com o papo de venda de bebida alcoólica pra menores. A acusação até faria sentido em alguma outra noite, mas não naquela: nenhum daqueles pirralhos tinha dinheiro pra comprar um chiclete sequer.

Vamos pra delegacia lavrar a ocorrência. Disse a delegada já recolhendo o pelotão.

Como a acusação era de aliciamento de menores, a ocorrência tinha que ser feita na delegacia do menor que ficava longe pra caralho da minha casa.

Depois cês me dão uma carona de volta pro centro? Perguntei pra delegada. Não vendemos quase nada essa noite e eu não vou ter grana pro táxi.

Deixa pra depois então. Ela disse, e mandou que eu me apresentasse na delegacia o quanto antes.

Com a mais ingênua honestidade eu tinha quebrado o coração de pedra daquela mulherzinha mal-humorada e, sem saber, salvo meu próprio rabo. Se eu tivesse ido àquela hora pra delegacia, eles teriam me pego em flagrante e eu teria que pagar fiança se não quisesse passar a noite em cana.

Os ingênuos vivem incólumes, já dizia eu mesmo.

E aí veio mais um processo e dessa vez foi eles contra nós. Mas no fim foi happy-end. A coisa se arrastou por uns três anos nos quais, de seis em seis meses, eu tinha que me apresentar lá na tal da delegacia de menores, mas isso foi o pior que me aconteceu (ter que depor longe pra caralho de casa), porque o processo mesmo deu em nada. Arquivado. Totalmente sem fundamento: três menores numa festinha vazia, um vale-cerveja achado no escritório, um quase-menor acusado de aliciamento: era tudo o que tinham: nada. Ainda não foi dessa vez.

3º Atraque Histórico: O caso do cachorro

Nem dessa. Mas foi quase. Ao contrário dos dois outros atraques, em que o bar estava quase vazio, a casa estava atulhada de gente. Foi num show do Egisto e o Ricardo era o dono de plantão (leia-se: o cu na reta). Acontece que o secretário de segurança do momento era algum repressor filha-da-puta e a Brigada Militar vinha com tudo na ronda noturna. Todo final de semana eram blitzes em bares e esquinas movimentadas. Na noite em questão, o alvo foi o Garagem.

O bar bombava. Show rolando a todo volume, consumo de drogas desenfreado, doideira, loucurama. Típica noite garageira. De repente entram os hômi:

Parado aí!

Mão na cabeça!

Encosta na parede e abre as pernas!

Eram muitos, mas como a casa estava muito cheia demorou pra que eles controlassem tudo. A notícia de que os hômi tinham invadido percorreu o bar de boca em boca e quem tinha droga em cima atirou tudo pelos janelões. Chuvarada de cocaína e maconha no pátio, coisa nunca dantes vista. Mandaram parar o show e acender as luzes. Começou a geral.

O Ricardo estava no escritório e, qual marido traído, foi o último a saber. Quando se deu conta, entraram os hômi arrebentando a porta com metralhadora em punho como se fosse operação de guerra. Chegaram barbarizando, revirando equipamentos e derrubando coisas. Dessa vez não pouparam nem a staff do bar:

Mão na parede, Alemão. Disse um policial pro Ricardo (que na verdade é polaco).

De repente, apareceu fungando no escritório um desses cachorros treinados pela polícia. O bicho entrou e foi direto prum canto perto da parede, grudou o focinho no rodapé e não parou de latir. Rosnava, babava, gania, revirava os olhos. Encontrara alguma coisa a julgar por seu comportamento. O policial que o segurava pela coleira não parecia concordar. Puxava o cachorro pra trás, dava uns murros no lombo do bicho e dizia:

Esse cachorro tá doido.

O Ricardo prestou os devidos esclarecimentos, mostrou documentação, chorou, implorou de joelhos como de praxe. Enquanto isso o cachorro latindo com o focinho grudado no rodapé e o policial puxando-o pra trás, batendo no bicho e dizendo:

Esse cachorro tá louco.

Ignorando os avisos do cachorro, as porcos foram embora do escritório. Mandaram fechar o bar, recolheram pro camburão vários clientes que não portavam documentos ou que não tinham conseguido se livrar das drogas a tempo e saíram em parada militar cidade afora. Cortaram o nosso barato. Uma grande noite desperdiçada.

Mais uma vez, depois da passagem devastadora da polícia, ficou um clima de desolação no ar. No bar sobraram só os funcionários, os amigos, os músicos e os que tinham pulado os janelões em busca das drogas jogadas no pátio, funcionários, amigos e músicos inclusos. O Ricardo tomou as providências necessárias pra fechar o bar e depois voltou pro escritório pra acertar as contas. Mesmo com o fim da festa antecipado pela invasão da polícia, a bilheteria tinha rendido uma graninha. Durante o fechamento o assunto era um só: o atraque. O operador do som, o Olair, que já tinha desmontado o PA e também queria a sua parte do butim, entrou. O Ricardo comentava:

Ainda bem que eu não tinha nada em cima porque dessa eu não escapava.

É, mas um baseado caía bem agora. Disse alguém.

Eu tenho um beque. Falou o Olair.

Uma onda de suspense se formou na porta e veio crescendo ao lado do Olair conforme ele caminhava pelo escritório percorrendo o mesmo caminho do cachorro e se abaixando em frente ao exato ponto do rodapé onde o bicho tinha grudado o focinho. A onda atingiu seu apogeu e arrebentou em espumas de puro pasmo quando o Olair deslocou um pedaço solto da madeira do rodapé e retirou um tubinho de filme do buraco. O Ricardo parou de contar a grana e olhou incrédulo pro Olair que abria o tubinho e virava na mesa um monte de pontas fedorentas enquanto perguntava:

Alguém tem colomy?

O Ricardo surtou. As espumas brotavam de sua boca numa arrebentação de ódio. Uma raiva canina que dava vontade de avançar e trucidar com dentes e garras o Olair.

Idiotaimbecilretardadocretinofilhadumaputa!

Não havia ofensa no mundo que pudesse apaziguar a raiva do Ricardo e ofender propriamente o Olair. O filha-da-mãe quase nos ferrara por causa de um tubinho de filme cheio de pontas fedorentas. Ainda bem que o policial tinha tirado o cachorro pra doido, porque o Ricardo nunca seria capaz de dar uma explicação satisfatória pra um tubinho de filme cheio de pontas fedorentas mocozado no rodapé do escritório:

Isso não é meu, seu guarda. Diria o Ricardo.

É o que todos dizem, meu filho. Diria o policial, algemando e conduzindo pro camburão o meu pobre sócio.

Depois de xingar o Olair com todas as ofensas constantes no dicionário e muitas outras que não estão lá e ainda outras que ele inventou na hora, o Ricardo foi se acalmando e a raiva acabou passando. Alguém conseguiu um colomy e o Olair fechou o baseado de pontas fedorentas. Tocaram fogo. Vagamente distorcida pelo torpor da fumaça concentrada, a imagem do cachorro latindo e do policial puxando-o pra trás não saía da cabeça do Ricardo que, de repente, explodiu numa gargalhada. Que piada. O cachorro era o animal mais bem treinado do pelotão.

*

Eles nunca mais voltaram. Ou talvez até tenham voltado, mas nenhuma outra visita foi tão marcante quanto a última. Assim sendo, não há na memória registro de outras aparições da polícia no bar.

Também reza a lenda que, no final da década de 90, o Departamento de Narcóticos, após anos de investigações, teria estabelecido um ‘mapa das drogas’, no qual eram assinalados os bares de consumo e de tráfico de entorpecentes na capital. Essa separação possibilitaria que a polícia concentrasse suas ações somente nos pontos de tráfico, onde o volume de drogas era maior. Fontes ligadas à polícia afirmam que o Garagem era considerado um ponto de consumo: somente um bando de doidões inofensivos, músicos, artistas e estudantes, cheirando aspirina, pó de mármore, sal de fruta. Coisa pouca.

Seja como for eles nunca mais voltaram. Ou melhor: voltaram mas não puderam entrar. Naquela que seria a noite do nosso 4º Atraque Histórico, por mais um desses lances de sorte ou iluminação, a nossa incrível disposição pra sair completamente ilesos das mais fudidas enrascadas, não abrimos o bar. Um pelotão inteiro de policiais civis e militares, em ação conjunta e fulminante pra coibir o consumo de drogas e a baderna nos bares e imediações da Barros Cassal, teve que coibi-los tão somente noutros bares e imediações porque nada havia a coibir no Garagem. Silencioso e escuro, portas fechadas, vazio. Ninguém dentro pra ser coibido.

Marcadores:

5 Comments:

Blogger foppa said...

gênio.

10:55 AM  
Blogger foppa said...

doido.

10:56 AM  
Blogger Leonardo said...

loco
este último seria o atraque da segunda sem lei...

5:21 PM  
Blogger mutantismos said...

sem lei, sem atraque.

6:02 PM  
Anonymous marcos "Sheila" Kligman said...

bah, eu sei de algumas histórias punk do lugar, tipo quando um cara com perna mecânica brigou com um segurança e o cara perdeu a perna, mas o segurança tava tão invocado que começou a bater no loco com a própria perna dele huahuhauhau

2:35 PM  

Postar um comentário

<< Home