21.7.07

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE

Capítulo 14 - Edu K perneta


Outra medida pra bloquear a entrada da chinelagem foi a adoção do manjado sistema de cartão com uma consumação mínima. A consumação mínima era mesmo mínima: apenas o preço de uma cerveja. Mesmo assim evitava que os muito chinelões entrassem. Alguns amigos também ficavam de fora, mas aí era só mandar chamar que a gente liberava.


No início achamos que ia ser ótimo: a identificação do cliente na porta, controle maior nas vendas, no estoque. Mas foi péssimo. Não apenas por ter que conferir centenas de cartões às seis da manhã completamente bêbado após cada noite de trabalho, mas também porque tinha o lance dos calotes. Minas que perdiam o cartão e ficavam chorando com cara de gatinho triste até a hora de fechar e no fim eram liberadas, bêbados que dormiam no palco e eram rapados e deixados sem cartão, dinheiro e nem mesmo carteira de identidade pra gente confiscar ou ainda aqueles caras duríssimas que, ao fim da noite depois de trocentas cervejas marcadas, simplesmente diziam não tenho grana e aí era confiscar um documento e esperar a vida inteira pra receber a grana, já que uma segunda via saía muito mais barato.


Um desses calotes virou um caso folclórico.


A famosa história do Edu K perneta.


*


O Edu K perneta era um notório mala da noite roqueira. O apelido adivinha do duplo fato da figura ser um perneta que se auto-proclamava o Edu K. Acho que era um papo pra pegar as menininhas incautas, mas há de ser incauta pra acreditar numa lorota dessas. Andava de muleta, usava cabelo moicano, tatuagens nos braços. Ficava sempre na frente do palco, na maior empolgação. Pulava com uma perna só gritando e girando a muleta em volta da cabeça, cantava músicas que nem conhecia, derramava cerveja nos instrumentos da banda, coisas do tipo. Era um sujeitinho pegajoso, daqueles que te encontram e cumprimentam como se fossem amigos íntimos, o sorrisinho cretino estampado na cara, tapinhas nas costas, apertos de mão supercomplexos tipo negão do Brooklin, abraços efusivamente excessivos. Bêbado, ficava ainda mais chato e era comum que armasse confusão onde quer que estivesse, brigas, discussões, desentendimentos de toda a sorte, um causador de distúrbios ambulante (ainda que manco). O fato de ser manco e carregar a muleta só fazia acentuar a impressão de traste, de mala sem alças. Sabia muito bem como tirar proveito da condição física deficiente assumindo o papel do pobre aleijadinho sempre que lhe convinha, normalmente quando, num paroxismo de fúria, alguém partia pra cima dele.


O Edu K perneta aparecia seguidamente no bar, principalmente em eventos legais, show de banda bacana, festa descolada etc., tinha bom faro pra saber quando ia ter bastante gente pra ele encher o saco. Seja como for, apareceu numa noite movimentada. Deve ter ficado lá, perturbando por horas consecutivas.


No final da festa, quando eu fechava o caixa, o barman chega no escritório e diz:


Tem um perneta aí que tomou todas e não tem grana pra pagar a conta.


Fui até o bar pra ver qual era. O Edu K perneta estava lá, trêbado. O Paulão, o porteiro dessa época, segurava o desgraçado pelo cangote. A muleta estava largada no chão. Em cima do balcão tinha um cartão de consumação com várias cervejas marcadas e uma carteira vazia. Não lembro que desculpa deu, só sei que, um pouco pra me livrar do cara, combinei que ele pagasse na noite seguinte. Pensei que nunca mais fosse ver o caloteiro, o que me deixava simultaneamente aborrecido (pelo prejuízo) e reconfortado (por ter me livrado do mala).


Mas ele voltou na outra noite. Eu estava no escritório, que também era a cabine (ou melhor: esconderijo) do DJ. O Ricardo entrou:


O Edu K perneta taí, trouxe a grana pra pagar a conta.


Beleza, tu já pegou o dinheiro?


Não, tá na boa, ele me mostrou a carteira, tá recheada, depois a gente acerta.


E eu ainda pensei: tem certeza? Mas acabei não dizendo nada, sei lá por que. Retardamento mental, decerto.


Naquela noite o Ricardo foi mais cedo pra casa e eu tive que fechar o caixa. Déjà-vu total: no escritório, batem na porta, o barman. Já fui em cima:


O quê?


O perneta.


E me passou o cartão de consumação do cara: X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X.


O maldito tinha nos enganado duas vezes. Fui em direção ao bar. Precisava esclarecer qual era a jogada daquele filha-da-puta, afinal ele tinha mostrado uma carteira cheia de dinheiro pro Ricardo e o Ricardo podia ser bêbado, chapado e louco mas não era cego. Ainda mais em se tratando de $.


O bar já tinha fechado mais ainda rolava uma musiquinha de fundo, as luzes parcialmente acessas, um ou outro amigo mais chegado tomando a saideira e fumando um com os funcionários, que enchiam os freezers pra noite seguinte. Entre os remanescentes estavam as Little Sisters, que não trabalhavam mais com a gente mas eram freqüentadoras assíduas. A Flavinha e a Virgínia estavam sentadas na beirada do palco numa boa, curtindo os últimos momentos de uma viagem de ácido. Good vibrations etc.


Enquanto eu caminhava em direção ao bar, podia ouvir as risadinhas relaxadas das meninas. No meio do corredor me deparei com o Paulão segurando o perneta pelo cangote, completamente bêbado (o perneta, não o Paulão), meio que se apoiando na muleta, meio que pendurado, à mercê do tranco forte do segurança.


Qualé a tua, cara? Eu disse emputecido. Sei que tu tá cheio da grana, paga logo e vamos acabar com essa merda.


O Edu K perneta me olhou com uma cara de pateta. Pegajoso, colou a mão no meu braço e me entregou a carteira vazia:


Gastei tudo.


O Paulão, que já tinha revistado os bolsos do cara, balançou a cabeça, confirmando.


Cheirou toda a grana.


Então o Edu K perneta começou a encenar seu papel. Chorou, soluçou, ganiu. Se estrebuchava todo, um flagelo ambulante (ainda que manco) clamando por compaixão, criatura desafortunada, pobre vítima dos acidentes de trânsito, sacanagens da indústria farmacêutica ou outro drama humano qualquer. Mas por detrás da cena trágica eu podia perceber a farsa, risinhos bêbados escapulindo enquanto ele derramava as lágrimas de crocodilo. Enganei os otários mais uma vez, devia pensar, lá do fundinho do fígado. A mão pegajosa me agarrando o braço.


À merda.


Num acesso de fúria peguei o cretino pela camisa, dei umas sacudidas e empurrei-o pra longe, com força. O empurrão lançou o corpo alguns metros ao longo do corredor, a muleta caiu pro lado, uma perna pro outro.


Até então eu jamais tinha imaginado a razão do Edu K perneta ser perneta. Ou que tipo de perneta ele era. Eu pensava, sei lá, que era manco por causa de algum defeitinho na perna, pólio na infância, talidomida na amamentação, algo assim. Imaginava uma perninha deformada. Sem o pé, no máximo. Nunca cogitei que o cara simplesmente não tivesse uma perna inteira. Cena pesada, caros leitores, digna de filme trash. O corpo voando pelo corredor e a muleta e a perna postiça tombando cada uma prum lado, supersincronizadas. E eu olhando aquela perna de plástico cor de pele, cheia de fivelas, caída no chão, pensando:


Puta que pariu.


A cena congelou por um breve instante e nisso as Little Sisters chegaram atraídas pela barulho, rindo, englobadas por uma aura da Era de Aquarius, alto astral total, nada a ver com o clima pesado de freak show que rolava no corredor. A Flavinha vê a cena: o irmão, ameaçador, encarando um sujeito em lágrimas que jaz, sem uma perna, deitado no chão. Irmão mais velho, prevalecido na infância, dado a uns rompantes esporádicos de fúria, sabidamente sádico, histérico com certeza, de modo que minha irmãzinha não teve dúvida que eu tinha arrancado a perna do infeliz. Desatou a chorar, repetindo em pânico:


Por que tu fez isso? Por que tu fez isso?


Num efeito tipo dominó, a outra começou a chorar também. No chão, o Edu K perneta berrava que nem um porco com os minutos contados. Como se, de fato, lhe tivessem arrancado a perna. Histeria geral. Eu ali, segurando tranco. Mandei as meninas calarem a boca. Silêncio antes de qualquer descisão. O Paulão foi mais rápido e pegou o Edu K perneta que já tentava se esqueirar pra saída. Encheu-lhe de tabefes. Uns tapões que ecoavam no casarão. As meninas, em prantos, saíram ameaçando ligar pra polícia. Torturadores, diziam.


Interroguei o Edu K perneta sobre a grana enquanto o Paulão, qual um capataz de filme de gangster, esbofeteava o cretino sem piedade. Ele morava em Canoas, com os pais, e por um momento cogitei ir de táxi até lá pra cobrar dos velhos o dinheiro. Alguém me demoveu da idéia. Sabe-se lá que tipo de pais ele teria. A família do Leatherface decerto. Notei a pequena platéia formada por alguns clientes mais chegados e o barman e me empolguei: mandei o cara deixar as roupas e ir embora só de cueca.


Quando ele tirou a calça e o toquinho apareceu, me dei conta do horror da situação. A que ponto se desce, caros. Subiu pra cabeça, como se diz por aí. Ou desceu, sabe-se lá onde eu andava com ela. Recomposto, disse pro Paulão acompanhar o Edu K perneta até a saída e o eficiente porteiro, depois de chutá-lo escada abaixo, atirou a perna mecânica na cabeça dele.

*


No dia seguinte, relatei o episódio bizarro pro Ricardo. Também lamentei o duplo prejuízo que o desgraçado do Edu K perneta tinha nos dado. Duas noites bebendo às nossas custas.


O Ricardo, que pode até ser bêbado, chapado e louco, mas não é cego. Muito menos mudo, disse:


Bah, por que tu não ficou com a perna? Sabe quanto vale uma perna dessas?



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8 Comments:

Blogger mutantismos said...

mil e cem real. o cara daquela loja que vende instrumentos ali na brasil (saca?) me od=fereceu uma um tempo atras. juro.

12:18 AM  
Blogger mutantismos said...

po, léo, talvez eu seja o leitor que mais escreve. aquele xarope mesmo. até pensei nisso quandoe screvi o ultimo comentário (lea vai o chato escrever).

a maioria das histórias do garagem eu não lembro (acho que lembrei só uma até agora, duma batida furiosa). mas acho que é por isso mesmo que espero toda a semana por um novo capítulo. curisoidade quase científica, como tu mesmo escreveu.

o teu retrato tá aqui na parede do estúdio, junto com alguns outros que também gosto. o teu é dos que eu mais curto. e é claro que tu pode usar no livro, vou ficar honradissimo. aliás, o que tá aqui é teu - é só a gente combinar de eu te entregar um dia desses.

6:11 PM  
Anonymous Anônimo said...

Eu lembro desse Eduk perneta,realmente o cara era metido a agarar a mulherada se dizendo ser irmão do edu,mas ninguen aguentava o louco,cara puta chato,vivia bebado caindo pra la e pra ca na osvaldo mesmo pentelhava todo mundo todos corriam dele,um dia presenciei uma cena que eu esperei muito p ver,o encontro do Eduk perneta e o Eduk,foi ilario,a forma que o edu otratou e todos sabem que o edu não era muito educado,não tinha papas na lingua...depois disso nunca mais vi o perneta,dava ate pena da figura!!!!!uma frequentadora o garagito desde o inicio!!bjsss a todos que frequentavam o bar!!!!

7:54 PM  
Anonymous Rodrigo Rosa said...

Maravilha! O capítulo mais trash e trapalhões atee aqui. abraço.

9:47 PM  
Blogger Mateus Lago said...

haha afudê

9:53 PM  
Anonymous bozoi said...

eu conheço o edu k perneta, pior é q o cara tava na pulp do beco de junho, agora ele é cabelereiro não sei aonde, conversei rapídamente com ele, ele mesmo disse que só fazia merda nas antigas..

11:45 PM  
Blogger Cristiano Bronzatto said...

hilário!!!
Corujito,quase morri de rir!!!

1:29 PM  
Anonymous Anônimo said...

Só Sei que o edu k Perneta teve um caso depois com o Leo Felipe.. né seu Leo !! Vc sabe que voce gosta dele !!

8:35 PM  

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