6.7.07

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE

Capítulo 13 - Cocaína dez real ou
Não basta descer até o fundo do poço, tem que cavocar

Parte I


Cocaína é uma merda. Só mesmo a séria tendência masoquista que me acomete pode servir pra justificar todas as vezes que usei essa droga de merda. Porque não houve uma sequer em que não tenha pensado: que merda. O único momento realmente bom da cocaína é quando se está com um lado do canudo enfiado na narina e o outro percorrendo a carreira, fazendo sumir aos poucos os floquinhos brancos (se não estiver melada) carregados no ar em direção ao nariz através do túnel feito de cédula enrolada: o ato de cheirar propriamente dito, o rito, momento que dura mais ou menos (dependendo do tamanho da carreia) um segundo e depois que o sujeito levanta a cabeça e dá uma aspirada forte sentido o amargo na garganta e levando a droga direto pro cérebro, plim!, se esvai junto com os dez reais. Então é só merda: boca seca, espasmos faciais, mãos geladas, suor frio, mau hálito. Em termos psicológicos os danos são ainda maiores. Nunca saquei essa de cheirar e se sentir o super-homem. Rolava o efeito adverso: o supermerda, dominado por uma sensação arrebatadora de fragilidade e solidão. Muitas vezes me peguei com os pensamentos mais sinistros sob o efeito do pó: suicídio, falência, incêndio, assassinato. Mesmo na companhia dos melhores amigos, em ambientes agradáveis e insuspeitos como o próprio aconchego do lar, na fruição da conversa viajandona de fim de noite eu podia identificar a base pessimista nas idéias e falas, um direcionamento negativo naqueles papos existencialistas típicos dos muito loucos, filosofia botequiniana baseada na certeza irrefutável de que a vida ruma pra morte. Sem falar nos sortilégios da deusa dos junkies, a Paranóia, em cujo altar todo drogado deve imolar-se.

A questão do sexo também é bastante complexa em se tratando de cocaína. Dizia o Tim Maia: quem muito cheira acaba dando o rabo. Só pela máxima desse especialista já dá pra sacar a complexidade do negócio. Na maioria das vezes é uma frigidez pânica, o aniquilamento de todo e qualquer tesão, sobrando nada além de uma libido seca que nem com colher se raspa do fundo do pote do corpo, o pau encolhido no meio da cueca, coisinha irrisória tipo pica de guri em domingo de piscina, o que faz com que ao roll dos pensamentos negativos imediatamente se acrescente o tópico impotência. E como beijar com a boca tão seca? Apalpar com a mão gelada? E o mau hálito? Cocaína e sexo aparentemente não combinam. Digo aparentemente, porque, pra confirmar a complexidade do caso, cocaína e sexo também podem combinar muito bem. Quando o pó branco abre a caixinha de Pandora dos bad feelings liberta outros bichinhos trancados juntos por engano, presos lá dentro por conta de instintos repressores, culpa católica, timidez, insegurança, homossexualismo latente, perversões sexuais extremas que na hora H (na hora S, do sexo) durante esse caratê de caralhos, bucetas, dedos, bocas e cus, são como o golpe decisivo que leva o lutador à vitória (ou ao empate como seria mais justo e agradável): a possibilidade de um orgasmo alucinante.

Repito: sexo e cocaína é assunto complexo. Como é possível uma mesma substância conduzir a estados físicos e psicológicos tão distintos? Explicaria Freud? O caso é que, afora a tendência masoquista, fica difícil encontrar justificativas pra compulsão mórbida de seguir insistindo no erro. Quem sabe a falta de nada melhor pra fazer, tédio ou mesmo a facilidade: o troço estava sempre lá ao alcance do nariz, toda hora alguém precisando do escritório pra dar um teco ou um traficante que vinha fazer uma presença pros donos ou um velho amigo ligadão à procura de um interlocutor. Em épocas mais nefastas, dava a impressão de que todo o bar estava cheirado, noites inteiras e consecutivas movidas à cocaína, centenas de pessoas em função do produto, comprando o pó de péssima qualidade que circulava no recinto. Se um traficante daqueles fosse pego pela polícia nunca seria enquadrado por tráfico. Tráfico de aspirina? De sal de fruta? Talco? Giz? Só no código de defesa ao consumidor poderia haver alguma lei que enquadrasse aqueles delinqüentes, algo como propaganda enganosa ou falsidade química.

O fundo do poço foi em 95 (equivalente ao 75 do Bowie: ano em que o cara não se lembra do que aconteceu porque estava afundado numa montanha de cocada). A maconha parecia estar fora de moda e era impossível conseguir um baseado no bar. Em compensação, cocaína, ou pelo menos aquilo que os traficantes diziam ser cocaína e que, pior, os consumidores acreditavam, tinha de sobra. Era gente esticando nas mesas, cheirando no banheiro de porta aberta, na escada, na frente do bar, na sala dos fundos, na pista de dança, traficantes gritando pelos cantos:

Cocaína dez real!

Seringas encontradas no dia seguinte pelos cantos do bar, em frestas no chão ou em lugares improváveis como a caixa da descarga do banheiro. Um dia não funcionava e fomos ver qual era o problema, o Ricardo subiu na privada, espiou pelo buraco e tirou de dentro da caixa três seringas enferrujadas. Alguns junkies têm lá seus caprichos.

O cúmulo da selvageria aconteceu quando traficantes começaram a vender pra traficantes. Gente que metia pó em outros bares da cidade e que, quando terminava o produto, vinha repor o estoque no Garagem onde a oferta era abundante. Acho que pelo menos 20% da nossa clientela nessa época era composta por traficantes. Isso quando o bar estava cheio. Vazio, podia chegar tranqüilamente a 100%. Tudo isso se passando sem que nós, os donos, tomássemos qualquer providência. Ocupados demais cheirando no escritório.

Alguns traficantes se tornaram personagens clássicos na noite garageira. Como o Big Ant, um negão magro e desdentado, malandro brasileiro típico, que uma vez vendeu aspirina prum traficante argentino e depois quase morreu de tanto tomar porrada na pista de dança. A história o seguinte: o cara apareceu no bar, grandalhão, jaqueta de couro e bota, anelões nos dedos, cabelo comprido bagaceiro de argentino, a motoca estacionada na frente, metia pó em bar de maurício e tinha ido ali pegar mais, entrou, perguntou quem vendia pro primeiro negão desdentado que encontrou e o Big Ant respondeu:

Tá na mão.

Daí que o Big A foi até o banheiro, cheirou o pó, esmagou umas aspirinas, voltou e vendeu pro gringo o remedinho, o cara pagou, botou o troço no bolso, subiu na moto e pulou fora, tudo muito rápido. Deve ter se dado conta logo em seguida porque foi o tempo de dar a volta na quadra pra que o cara já estivesse montado em cima do negão, imprimindo a forma dos anéis na cara subnutrida. Big Ant teria os dentes quebrados naquela noite se ainda tivesse dentes. Mas afora a malandragem inata, Big A era um cara legal, bem-humorado, excelente contador de piadas. Inteligente à sua maneira.

Tirando essas cagadas que tu comete de vez em quando, negão, tu até que é esperto. Eu costumava dizer pra ele. Preto, feio, pobre, sem dente, tu saiu em muita desvantagem nessa vida, se não fosse esperto já tava fudido.

Outro trafi gente fina era o Little Juice. Cara educado, pai de duas guriazinhas, vendia o pó menos malhado que poderia ser comprado no Garagem. Quando era muito ruim, o Little Juice dizia:

É bom. Mas fazia uma careta que entregava o jogo.

Vivia falando que um dia ia parar de vender, estava construindo uma casinha pra família nos fundos do terreno do pai, lá na Bom Jesus, e precisava muito da grana. Era discreto e nunca dava bandeira. De repente sumiu da noite e um dia o encontrei numa rua do centro, usava um uniforme de empresa e carregava uma pasta debaixo do braço. Morava com a família na casa que tinha construído sozinho, tijolo por tijolo. Não cheirava há meses.

Tinha também o Vibe, mais conhecido como Bad Vibe. Figura sinistra, estilo hippie-satânico, Charles Manson em versão de migrante nordestino em Porto Alegre. Barba rala e comprida, dentes estragados de comer cogumelo, dread-locks fedorentos, dúzias de colares dependurados no pescoço e anéis em profusão em torno dos dedos de unhas sujas (a do mindinho era mais comprida). Sempre aparecia acompanhado de uma menina bonitinha que parecia enfeitiçada, imersa num transe, se deixando beijar por aquela boca asquerosa e ouvindo passiva os comentários do charlatão:

Essa é filhinha de papai rico. Faz qualquer coisa por um teco.

Voz sibilante e acintosa. Se dizia bruxo, carregava um cajado com uma serpente de durepóxi esculpida no cabo e costumava ler a sorte de quem lhe comprava pó, a pessoa estendia a mão pra pegar o produto e ele a agarrava e não soltava até que fosse pago. Vidente e alquimista, pra lucrar no tráfico também usava métodos encantatórios: ao toque de seu bastão mágico, julgava transformar qualquer pó branco em cocaína.

Por fim havia o Johnny. Um loiro com cara de colono e cabelo Ramone, sempre de jaquetinha de couro, calça jeans apertada e tênis All Star. Circulava entre a gurizadinha punk, o cabelo amarelo em cima da cara, disfarçando as rugas de uma velhice precoce. Se dava bem, o filha-da-puta, sempre com alguma garota a tiracolo, quando não duas. Uma vez me contou do seu método com as mulheres. Entupia-as de cocaína a noite toda. Depois, em casa, com as minas fissuradas por mais um teco, fazia a proposta:

Já experimentou cocaína pelo cuzinho?

É mucosa, absorve igual. Completava com ar de doutor.

Rabos empinados e dá-lhe o Johnny a empoar os cus das minas. Depois de bem anestesiados, metia com tudo, o sacana. Mas um dia o Johnny sacaneou com a gente: passou uma nota fria no balcão, nota gorda, falsificação grosseira que o Gelson, o barman, aceitou num momento de vacilo. Azar o dele, pagou igual. Aí ficou putíssimo da cara e jurou o Johnny de morte. O Gelson, bicha macho pra caralho, disse pro porteiro:

Ó, se tu deixar esse cara entrar, eu faço o maior bafão, dou uma garrafada na cabeça dele e mato o filha-da-puta. Vocês não sabem do que eu sou capaz!

Bicha vingativa é foda. E o Johnny ficou sem aparecer por um tempão. Depois pintava de vez em quando e ficava varejando na porta por horas, escorado no poste da frente, rasgando as meninas que se aproximavam. Às vezes se fazia de louco e tentava entrar aproveitando um descuido do Jorge, o porteiro. Mas o velho tinha a manha, pegava o Johnny de leve pelo braço e sussurrava no ouvido:

Olha que o Gelson te mata.

E o Johnny dava meia volta.
(continua)

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6 Comments:

Blogger mutantismos said...

hey, leo, o primeiro paragrafo eh matador! excelentium 6mg!

2:35 PM  
Anonymous Anônimo said...

oi eu sou alina da claudia no irmão pedro
po quando vai sair o livro
?
e demais

10:03 AM  
Blogger feijao said...

O meu eu me lembro desse Bad Vibe ai, que loko bem asqueroso, é bem como tu falou, sempre com uma putinha a tiracolo, baita otário. Abs!!

5:59 PM  
Anonymous Anônimo said...

vc descreveu uma senssação que esta acontecendo comigo quando cheiro...no começo me sentia o super homen ,eu podia transar a noite toda com uma garota o meu pau tava sempre firme .Agora quando cheiro o meu pau fica bem pequeno como de um garotinho ,não sobe de jeito nenhum ,e da volta de de dar mesmo ...

2:25 PM  
Anonymous Anônimo said...

eu fico sadomasoquista com pó, até mijada curto.. coisa que sóbrio jamais faria.

11:12 PM  
Blogger Ana Líbia Fernandes said...

Adorei o capítulo. Undergroundíssimo!
Quando sai mais? Gostei do jeito como você conduziu a narrativa aqui.
Parabéns!

6:08 PM  

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