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SURFING ON A ROCKET
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Apaixonado por esportes, drogas e política, foi colunista e repórter da Rolling Stone Magazine. A revista foi a primeira a publicar seus textos jornalísticos, que entraram pra história da profissão sob a denominação Gonzo.
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Capítulo 14 - Edu K perneta
Outra medida pra bloquear a entrada da chinelagem foi a adoção do manjado sistema de cartão com uma consumação mínima. A consumação mínima era mesmo mínima: apenas o preço de uma cerveja. Mesmo assim evitava que os muito chinelões entrassem. Alguns amigos também ficavam de fora, mas aí era só mandar chamar que a gente liberava.
No início achamos que ia ser ótimo: a identificação do cliente na porta, controle maior nas vendas, no estoque. Mas foi péssimo. Não apenas por ter que conferir centenas de cartões às seis da manhã completamente bêbado após cada noite de trabalho, mas também porque tinha o lance dos calotes. Minas que perdiam o cartão e ficavam chorando com cara de gatinho triste até a hora de fechar e no fim eram liberadas, bêbados que dormiam no palco e eram rapados e deixados sem cartão, dinheiro e nem mesmo carteira de identidade pra gente confiscar ou ainda aqueles caras duríssimas que, ao fim da noite depois de trocentas cervejas marcadas, simplesmente diziam não tenho grana e aí era confiscar um documento e esperar a vida inteira pra receber a grana, já que uma segunda via saía muito mais barato.
Um desses calotes virou um caso folclórico.
A famosa história do Edu K perneta.
*
O Edu K perneta era um notório mala da noite roqueira. O apelido adivinha do duplo fato da figura ser um perneta que se auto-proclamava o Edu K. Acho que era um papo pra pegar as menininhas incautas, mas há de ser incauta pra acreditar numa lorota dessas. Andava de muleta, usava cabelo moicano, tatuagens nos braços. Ficava sempre na frente do palco, na maior empolgação. Pulava com uma perna só gritando e girando a muleta em volta da cabeça, cantava músicas que nem conhecia, derramava cerveja nos instrumentos da banda, coisas do tipo. Era um sujeitinho pegajoso, daqueles que te encontram e cumprimentam como se fossem amigos íntimos, o sorrisinho cretino estampado na cara, tapinhas nas costas, apertos de mão supercomplexos tipo negão do Brooklin, abraços efusivamente excessivos. Bêbado, ficava ainda mais chato e era comum que armasse confusão onde quer que estivesse, brigas, discussões, desentendimentos de toda a sorte, um causador de distúrbios ambulante (ainda que manco). O fato de ser manco e carregar a muleta só fazia acentuar a impressão de traste, de mala sem alças. Sabia muito bem como tirar proveito da condição física deficiente assumindo o papel do pobre aleijadinho sempre que lhe convinha, normalmente quando, num paroxismo de fúria, alguém partia pra cima dele.
O Edu K perneta aparecia seguidamente no bar, principalmente em eventos legais, show de banda bacana, festa descolada etc., tinha bom faro pra saber quando ia ter bastante gente pra ele encher o saco. Seja como for, apareceu numa noite movimentada. Deve ter ficado lá, perturbando por horas consecutivas.
No final da festa, quando eu fechava o caixa, o barman chega no escritório e diz:
Tem um perneta aí que tomou todas e não tem grana pra pagar a conta.
Fui até o bar pra ver qual era. O Edu K perneta estava lá, trêbado. O Paulão, o porteiro dessa época, segurava o desgraçado pelo cangote. A muleta estava largada no chão. Em cima do balcão tinha um cartão de consumação com várias cervejas marcadas e uma carteira vazia. Não lembro que desculpa deu, só sei que, um pouco pra me livrar do cara, combinei que ele pagasse na noite seguinte. Pensei que nunca mais fosse ver o caloteiro, o que me deixava simultaneamente aborrecido (pelo prejuízo) e reconfortado (por ter me livrado do mala).
Mas ele voltou na outra noite. Eu estava no escritório, que também era a cabine (ou melhor: esconderijo) do DJ. O Ricardo entrou:
O Edu K perneta taí, trouxe a grana pra pagar a conta.
Beleza, tu já pegou o dinheiro?
Não, tá na boa, ele me mostrou a carteira, tá recheada, depois a gente acerta.
E eu ainda pensei: tem certeza? Mas acabei não dizendo nada, sei lá por que. Retardamento mental, decerto.
Naquela noite o Ricardo foi mais cedo pra casa e eu tive que fechar o caixa. Déjà-vu total: no escritório, batem na porta, o barman. Já fui em cima:
O quê?
O perneta.
E me passou o cartão de consumação do cara: X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X.
O maldito tinha nos enganado duas vezes. Fui em direção ao bar. Precisava esclarecer qual era a jogada daquele filha-da-puta, afinal ele tinha mostrado uma carteira cheia de dinheiro pro Ricardo e o Ricardo podia ser bêbado, chapado e louco mas não era cego. Ainda mais em se tratando de $.
O bar já tinha fechado mais ainda rolava uma musiquinha de fundo, as luzes parcialmente acessas, um ou outro amigo mais chegado tomando a saideira e fumando um com os funcionários, que enchiam os freezers pra noite seguinte. Entre os remanescentes estavam as Little Sisters, que não trabalhavam mais com a gente mas eram freqüentadoras assíduas. A Flavinha e a Virgínia estavam sentadas na beirada do palco numa boa, curtindo os últimos momentos de uma viagem de ácido. Good vibrations etc.
Enquanto eu caminhava em direção ao bar, podia ouvir as risadinhas relaxadas das meninas. No meio do corredor me deparei com o Paulão segurando o perneta pelo cangote, completamente bêbado (o perneta, não o Paulão), meio que se apoiando na muleta, meio que pendurado, à mercê do tranco forte do segurança.
Qualé a tua, cara? Eu disse emputecido. Sei que tu tá cheio da grana, paga logo e vamos acabar com essa merda.
O Edu K perneta me olhou com uma cara de pateta. Pegajoso, colou a mão no meu braço e me entregou a carteira vazia:
Gastei tudo.
O Paulão, que já tinha revistado os bolsos do cara, balançou a cabeça, confirmando.
Cheirou toda a grana.
Então o Edu K perneta começou a encenar seu papel. Chorou, soluçou, ganiu. Se estrebuchava todo, um flagelo ambulante (ainda que manco) clamando por compaixão, criatura desafortunada, pobre vítima dos acidentes de trânsito, sacanagens da indústria farmacêutica ou outro drama humano qualquer. Mas por detrás da cena trágica eu podia perceber a farsa, risinhos bêbados escapulindo enquanto ele derramava as lágrimas de crocodilo. Enganei os otários mais uma vez, devia pensar, lá do fundinho do fígado. A mão pegajosa me agarrando o braço.
À merda.
Num acesso de fúria peguei o cretino pela camisa, dei umas sacudidas e empurrei-o pra longe, com força. O empurrão lançou o corpo alguns metros ao longo do corredor, a muleta caiu pro lado, uma perna pro outro.
Até então eu jamais tinha imaginado a razão do Edu K perneta ser perneta. Ou que tipo de perneta ele era. Eu pensava, sei lá, que era manco por causa de algum defeitinho na perna, pólio na infância, talidomida na amamentação, algo assim. Imaginava uma perninha deformada. Sem o pé, no máximo. Nunca cogitei que o cara simplesmente não tivesse uma perna inteira. Cena pesada, caros leitores, digna de filme trash. O corpo voando pelo corredor e a muleta e a perna postiça tombando cada uma prum lado, supersincronizadas. E eu olhando aquela perna de plástico cor de pele, cheia de fivelas, caída no chão, pensando:
Puta que pariu.
A cena congelou por um breve instante e nisso as Little Sisters chegaram atraídas pela barulho, rindo, englobadas por uma aura da Era de Aquarius, alto astral total, nada a ver com o clima pesado de freak show que rolava no corredor. A Flavinha vê a cena: o irmão, ameaçador, encarando um sujeito em lágrimas que jaz, sem uma perna, deitado no chão. Irmão mais velho, prevalecido na infância, dado a uns rompantes esporádicos de fúria, sabidamente sádico, histérico com certeza, de modo que minha irmãzinha não teve dúvida que eu tinha arrancado a perna do infeliz. Desatou a chorar, repetindo em pânico:
Por que tu fez isso? Por que tu fez isso?
Num efeito tipo dominó, a outra começou a chorar também. No chão, o Edu K perneta berrava que nem um porco com os minutos contados. Como se, de fato, lhe tivessem arrancado a perna. Histeria geral. Eu ali, segurando tranco. Mandei as meninas calarem a boca. Silêncio antes de qualquer descisão. O Paulão foi mais rápido e pegou o Edu K perneta que já tentava se esqueirar pra saída. Encheu-lhe de tabefes. Uns tapões que ecoavam no casarão. As meninas, em prantos, saíram ameaçando ligar pra polícia. Torturadores, diziam.
Interroguei o Edu K perneta sobre a grana enquanto o Paulão, qual um capataz de filme de gangster, esbofeteava o cretino sem piedade. Ele morava em Canoas, com os pais, e por um momento cogitei ir de táxi até lá pra cobrar dos velhos o dinheiro. Alguém me demoveu da idéia. Sabe-se lá que tipo de pais ele teria. A família do Leatherface decerto. Notei a pequena platéia formada por alguns clientes mais chegados e o barman e me empolguei: mandei o cara deixar as roupas e ir embora só de cueca.
Quando ele tirou a calça e o toquinho apareceu, me dei conta do horror da situação. A que ponto se desce, caros. Subiu pra cabeça, como se diz por aí. Ou desceu, sabe-se lá onde eu andava com ela. Recomposto, disse pro Paulão acompanhar o Edu K perneta até a saída e o eficiente porteiro, depois de chutá-lo escada abaixo, atirou a perna mecânica na cabeça dele.
*
No dia seguinte, relatei o episódio bizarro pro Ricardo. Também lamentei o duplo prejuízo que o desgraçado do Edu K perneta tinha nos dado. Duas noites bebendo às nossas custas.
O Ricardo, que pode até ser bêbado, chapado e louco, mas não é cego. Muito menos mudo, disse:
Bah, por que tu não ficou com a perna? Sabe quanto vale uma perna dessas?
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(Crônica que eu tentei ler no Talk Radio de hoje)
O sujeito que mais entende o que se passa no mundo atualmente não é filósofo, economista, muito menos político. Ele não foi convidado pra palestrar no Fronteiras do Pensamento. O lugar de onde ele observa astutamente o que acontece ao redor não é a academia. Ele está nas ruas. Nas ruas de Nova York, nos club de Berlim, nos I-Pods dos garotos de Tóquio, Barcelona, Londres, São Paulo. Porto Alegre? Por que não?
Ele nasceu em New Jersey mas mora, desde os anos 1980, em Nova York. Tem 37 nanos, é do tipo meigo (meigordinho) e está sempre com a barba por fazer. É casado com uma ex-modelo, tem uma cadela chamada Petunia, é músico, produtor, DJ, dono do selo DFA Records e o líder de um dos grupos mais festejados do momento: o LCD Soundsystem.
O LCD Soundsystem (entenda-se: James Murphy) faz a melhor fusão de rock e eletrônica que já existiu. Uma música altamente dançante que traz em seu DNA elementos que a colocam no numa linhagem que começa em Sun Ra e passa por Velvet Underground, New Order e Daft Punk. Além de músico e produtor antenado (a DFA lançou o primeiro álbum do Rapture e tem em seu cast o Hot Chip, nome de peso da dance music), Murphy é um letrista inspirado. O primeiro hit do LCD Soundsystem "Losing my edge" é uma crônica do mundo contemporâneo mais afiada que as teorias de muitos estudiosos. A tecnologia, a internet, o acúmulo de informações, as novas gerações atropelando por trás, a fusão entre o rock e a eletrônica, as dúvidas diante de tantas possibilidades que a realidade (virtual ou não) oferece. "Losing my edge" é um discurso vertiginoso declamado num jeitão algo entre Lou Reed e Gill Scott-Heron com nariz entupido. É, sobretudo, um groove venenoso de contrabaixo distorcido, bateria e efeitos eletrônicos. Música pra dançar e pensar.
"Losing my edge" foi lançada em 2002 e três anos depois veio o primeiro disco, LCD Soundsystem, uma sequência de hits matadores que deixam ainda mais claras as referências de Murphy (como na balada beatle, "Never as tired as when I'm waking up" ou na faixa que fecha o disco "Great release", uma homenagem a Brian Eno). O álbum foi lançado acompanhado de um cd bônus com os primeiros singles do grupo, incluindo "Losing my edge".
Sound of Silver saiu no início de 2007 e com ele Murphy marcou mais pontos. "North american scum", o primeiro single, junta David Bowie e Kraftwerk numa canção pop obsessiva que fala da América e de seus habitantes, aqueles mesmos que elegeram Bush Junior. "Não culpem os canadenses", berra Murphy ao final da música. "All my friends", o segundo single, já ganhou covers de Franz Ferdinand e John Cale.
James Murphy anda aborrecido com sua amada New York City, dominada por mauricinhos descolados. Ele tem tocado nos mais importantes festivais dos Estados Unidos, da Europa e do Japão e atualmente está em turnê mundial de seu segundo disco (hoje, 20 de julho, ele se apresenta no Festival Vieilles Charrues, na França). Já se apresentou no Brasil no Skol Beats, em 2005. No final do ano passado, participou de um projeto da Nike e da Apple, criando a faixa "45:33", trilha sonora pra ser ouvida em I-Pods especiais durante exercícios físicos. Um dos últimos lançamentos da DFA é um single com as versões pra "All my friends" e um cover do LCD para "No love lost", do Joy Division.
"You don't know what you really want", repete 15 vezes James Murphy no verso final de "Losing my edge". Filosofia em forma de música pop. James Murphy sabe o que está acontecendo. Ele percebe as transformações pelas quais nossas vidas estão passando, transformações causadas pelo uso e pelo abuso da tecnologia. James Murphy traduz essas questões em música. Mesmo que você não entenda uma palavra do que o homem diz em seu inglês novaiorquino fanho, apenas se deixe levar pelo ritmo. Periga aprender.
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Capítulo 13 - Cocaína dez real ou Não basta descer até o fundo do poço, tem que cavocar
Parte II
Nessa época rolou um estranho fenômeno: todo mundo estava virando traficante, conseqüência da situação econômica hostil. Dali a pouco você encontrava um amigo que não via há um tempo, cidadão honesto e batalhador, figura acima de qualquer suspeita. Então desenvolvia uma breve conversa com o cara e, do nada, ele enfiava a mão dentro da calça, tirava da cueca um pedaço de papel higiênico amassado e abria a maçaroca. Disfarçadas na brancura do papel, apareciam as buchas:
Tafim? Tô fazendo uma mãozinha pra levantar um troco.
Também coincidiu que o cara que me descolava maconha um dia apareceu com pó. Tinha pegado de não sei quem, a um preço super bom. Um troço muito melhor que a porcaria que rolava no bar, aquele sal de fruta brabo. Comecei pegando um pouco de vez em quando. Em seguida já estava na função quase diariamente.
Coisinha de nada, mixaria. Eu pensava, patinho inconseqüente nadando em águas perigosas.
Passei a frequentar apartamentos de traficantes, uns lugares suspeitos, com latas de cerveja e cinzeiros sujos pelo chão. Tráfico de drogas é uma das piores profissões que pode existir. Além dos óbvios riscos com a lei – viver na contravenção et al – tem o lance de lidar com os drogados, o que é um grandessíssimo pé no saco. Ô, gente mais impregnante: 1) porque não têm simancol, batem no seu apartamento a qualquer hora (tipo cinco da manhã), gritam no interfone se não rola uma cocaína. Se você não estiver em casa, periga tocarem no vizinho pra perguntar, 2) por causa das manias.
Todo drogado tem uma relação muito peculiar com a droga que consome. Têm aqueles, por exemplo, que só cheiram com uma das narinas. Outros, revezam. Uns não cheiram em dinheiro porque pode passar doença. Outros, colonizados, só tecam em nota de dólar. Manias das mais variadas. Por exemplo, tinha esse cara que sempre pegava pó no bar. Cheirava todo dia, mas se alguém mencionasse a palavra vício perto dele tinha acessos ilusórios e moralistas sobre o seu auto-controle e eu paro quando eu quiser e blablablá.
O cara pintava, cedo da noite, e pegava uma buchinha. O traficante perguntava:
Não quer três? Te faço pelo preço de duas, superpromoção.
Não, eu só vou cheirar essa.
Tem certeza?
Tenho.
E então ele voltava dali a meia hora pra buscar mais uma e de meia em meia hora até as seis da manhã.
Pior são as manias nojentas dos drogados, como aqueles que peidam quando sentem o cheiro da cocaína. Eu tinha um amigo que, de tão cocainômano, só de ouvir a palavra cocaína ele já peidava.
Vamos pegar um pó? Alguém perguntava e as peristalses tinham início no interior do meu amigo. Eu tenho um canal do bom.
E ele quase se cagava.
Outra mania repulsiva dos junkies é lamber o plástico da bucha depois de cheirar o pó. Abrem a buchinha, esticam o plástico e passam a língua ou esfregam nas gengivas os resquícios do produto. Uma coisa muito nojenta. Uma vez presenciei um conhecido músico da cena local que, não satisfeito em ter quase dissolvido o plástico de tanto lambê-lo, lambeu também a própria nota com a qual cheirara o produto. Desenrolou a cédula e, em movimentos precisos e ritmados (me lembrou uma máquina de costura fazendo a bainha num tecido) percorreu meticulosamente com a língua lépida a nota de um real, das mais manuseadas na praça.
Também têm as manias dos cheiradores e as manias dos tomadores. Uma noite bateram na porta do escritório. O bar cheio de gente do lado de fora e eu entocado lá dentro. Abri uma frestinha e dei uma espiada, um vago conhecido (VC) acompanhado de um completo estranho (CE).
Tafim dum teco? Me perguntou o VC.
Os caras entraram, o VC pegou um cd e esticou duas carreiras, o CE pediu pra usar a pia (nessa época o escritório/casinha do DJ/cheiródromo ficava na cozinha). Achei que fosse lavar as mãos. Me abaixei pra dar o teco, o CE foi até a pia e voltou com a manga da camisa dobrada, uma seringa na mão, tudo muito rápido, perguntou:
Tudo bem?
Não seja hipócrita, pensei.
Vai firme.
Fiquei olhando o cara tomar o pico com curiosidade científica. Tirou do bolso um pedaço de barbante e amarrou no braço, fazendo o torniquete. Fincou a agulha na veia, afrouxou o barbante e empurrou o êmbolo com firmeza. Um fio de sangue escorreu do buraco depois que ele retirou a agulha. Pôs de lado a seringa e só então me veio a repulsa: quando limpou o sangue com a própria bucha vazia, ainda contendo uns restinhos de cocaína. Nem sei o que fez com ela depois, não pude mais olhar. Talvez a tenha engolido, junkies são capazes de qualquer nojeira.
*
Um dia recebi um telefonema. A namorada do cara que descolava o pó:
Sujou.
Fiquei completamente paranóico, eu tinha frequentado aquele apartamente demais nos últimos tempos. Comecei a achar que estava sendo perseguido, que a polícia ia invadir o bar a qualquer momento, que meu mundo, assim como o da Maysa, ia cair. Passei uma semana trancado em casa. Só na tele-pizza, sem tirar o nariz pra fora. Desliguei o telefone.
Alguns dias e pizzas depois, caiu a ficha:
Mas que merda eu ando fazendo?
Queimando o filme, botando tudo a perder.
Virando um viciado ainda por cima.
Se as previsões do Tim Maia estiverem certas eu acabo dando o rabo rapidinho.
Na primeira noite depois do meu auto-exílio, completamente limpo, observei estarrecido as cenas que transcorriam no bar.
O fundo do poço era terraço perto daquilo. Nossa clientela havia se transformado num bando de cocainômanos desesperados, gente suspeitíssima cheirando pelos cantos, a maioria homens usando bonés. Brigas explodiam a todo momento, ajustes de contas entre trafis, surras em consumidores inadimplentes, barbarismo.
Porra, por onde eu andei esse tempo todo? Perguntei pro Ricardo que assistia a tudo com o mesmo assombro.
Ele não respondeu à minha pergunta retórica furada. Assim como ele, eu sabia muito bem aonde a gente tinha estado nos últimos seis meses: trancados no escritório, cheirando todas, dançando a mesma valsa dos vampiros de boné, a casa inteira sob uma maldição como num conto de terror. Mas bastava interromper o consumo do veneno pra que o feitiço se desfizesse.
Putz, a gente tem que tomar alguma providência.
Urgente.
Vai sujar.
Feio.
Precisávamos de um plano para nos desvencilhar daquela teia de cocaína na qual estávamos enredados, uma estratégia de ação pra expulsar a escória e trazer de volta nossa clientelinha querida, drogaditos inocentes de classe média, gente que não trazia perigo nenhum.
Demos uma de Carlito Brigante. Chegamos em todo mundo que estava traficando no bar e falamos:
Ó, a partir de agora o lance vai ser diferente, chega de ficar traficando como se isso daqui fosse a Rocinha. Se nego for pego metendo pó aqui dentro vai expulso e não volta mais.
Depois que a chinelagem fosse expulsa a gente pensaria em como trazer os bons clientes de volta e encher os bolsos de dinheiro honesto, até porque com o desonesto eu só enchia o nariz e ainda estava perigando ir em cana ou perder o bar ou matar alguém de overdose ou me matar de overdose ou acabar dando o rabo conforme as previsões do Tim Maia.
Da noite pro dia as regras mudaram na casa, nada mais de cheirar nas mesas, traficar no banheiro ou gritar cocaína dez real na pista impunemente. Repressão total, neguinho escancarou usando drogas no bar: rua.
Mas foi só um tequinho no banheiro?
Não interessa: rua.
Um pega numa pontinha?
Foda-se: rua.
Em nossa cruzada moralizante logramos expulsar muitos traficantes e queimadores de filme, nunca sem antes ouvir juras de morte, ameaças de vingança, pragas mortais, que iam nos pegar na saída, nos matar, matar nossos filhos, esposas, mães, gatos, cachorros, periquitos. Mas a gente não estava nem aí, via o sujeito vendendo cocaína, chamava o porteiro e apontava na cara:
É esse, pode levar: rua.
Graças ao Bom Senhor ninguém jamais cumpriu as ameaças. Mas uma vez cheguei a pensar que tinha chegado, enfim, meu fim. Caminhava à noite pela Osvaldo quando um vulto se aproximou por trás, sorrateiro. Só o percebi quando já estava muito próximo, quase colado. Sussurrou no meu ouvido:
Se eu quisesse te dava uma facada.
Ufa, ainda bem que não queria. Era uma dessas figuras que eu tinha enxotado do bar, um negrinho com dentes (poucos) enormes e cara esfomeada.
Decidi evitar a Osvaldo à noite por uns tempos. A vida vale mais que uma cerveja na Lancheria do Parque.
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